Dunkirk (2017); Direção: Christopher Nolan; Roteiro: Christopher Nolan; Elenco: Fionn Whitehead, Tom Hardy, Mark Rylance, Cillian Murphy, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Styles, Aneurin Barnard, James D’Arcy, Barry Keoghan, Kenneth Branagh; Duração: 106 minutos; Gênero: Ação, Drama, Guerra; Produção: Emma Thomas, Christopher Nolan; Distribuição: Warner Bros. Pictures; País de Origem: Reino Unido, Estados Unidos, França, Holanda; Estreia no Brasil: 27 de Julho de 2017

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Como fã do cinema de Christopher Nolan, um dos receios que tive quando anunciado seu próximo projeto foi seu afastamento da temática narrativa ficcional. Justamente por seu trabalho ter um molde que precisava da maleabilidade que suas alternativas a realidades criavam, temia que com o fardo de ter que se ater a fatos podia fazer surgir um empecilho. Entretanto, elementos vistos em A Origem (Inception) parecem um mero esboço enquanto o que acompanhamos em Interestelar (Interstellar) se mostram um rascunho, tudo uma preparação para o que Nolan faz em Dunkirk, onde o cineasta revela uma cartada excepcional em sua manga, fazendo lembrar do discurso sobre mágica em O Grande Truque (The Prestige), e entregando aqui o que pode, discutivelmente, ser a melhor obra de sua carreira. Numa escala épica e em um filme mais enxuto, o âmago do que encontramos em Dunkirk soa tão pessoal, colocando em perspectiva a humanidade de personagens que se encontram em situações diferentes meio a adversidades tal que se deu no lugar, justamente como os combatentes que viveram essa realidade infeliz. A compreensão desse estado que se viu estabelecido em Dunkirk, transportando com certa crueza e mantendo um olhar consciente, faz do filme homônimo algo memorável.

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O conjunto da obra é o que causa uma imersão impressionante. Desde a abertura somos conduzidos à hostilidade da situação e, obviamente, quanto maior e melhor a tela, assim como a distribuição de som da sala, mais válida é a experiência. Fica claro a princípio o cuidado que recebem os elementos técnicos da produção. Todo o design de som é de arrepiar e auxilia na sensação de se estar presente naquele momento, junto dos personagens. A trilha sonora de Hans Zimmer -e alguns colegas- aspira às grandes composições do músico e ditam o ritmo da tensão numa sincronia descomunal. O que este conjunto cria está diretamente interligado, não só na forma como nos conduzem durante o filme, mas como influenciam na experiência. São raros os momentos de silêncio, ao menos quanto a parte musical, e quando se fazem presentes finalmente nos damos conta do quanto Dunkirk requer de nós um investimento pessoal, psicológico e físico, estes últimos principalmente nas horas posteriores, quando o filme ecoa, em pensamentos e nos ouvidos. É de tirar o fôlego, e quanto mais próximos do clímax, maior é a tensão que esses elementos parecem exercer, sendo responsáveis por grande parte desse envolvimento que é gerado entre espectador e filme.

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A escala do que se tem o ritmo ditado é, porém, de igual qualidade. A veracidade que Christopher Nolan busca em seus filmes aqui é, outra vez, essencial. O tamanho parece colossal, quando as multidões na praia se desenham, quando os navios em alto-mar afundam, quando os aviões cruzam os céus. O que se faz com as câmeras é também notável, dada a escolha da película majoritariamente em IMAX 70mm -formato no qual, infelizmente, não poderemos ver em sua plenitude no Brasil. Os limites que Dunkirk arrisca cruzar nos leva ao ápice do desespero desses personagens, construindo uma beleza imagética que, simultaneamente, se mostra encantadora e apavorante. A construção prática, complementada pelo digital de maneira pontual, faz atravessar a grandiloquência da obra capturando a intimidade da luta dos personagens, explorando o medo, a claustrofobia, a luta, a resistência e os estados pelos quais essas figuras transitam em um espaço de tempo que é relativo ao seu caráter. Suas respectivas intempéries tomam conta da tela ecoando exatamente o que representam para aqueles personagens. Dunkirk é uma obra que se faz mais que apenas um filme, exibindo-se como múltiplas retratações dessas realidades que cada um dos muitos personagens enfrenta ao longo do seu caminho em busca de um mesmo objetivo.

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Essa individualidade conquistada dá aos personagens uma motivação que os movimenta com naturalidade, sob efeitos das circunstâncias nas quais se encontram. Existem destaques óbvios no elenco, como os protagonistas vividos por Fionn Whitehead, Tom Hardy (O Regresso, Mad Max: Estrada da Fúria) e Mark Rylance (Ponte dos Espiões), mas suas histórias servem a propósitos tão diferentes, com jornadas pessoais próprias, onde encontramos uma equidade devido ao equilíbrio apresentado pela narrativa para aborda-los. Cada qual têm suas virtudes, assim como acabam de maneiras igualmente emblemáticas, reservando mais semelhanças entre si do que aparentam. São três pontos de vista que tem uma finalidade diferente, a forma como se cruzam é o que torna Dunkirk num feito que parece definitivo na filmografia de Christopher Nolan. Aqui o cineasta entrega uma obra completa, que nos leva ao cerne de uma virada histórica derradeira, dando uma faceta que é inventiva e honesta, que faz jus ao que a inspira e que, por consequência, em si torna-se algo inspirador. Os momentos finais de Dunkirk são extasiantes, ainda que em parte agridoces -afinal outras batalhas ainda são iminentes, assim como vidas foram perdidas e outras ainda mais serão. Contudo, o ponto ao qual Christopher Nolan maneja sua história é um que ressalta os valores mais queridos ao nosso ser, que exalta aquilo que nos torna quem acreditamos ser. Torna a perda da humanidade relacionável, e nos regozija em alívio ao promover nosso reencontro com a mesma.

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Crítica | Dunkirk

Dunkirk (2017); Direção: Christopher Nolan; Roteiro: Christopher Nolan; Elenco: Fionn Whitehead, Tom Hardy, Mark Rylance, Cillian Murphy, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Harry Styles, Aneurin Barnard,

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Edição
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