Crítica | The Post – A Guerra Secreta

The Post – A Guerra Secreta (The Post, 2017); Direção: Steven Spielberg; Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer; Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys; Duração: 116 minutos; Gênero: Biografia, Drama; Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal; País: Estados Unidos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia no Brasil: 25 de Janeiro de 2018;

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O diretor americano Steven Spielberg nunca escondeu sua admiração pelo cineasta John Ford, quem ele considera sua maior influência no meio. Nos últimos anos, Spielberg entrou num momento cinematográfico onde não só reverenciava Ford, como também tentava alinhar tanto sua marca pessoal quanto emular à marca do diretor. Talvez os casos mais emblemáticos disso sejam os três filmes que compõem essa espécie de “Trilogia da Retórica”, qual Spielberg assinou nessa década, iniciada por Lincoln (2012), prosseguida por Ponte dos Espiões (2015) e agora finalizada com The Post – A Guerra Secreta.

Troca-se a terra sem leis do faroeste fordiano, por escritórios burocráticos, tribunais, cortes, salões institucionais, onde o Poder Constitucional emana, sem essa ilicitude de justiça pelas próprias mãos. Para Spielberg, um embate verborrágico vale mais que um duelo armado. As intenções do cineasta são, além de nobres e autorais, bastante ricas cinematograficamente, chegando a conseguir ampliar a essência dessas questões nos dois filmes anteriores. No entanto, o problema com The Post é sua conveniência em falar sobre tantos assuntos de relevância com pouca dimensão e sua casualidade pelo processo de produção. O longa foi adiantado decorrente sua temática relevante, após a vitória de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

O filme narra sobre o escândalo dos Papéis do Pentágono (Pentagon Papers) no início dos anos 70. Tais papéis eram um estudo da Secretaria de Defesa norte-americana sobre as condições na guerra do Vietnã, encomendados desde Truman (em 45) e prosseguido por todos os sucessores presidenciáveis. Acontece que todos os então presidentes souberam claramente das baixas chances de vitória no Vietnã, porém prosseguiram por considerar humilhante uma derrota norte-americana para um país considerado insignificante. Richard Nixon, então ocupante da Casa Branca durante o escândalo, tenta calar a imprensa a fim de evitar o vazamento de tais documentos. Então, a equipe do Washington Post, liderado pela Katherine Graham (Meryl Streep) e pelo editor Ben Bradlee (Tom Hanks) entram num embate direto com o presidente em prol da liberdade de imprensa.

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Muito se comparou, desde o início, com oSpotlight, a começar o fato de um dos roteiristas também ser o mesmo. Contudo, o comparativo fica apenas na temática, pois o vencedor do Oscar tem um caráter mais investigativo do que The Post, que prefere focar nos embates políticos e nos dilemas éticos dos personagens. Nessa primeira questão ele consegue ser um filme instigante, porém a forma em que aborda a dualidade de seus dois protagonistas é deveras questionável, para não dizer conveniente. Ben Bradlee era amigo dos Kennedy’s, frequentador assíduo da Casa Branca, porém percebe após o assassinato de John Kennedy que aquela amizade não era tão verdadeira assim, tendo em vista tantas vistas grossas que o mesmo já fez como jornalista a fim de aliviar para os amigos. O mais emblemático no entanto são os questionamentos de Katherine, que se vê diante de alvejar seus amigos pessoais e investidores ao publicar os documentos. Ela, que por ser a primeira mulher a ocupar o ofício de editora chefe do Jornal, se vê diante de tantos conflitos que a tornam uma pessoa altamente passiva, refém das opiniões alheias, com pouca personalidade. A forma na qual o roteiro tenta construí-la, como uma mulher em ebulição, tentando romper com o patriarcado e assumir seu protagonismo, misturado com essa passividade que tenta escapar de tais confrontos, levando uma vida como socialite, soa totalmente destoante de verdade. Chega a ser irônico os dois filmes que acontecem ali, o primeiro é o dos documentos e o segundo dessa mulher que precisa romper com a própria passividade.

A direção de Spielberg é manipulativa ao extremo, no ponto ao qual ele pretende dirigir o público a fim dele vivenciar essas emoções que tenta transpor da tela para sala de exibição. Com direito àquelas cenas clássicas, de câmera lenta, trilha (muito boa) de John Williams ao fundo tocando em compasso, com uma personagem falando sobre princípios primordiais para viver em uma democracia, aos quais parecem cada vez mais fora de moda. Enfim, são cenas tão manipuladas para serem emocionantes e, pior, relevantes, as tornando um pouco bregas. Diferente de Lincoln e Pontes dos Espiões onde havia maior sutileza, até na questão da palavra envolto na construção da narrativa. Em The Post tudo soa bastante forçado em prol da relevância e de uma resposta à altura ao atual ocupante da Casa Branca.

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Consigo entender as intenções de Steven Spielberg ao antecipar “The Post – A Guerra Secreta”, ele quis fazer um manifesto em prol das liberdades e da libertação de dogmas que já não serviam mais nos anos 70, imagina nos dias atuais. Contudo, tenho a impressão de que foi feito tudo de forma tão corrida que diminuiu o verdadeiro potencial ali presente. O filme acaba ficando num nível comum, não ousa e até apela um pouco pro maniqueísmo, o resultado final não é ruim, porém é completamente aquém. De memorável talvez só as atuações de Meryl Streep e Tom Hanks, ambos em seus melhores momentos em anos, ela que sai da sua zona de conforto, constrói uma composição arriscada para uma personagem frágil, consegue se expressar mais com gestos e olhares do que com suas palavras de fato. Na antítese de Streep, Hanks constrói um personagem com grande vitalidade e empatia, foge do caricatural. E o resto do elenco super estrelado é a cereja do bolo para tornar The Post, ao menos, uma boa experiência e só. Sem ter nem a sutileza e tão pouco a relevância do que um John Ford teria. E para Spielberg ainda fica o desafio de atingir.

The Post – A Guerra Secreta – Trailer Legendado:

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Crítica | The Post – A Guerra Secreta

The Post – A Guerra Secreta (The Post, 2017); Direção: Steven Spielberg; Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer; Elenco: Meryl Streep, Tom

Nota
Direção
Roteiro
Elenco
Trilha Sonora
Fotografia
Summary
72 %
Total
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