Direção: Steve McQueen
Roteiro: John Riley
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael K. Williams, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Lupita Nyong’o
Produção:Dede Gardner, Anthony Katagas, Jeremy Kleiner, Steve McQueen, Arnon Milchan, Brad Pitt e Bill Pohlad
Fotografia: Sean Bobbitt
Gênero: Drama
Estreia Mundial: 20 de Dezembro de 2013
Estreia no Brasil: 21 de Fevereiro de 2014
Duração: 134 min

12 Anos de Escravidão é um filme forte, mas que, ao mesmo tempo, não tem medo de ser extremamente sensível, seja pelos momentos de reflexão do personagem principal, seja pelos diálogos extremamente fortes entre os próprios escravizados.

Indignação é pouco para descrever a forma como saí do cinema após a sessão de 12 Anos de Escravidão. Com os olhos marejados, eu indagava a necessidade de tudo aquilo, e o filme não é nada sutil com a resposta: sim a escravidão por sí só já é injusta, mas quando ocorre com um negro livre o sentimento é de uma injustiça dupla. Como o próprio nome já sugere, 12 anos é muito tempo, “é uma vida inteira que poderia ter sido e que não foi” exatas palavras de Manuel Bandeira em seu poema Pneumotórax. Essa frase não saiu da minha cabeça principalmente por causa do fim do filme (o qual não vou comentar) e porque metaforicamente (ou não) exemplifica a mancha que a escravidão é na nossa história: vidas inteiras que poderiam ter sido e que não foram.

Adaptado do livro “12 Years a Slave” (ainda inédito do Brasil), o qual é escrito pelo próprio protagonista Solomon Nortup (interpretado na fita por Chiwetel Ejiofor), o filme narra a trajetória desse homem negro e livre que é capturado e feito escravo, deixando sua mulher e filhos desamparados, enfim toda uma vida construída é deixada para trás. Por ser mais preparado que todos os outros escravos (ele sabe ler, escrever e tem até noções de arquitetura), acaba por gerar conflitos com seus mestres e até recebe ameaça de morte por um deles. Por isso, ele vai sendo transferido para outras várias fazendas até chegar na do Sr. Edwin Epps (Michael Fassbender de Shame), onde conhece Patsy (Lupita Nyong’o) a qual é seguidamente estuprada por seu mestre. A partir desse encontro, sentimos juntos com os personagens as barbáries que ocorreram durante todo esse período.

12 Anos de Escravidão poderia ser mais uma daquelas produções para americano branco ver (não preciso citar exemplos já que todo ano aparece uma), mas, ainda bem, não é. O filme é extremamente corajoso, não tem medo de mostrar a crueldade dos senhores com seus escravos e as feridas deixadas em cada um por causa disso. Isso ocorre, principalmente, por causa do diretor Steve McQueen que, assim como em seu filme anterior Shame, nos apresenta os fatos de forma realista e sem pudor algum. Sua direção leva a história para outro nível, principalmente por se utilizar de planos fechados para retratar o quão presos estão os negros. Nas cenas de tortura, percebemos, também, o cuidado que ele teve para não transformar o momento em espetáculo, seja pela uso de planos sequências, seja pela  forma como ele consegue nos deixar extremamente encordoados com as situações.

Apesar de ser um tema muito explorado por Hollywood, o filme nos faz refletir mais uma vez todo o passado de escravidão, só que de uma maneira mais crua, mais assustadora que a dos outros filmes. Grande parte disso se deve ao excelente trabalho de figurino e maquiagem, ao ponto de ser difícil reconhecer o personagem principal na primeira vez que o vemos escravizado. A trilha sonora e a fotografia, porém, são as grandes decepções da fita. A primeira, composta por Hanz Zimmer (Compositor de trilhas como Gladiador, Piratas do Caribe e Trilogia Cavaleiro das Trevas) acaba soando na maioria dos momentos forçada e extremamente manipuladora, quase que te dizendo “você vai chorar agora, você vai se assustar agora” (Zimmer, como já pudemos comprovar na maioria das suas outras trilhas, tem uma capacidade muito maior que isso). A segunda, assim como a primeira, está forçada, puxando muito mais para tons claros, ao passo que a história e as situações são obscuras, ou seja, não ocorre um trabalho em conjunto com todos os outros elementos e a sensação de estranhamento é constante.

12 Anos de Escravidão é um filme forte, mas que, ao mesmo tempo, não tem medo de ser extremamente sensível, seja pelos momentos de reflexão do personagem principal, seja pelos diálogos extremamente fortes entre os próprios escravizados. A despeito de nos relatar um tema já bastante explorado por outras produções, a fita é deveras necessária, não só em relação aos fantasmas da escravidão que ainda persistem como o preconceito contra negros, mas também pelo reconhecimento da vergonha que tudo isso foi e continuará sendo para a humanidade.

~ TRAILER LEGENDADO~

http://www.youtube.com/watch?v=6hDazJEwAno

About the author

Editor-Chefe do Cine Eterno. Estudante apaixonado pelo universo da sétima arte. Encontra no cinema uma forma de troca de experiências, tanto pelas obras que são apresentadas, quanto pelas discussões que cada uma traz. Como diria Martin Scorsese "Cinema é a importância do que está dentro do quadro e o que está fora".

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