Jogador Nº1 (Ready Player One, 2018); Direção: Steven Spielberg; Roteiro: Zak Penn e Ernest Cline; Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Lena Waithe, Ben Mendelsohn, Mark Rylance, Simon Pegg, T.J. Miller, Philip Zhao, Win Morisaki, Hannah John-Kamen; Duração: 140 minutos; Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica; Produção: Steven Spielberg, Donald De Line, Dan Farah, Kristie Macosko Krieger; País: Estados Unidos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia no Brasil: 29 de Março de 2018;

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Steven Spielberg parece não oferecer sinais de desgastes quanto às produções de seus filmes, sendo que desde 2015 é de praxe termos um novo filme do diretor por ano, porém, é aqui que ele faz sua obra mais palatável em anos. Coincidentemente, é a primeira vez em uma década que o cineasta retorna a uma produção live action de aventura, ainda que muito de Jogador Nº1 (Ready Player One) -as sequências no mundo virtual- partilhem da mesma técnica utilizada em seu As Aventuras de Tintim, animação lançada em 2011 e impedida de concorrer ao Oscar por regra contrária à captura de movimento.

Mesmo com a recente pegada de Steven Spielberg, mais relacionada a temáticas históricas e cinebiografias, como Ponte dos Espiões e The Post – A Guerra Secreta, é possivelmente esse o filme que se faça mais relevante em sua carreira nos últimos anos, senão também o mais importante. Porque ainda que, acima de tudo, precise somente que sua narrativa funcione para se dizer um filme bem-sucedido e realizado, há aqui, e naquilo que se vê representado na obra, algo que vai muito além disso. A realidade é que este se faz um projeto deveras ambicioso e que carrega consigo um peso além do mero respeito aos elementos da cultura popular dos quais se utiliza.

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Dada a proeminência gerada tendo em vista os diversos fatores envolvidos em Jogador Nº1, há de se construir uma obra que flerta com o ápice atual da cultura de convergência, onde realidade virtual se estabelece menos como uma opção e mais como uma alternativa a qual teremos de nos adaptar futuramente. O que torna as experiências de diversos tipos de mídias em algo completamente novo, um terreno a ser desbravado. Promove-se a interatividade e o desenvolvimento narrativo se vê cada vez mais refém do consumidor para contar com seu retorno e engajamento.

Acontece aqui principalmente pela obra de Ernest Cline, que o próprio adaptada junto de Zak Penn, ter como foco um videogame. De certa maneira acaba sendo algo semelhante ao que faz o inerte Jumanji: Bem-Vindo à Selva, que precisa emular um jogo inexistente -e falha dada a incompetência de seu realizador. As intenções, entretanto, são completamente diferentes, sendo que Spielberg opta, sim, por construir um discurso muito maior em relação a “realidade x realidade virtual” e em como um influencia o outro. Simultaneamente acaba também assumindo o compromisso de se fazer um entretenimento, tirando proveito das diversas referências para suas duas funções enquanto as mescla com seu próprio conteúdo.

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Como realizador, ao menos visualmente, Steven Spielberg dispensa comparações e consegue criar sequências interessantes, a principal delas com O Iluminado, adaptação do livro de Stephen King comandada por Stanley Kubrick, ainda mais efetiva se já assistido ao terror. A admiração de um cineasta por outro é fundamental para o funcionamento do momento em questão, que é menos nostálgico e mais embebido de uma veneração. Na realidade, Jogador Nº1 consegue evitar cair em armadilhas da nostalgia, tornando mais orgânicos os elementos da cultura pop inseridos aqui, ainda que haja uma característica obsessiva dos personagens com isso, principalmente na resolução do mistério da trama central, e evidente em cada exposição verborrágica, encontradas aos montes nas validações de conhecimento desses próprios elementos.

Em contrapartida, também se faz sobressair em momentos um problema constante em Hollywood quanto a adaptação de jogos. Porque, mesmo que o OASIS seja puramente ficção, ao tentar emular o que seria um jogo, acaba nos entregando algo similar a um gameplay. Então o espectador acaba por encarar algo que clama por interação, contudo, ao se ver impossibilitado de o fazer, de concretizar esse impulso, se encontra, portanto, afastado do que vê. Para uma comparação mais funcional, esta frustração na qual aqui culmina o resultado, dá lugar a satisfação e uma sensação mais completa em jogos -se é que é correto denomina-los apenas assim- como Heavy Rain e Beyond: Two Souls, executados à perfeição.

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É difícil, aliás, encontrar qualquer semelhança à perfeição em Jogador Nº1. É inegável que com suas inúmeras referências possa divertir, e muitos dos alívios cômicos arrancam risadas deliciosas, todavia são insuficientes frente todo o restante. Alguns elementos, inclusive, infelizmente se fazem adições desnecessárias. Na versão original a dublagem de um dos personagens que aparece em meados do filme é feita por T.J. Miller, que fora de Silicon Valley é sempre dono de um humor que raramente funciona e constrange ao cansar de tentar ser engraçado sem qualquer sucesso. Pior, ainda o envolve de maneira destoante numa das tramas mais fracas e disfuncionais, com o vilão caricato de um constantemente subutilizado Ben Mendelsohn (Rogue One: Uma História Star Wars).

A narrativa apresenta esses problemas por todos os lados, também sendo ingênua em como estabelece o personagem de Mark Rylance (Dunkirk), emprestando estereótipos para desenvolver o mesmo, e tornando bastante frágil o discurso que, finalmente, deseja construir. Resvalando em protagonistas que pouca ou nenhuma emoção aspiram, menos por culpa dos próprios e mais pelo que protagonizam, soa vazia. Especialmente porque, sendo uma obra que almeja tantas coisas, pouco se aprofunda em qualquer uma delas, sem desenvolver com qualidade nenhum dos elementos que quer fazer parecer importante, se perdendo em meio ao processo do que a “ficção” devia tornar importante na “realidade real”.

Jogador Nº1 – Trailer Legendado:

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