Vice (2018); Direção: Adam McKay; Roteiro: Adam McKay; Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Tyler Perry, Alison Pill, Lily Rabe, Jesse Plemons; Duração: 132 minutos; Gênero: Biografia, Comédia, Drama; Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Kevin J. Messick, Will Ferrell, Adam McKay; País: Estados Unidos; Distribuição: Imagem Filmes; Estreia no Brasil: 31 de Janeiro de 2019;

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(Imagem/Divulgação: Annapurna Pictures)

Adam McKay sempre teve uma fascinação pelo espectro sociopolítico e econômico dos Estados Unidos, mas até “A Grande Aposta” (The Big Short), pelo qual venceu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, não tinha assumido esses temas como centrais às narrativas de seus filmes. Eram sempre um elemento que servia como pano de fundo ou uma gag recorrente, mas sendo sempre, de alguma forma, pertinente. No entanto, se em seu filme anterior o espectro político fica mais de lado, sendo a economia o elemento central, em “Vice”, um dos líderes de indicações no Oscar este ano, é a política que se faz o tema central ou, mais exatamente, um político.

McKay destrincha em seu novo filme parte da vida e a carreira política de Dick Cheney, interpretado por um Christian Bale em um dos seus trabalhos mais inspirados. Contudo, diferente do filme pelo qual venceu o Oscar, aqui o cineasta assina o roteiro da obra sozinho, e partindo de uma premissa original. O resultado é algo completamente informal e o quanto isso pode influenciar na experiência subjetiva é, talvez, o que defina a singularidade do filme. É impossível ficar indiferente ao que se assiste, e sim pela forma do filme ao invés do posicionamento político do espectador, ainda que este também possa influenciar.

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(Imagem/Divulgação: Annapurna Pictures)

Vice” até se permite gerar uma certa dubiedade quanto ao que pensa sobre o caráter de seu protagonista, entretanto parece conflitar a si próprio quando faz uso praticamente constante de uma narração em off que, apesar de ser explicada posteriormente de maneira até inventiva, não deixa de ser, em sua maior parte, condescendente. Este fator externo ao que assistimos torna a opinião de McKay sobre Cheney bastante clara, assim, ele opta por abraçar um cinismo que visa justamente confrontar ao espectador, quase como uma ode vitoriosa à carreira do político que foi pivô de inúmeras consequências que ecoam até hoje no cotidiano mundo afora.

Para os que não conhecem a história de Cheney, “Vice” pode até oferecer alguma novidade, contudo, não vai muito além do que se sabe. Vale notar, ainda, que algumas das atitudes tomadas pelo político na busca pelo poder, as quais o filme ressalta veementemente, só servem para mostrar como o cenário político atual tomou tal desordem, quando tais vis medidas para atingir o máximo poder na maior potência mundial -tudo isso seguindo sob uma fachada de coadjuvante, parecem bem menos surreais do que deviam, em um mundo onde alguns parecem ter encontrado, de fato, uma inesperada virtude na ignorância.

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(Imagem/Divulgação: Annapurna Pictures)

Enquanto culpabiliza Cheney por diversos acontecimentos, enquanto detalha sua escalada ao poder, Adam McKay parece esquecer de pontuar em “Vice”, no entanto, um objetivo. Assumimos que seja a sede de poder, e em dado momento até é, na história, mas o filme por si próprio nunca assume essa condição para o personagem, que tem um ideal vago. No fim das contas o protagonista de McKay parece muito mais massa de manobra alçada ao poder por cooptar com os interesses dos reais interessados, sem questionar a eles, ou sem a capacidade de fazê-lo. Semelhanças com o contemporâneo estão ali a torto e a direito.

McKay não teme em momento algum em fazer essas referências ao contemporâneo, porque estamos ligados diretamente ao ocorrido no governo Bush/Cheney, não apenas os Estados Unidos, mas o mundo inteiro. Amargamos uma herança que cultivou a ignorância e o ódio, e que também teve todas as portas abertas para que pudesse se perpetuar como fez, com pautas claramente panfletárias sendo mascaradas como ambíguas. Tudo é história, e parece uma vez mais se repetir com a nova geração, então quando somos, de fato, confrontados, alguns podem se revoltar, mas outros hão de se identificar, permitindo que uma vez mais tudo siga como está.

Vice 05
(Imagem/Divulgação: Annapurna Pictures)

É questionável o método de Adam McKay, que conta muito com o trabalho de Hank Corwin, montador do filme. “Vice” consiste em uma obra frenética, por vezes verborrágica, que funciona com um fluxo de informações muito grande, sejam elas relevantes ou não, expositivas ou não, por vezes até em um primeiro e segundo plano conflitantes. Se funciona é algo que cabe a cada espectador dizer, porque o que realmente quer ser posto aqui, em questão, é como o desprendimento da realidade no cenário político atual é tão gritante que o que devia parecer anormal em um filme acaba, por fim, tornando-se a parte mais regular e comum deste.

Destoa, no bom sentido, principalmente Christian Bale, que mergulha no personagem numa já alardeada transformação, como é típico na carreira do ator, e se faz uma atração à parte. Outro destaque é Amy Adams, que dá vida uma vil e voraz mulher, que fará de tudo para chegar ao poder, sendo até irônico como, na visão de McKay, se comparada a Cheney a personagem de Adams parece ser bem mais inescrupulosa. Por fim, Steve Carell parece estar se divertindo como Donald Rumsfeld, o que certamente gera momentos hilários, mas longe de memoráveis, assim como Sam Rockwell, que tem uma participação pontual demais para ser lembrado, ainda que certeira.

Assim, “Vice” se faz um filme com inúmeras qualidades, mas que em um próprio conflito interno esbarra em empecilhos que o impedem de atingir todo o potencial ao qual aspira. Adam McKay e companhia têm seus méritos, com certeza, mas é um filme que fala muito sem exatamente dizer algo.

“Vice” – Trailer Legendado:

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