WandaVision (Disney+, 2021); Criada por: Jac Schaeffer; Direção: Matt Shakman; Roteiro: Jac Schaeffer, Gretchen Enders, Megan McDonnell, Bobak Esfarjani, Peter Cameron, Mackenzie Dohr, Chuck Hayward, Cameron Squires, Laura Donney; Elenco: Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Kathryn Hahn, Debra Jo Rupp, Fred Melamed, Teyonah Parris, Randall Park, Kat Dennings, Evan Peters; Número de Episódios: 9 episódios; Data de Exibição: 15 de Janeiro a 05 de Março de 2021;

WandaVision 02

Como é de praxe humana há uma busca por eventos chave que sintetizam contextos, definimos o momento em que Duchamp assinou um urinol e expôs em uma galeria como arte enquanto marco inicial de uma era pós moderna. Quando na verdade, havia uma série de questionamentos em diversos setores da sociedade sobre os valores absolutos perpetuados pela mesma. Dito isso, uma narrativa possui conceitos concretos: batidas, personagens, arcos de desenvolvimento, pontos de virada etc. São ferramentas básicas para contar qualquer história, seja no bar ou no papel. Por intenção ou incompetência, muitas obras de grande alcance não desenvolvem tais elementos.

Aliado a tal, a internet transformou a narrativa em algo extremamente volúvel. Tudo pode ser sobre uma pessoa em coma, parte de um sonho ou sobre a atual situação geopolítica. A liberdade da interpretação com a morte do autor e a busca por cliques incessantemente demandada pelos algoritmos faz um efeito cascata: Necessidade cada vez maior por conteúdo com tempo otimizado. Isso gera um tempo cada vez menor para elaboração de um raciocínio e pesquisa, criando conteúdos cada vez mais pobres de matéria prima. Basta um ou dois elementos recortados da obra original que sirvam como evidência perfilados por uma série de elementos distrativos (berros, caretas, memes, cortes etc) e assim se define o conteúdo que cobre cultura pop atualmente na internet. Especulações e teorias rasas através de um formato que disfarça a própria superficialidade.

Essa forma de cobrir os blockbusters faz parte de uma relação benéfica para os produtores da indústria e da mídia. Um esquema de pensar cinema enquanto conteúdo que apenas beneficia uma retroalimentação que destrói o cinema em essência, virando apenas mais um algoritmo de rede social. Um fornece ao outro ferramentas que possam cada vez mais suprir a falta de elaboração de seus produtos. As narrativas giram em torno de uma criação de terreno para o próximo produto, enquanto as redações de sites grandes giram cada vez mais em desvendar peças publicitárias, indo de teasers para imagens vazadas da linha de brinquedo em Taiwan. São lives, podcasts e posts, tudo com um ar de urgência para algo que pode ser sintetizado em 320 caracteres. 

E nesse clima, aos poucos os conceitos concretos da narrativa passam a se diluir. Basta lembrar do filme baseado em Warcraft, onde tudo parecia feito para aqueles que já jogaram e ainda se lembravam do cânone de uma franquia que não possui um jogo novo há mais de 10 anos. A construção narrativa da obra era inteiramente calcada na presunção de que o público tinha pleno conhecimento dos eventos que o filme abordava. O resultado foi um filme mal recebido, tanto por crítica e público, mas que foi louvado pelos fãs por ser fiel ao jogo. “Wandavisionfunciona em uma rotação muito parecida ao filme de Duncan Jones, mas possui o fator evento, a ideia que transforma ver o filme como algo essencial para as conversas do dia nas próximas semanas, que faltou ao filme de fantasia medieval.

Nesse ponto da cultura pop, o MCU possui plenas condições de fazer o que vier à mente. Existe todo um aparato de publicidade e burburinho que torna qualquer filme do selo em um inevitável sucesso. Há um senso de urgência que tudo precisa ser consumido para que haja uma noção do que virá a seguir. O que havia começado como uma leve brincadeira de pôr Samuel Jackson como Nick Fury ao final de Homem de Ferro (2008) se tornou o propósito de tais peças. Quando Martin Scorsese define os filmes do MCU como montanhas-russas era nessa ideia de que o que importa é a próxima corrida. Uma espécie de manifestação da mentalidade ansiosa e escapista que se propaga por osmose atualmente.

Indo na contramão da tal “fórmula”, a primeira série com tamanho peso do Disney+ parecia reduzir sua escala e abordar algo mais intimista. Desenvolver um casal que pouco tempo de tela possui nos filmes, em uma série focada para construir um drama de personagem. Com claras inspirações em Dinastia M e Visão, as duas principais séries dos quadrinhos dos personagens no século, havia esperanças de um Feige menos obcecado por controle e disposto a dar voz autoral que possa legitimar o MCU enquanto arte além de produto. O que se concretiza é o exato oposto, tornando “Wandavision” uma experiência extremamente desagradável.

Quando observada por si apenas, a série comandada por Matt Shakman não fornece muito a se discutir. Em um formato óbvio de paródia às sitcoms americanas, pouco existe nessa escolha algo além da referência. O formato parece estar ali apenas para que qualquer pessoa se sinta bem em apontar o dedo e confirmar que aquilo é uma homenagem ao produto x, y e z. Os episódios passam e a noção de que nada acontece é muito forte, com exceção dos últimos minutos em que algo ocorre para construir um mistério que nada afeta à atmosfera da série. Como se não fosse suficiente o desenvolvimento ser extremamente didático, a série cria todo um núcleo para explicar o que está acontecendo, tomando o protagonismo inteiro de um episódio. O pior da série, diga-se.

E quando se busca um subtexto, algo que vá além da superfície do “Wanda está maluca devido ao constante processo de perda que ela sofreu nos últimos anos” é muito difícil definir ou apontar interpretações baseadas no produto em si. Todo esse essencial elemento de qualquer obra de arte passa a ser dever da especulação definir. Seguindo a lógica das teorias de coma, um ou dois elementos para criar uma pós-verdade que valide um fraco desenvolvimento de seus temas. O que torna todas as escolhas “autorais” meros artifícios de distração. A estética de sitcom não faz sentido por que até o penúltimo episódio não há absolutamente nada que definisse alguma correlação entre os personagens e esse formato de televisão, ainda mais considerando que ambos são imigrantes de um país do leste europeu. O que poderia ser uma poderosa metáfora sobre o luto, usando uma estética que simboliza um cotidiano que foi tirado do americano médio após 2008, acaba sendo apenas uma forma espertinha de enumerar uma virtude que a diferencie dos demais produtos da linha.

A minissérie é sempre sobre o que veio antes ou o que virá, nunca sobre o que está em tela no momento presente. Em tons de prólogo para o próximo filme do Doutor Estranho, ficou a cargo da internet e seus criadores de conteúdo buscarem nas imagens vazias de conteúdo e recheadas de pistas e piscadas uma forma de criar uma narrativa que possua uma profundidade e riqueza inexistentes. O sucesso da série concretiza a narrativa pós-moderna que o MCU tanto desenhou em 20 anos: Não é mais sobre nosso mundo nem mesmo sobre o agora, é sobre a expectativa e especulação do público. O estúdio chegou ao patamar em que seu esforço é mover o mínimo para que a ânsia do público pelo que virá possa fazer o resto do trabalho e tapar os evidentes buracos e desleixos. Em uma versão totalmente industrializada do feito no urinol, “Wandavision” afirma seu status de produto digno de atenção apenas pela assinatura do MCU. E para muitos, isso é suficiente.

“WandaVision” – Trailer Legendado:

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