As Viúvas (Widows, 2018); Direção: Steve McQueen; Roteiro: Gillian Flynn & Steve McQueen; Elenco: Viola Davis, Michelle Rodriguez, Elizabeth Debicki, Cynthia Erivo, Colin Farrell, Brian Tyree Henry, Daniel Kaluuya, Jacki Weaver, Carrie Coon, Robert Duvall, Liam Neeson; Duração: 129 minutos; Gênero: Drama, Thriller; Produção: Steve McQueen, Iain Canning, Emile Sherman, Arnon Milchan; País: Estados Unidos, Reino Unido Distribuição: Fox Film do Brasil; Estreia no Brasil: 29 de Novembro de 2018;

As Viúvas 02

Há uma década se intensifica a certeza de que Steve McQueen é um cineasta que não tem pudor em lidar com temáticas sociais em toda sua complexidade. O passo seguinte a “12 Anos de Escravidão”, filme com o qual foi agraciado com o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, era uma incógnita muito por conta do patamar que atingiu junto da produção, sendo devidamente reconhecido por seu talento singular, e em “As Viúvas” o cineasta retorna meia-década depois com mais um longa-metragem no qual se mantém fiel às características que o fizeram chegar até aqui, contudo, contando agora com uma ambição um tanto maior.

Porque por mais que envolva temáticas sociopolíticas e econômicas, e precise se portar como um drama pela forma em que deseja explorar essa vertente, também precisa corresponder como um thriller de assalto. É obtido sucesso quando o filme encontra um ponto de equilíbrio entre ambos estilos e com reviravoltas muito bem trabalhadas consegue unir os diferentes contextos em tramas que se revelam intrínsecas e tecem um comentário que é potencializado por esse encontro bem-sucedido que se vê concretizado em um filme que não apenas entretém e envolve, mas consegue formalizar uma crítica pontual ao momento contemporâneo vivido no mundo.

As Viúvas 03

Para tanto, um dos elementos que melhor funciona em “As Viúvas” é a colaboração que dá princípio à narrativa, em um roteiro onde Steve McQueen se une a Gillian Flynn -esta que traz tudo de melhor da sua afiada escrita, a qual passou a ser difundida nos cinemas em “Garota Exemplar”, onde ela adaptava a história de seu próprio livro. Aqui há clara influência de Flynn nos personagens, com mulheres tão ardilosas como Amy Exemplar, ou em um processo de descobrimento de autossuficiência e sororidade que se faz uma das grandes virtudes do filme. Mas a parceria dela com McQueen dá uma profundidade a todos os conflitos de maneira louvável.

Os dois conseguem amarrar bem a narrativa no todo, enquanto exploram diferentes núcleos de personagens e seus próprios dilemas, com temáticas sociais individuais a serem resolvidas, mas que, inevitavelmente, se veem entrecruzadas em algum ponto. O mérito da dupla é também tornar as reviravoltas palatáveis e torna-las orgânicas à narrativa no todo, sendo o roteiro um elemento que acaba fazendo as diversas tramas terem um efeito dominó. Entretanto, a maior concordância entre ambos os roteiristas parece ser o cinismo com o qual vemos encarada esta história, algo necessário quando se constroem espécies de anti-heróis, ou anti-heroínas no caso do filme.

As Viúvas 04

Existem alguns deslizes, algumas arestas que podiam ser melhor resolvidas, contudo, nada que atrapalhe a ordem geral das coisas, e o que resta é um conjunto de personagens cuja desenvolvimento se faz arrebatador, algumas vezes chocante, mas acima de tudo multifacetados, multidimensionais. Se momentaneamente tende a parecer que algum dos personagens é tratado de maneira maniqueísta, esta é apenas uma reação que pode ser considerada inicial, porque McQueen deseja ir além, deseja mostrar que todas estas figuras fazem parte de algo muito maior, e que por mais que soem como estereótipos, não o são. Cada qual tem suas condições e dilemas com os quais precisa lidar, seja pelo que acredita, seja ao que a sociedade submete esse indivíduo.

E o resultado final é influenciado justamente por algumas das atuações em “As Viúvas”. Obviamente que é Viola Davis quem mais tempo tem em cena, e como ela conduz sua personagem pode ser resumida em uma única cena: o último encontro de sua personagem com a personagem de Elizabeth Debicki, momento que é simplesmente estonteante. Outro destaque do elenco é Brian Tyree Henry, mesmo com pouco tempo em cena, mas é a qualidade de um escopo de trabalho que fãs de “Atlanta” já sabem poder esperar do ator. Agora, o grande nome do filme é Daniel Kaluuya (“Corra!“),cuja personagem é provavelmente o mais complicado de se decifrar na narrativa, mas que funciona em diferentes camadas, desde seu nome de nascença até o extremo ao qual é forçada a chegar.

As Viúvas 05

Muito acontece porque Steve McQueen, outra vez, não tem pudor em forçar esses limites, e parece afirmar isso quando por vezes estende uma sequência com longos planos sem cortes. Ora para forçar o sentimento da intensidade dessa violência que permeia não só a narrativa, mas a sociedade que os indivíduos constituem; ora com a intenção quase sádica de revelar a hipocrisia de certos personagens, que representam figuras completamente identificáveis com o cotidiano do lado de fora da sala do cinema. Tudo registrado com maestria e sagacidade nas escolhas do diretor de fotografia Sean Bobbitt, que ajuda a construir o panorama que impera no filme.

Fundamental é também o trabalho de Joe Walker na montagem do filme, que consegue estabelecer um ritmo e quebra-lo quando necessário, por vezes auxiliando em muito a subverter determinadas expectativas. É em conjunto com McQueen que algumas decisões se sobressaem, e que o conjunto da obra se mostra um grandioso trabalho, onde até a trilha sonora de Hans Zimmer é amenizada, se fazendo um dos trabalhos mais orgânicos da carreira do compositor, dando espaço a silêncios muito bem-vindos, o que acaba implicando também no sucesso em que são aplicadas alternâncias de situações na narrativa, a cereja no topo do bolo.

Transitando entre dois extremos, é na compreensão daquilo que os une que “As Viúvas” se sobressaí. Encontrando uma maneira de conectar toda sua narrativa culminando em algo que é extraordinário, ainda que algumas vezes ceda ao ímpeto de blockbuster, mas sem nunca rebaixar ou questionar a capacidade do espectador. Muito pelo contrário, é ao desafiá-lo que Steve McQueen faz algo anormal aqui, construindo questionamentos que quebram qualquer regra estabelecida e tocam na ferida que os tempos atuais mostraram ainda estar longe de cicatrizar. Assim, desconstruindo falácias que são pregadas como verdade -uma na qual nem mesmo os pregadores creem- Steve McQueen, Gillian Flynn e companhia, podem parecer cínicos a ponto de exterminar qualquer esperança, no entanto, no final, o que é real, o que é verdade, estará lá por nós. Quando nos lembrarmos da história, restará reconhecer o feito atingido em “As Viúvas” e seu exímio diálogo com a contemporaneidade.

“As Viúvas” – Trailer Legendado:

1 Comment

  1. Pingback: Apostas | Globo de Ouro 2019 - Cine Eterno - Cinema Sem Fronteiras

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.