Vinyl

(HBO, 2016)

Direção: Martin Scorsese, Allen Coulter, Mark Romanek, S. J. Clarkson, Peter Sollett, Nicole Kassell, Jon S. Baird, Carl Franklin

Roteiro: Terence Winter, George Mastras, Jonathan Tropper, Debora Cahn, Adam Rapp, Carl Capotorto, Erin Cressida Wilson, David Matthews, Riccardo DiLoreto, Michael Mitnick

Elenco: Bobby Cannavale, Olivia Wilde, Ray Romano, Ato Essandoh, Juno Temple, Max Casella, Annie Parisse, J.C. MacKenzie, Jack Quaid, P.J. Byrne, Paul Ben-Victor, Birgitte Hjort Sørensen, Susan Heyward, Emily Tremaine, Bo Dietl, Michael Drayer, Armen Garo, John Cameron Mitchell, Carrington Vilmont, Andrew Dice Clay, Noah Bean, Jim Bracchitta

Número de Episódios: 10 episódios

Data de Exibição: 14 de Fevereiro a 17 de Abril de 2016

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O texto contém spoilers.

Vinyl chamou atenção desde o momento em que foi anunciada, pois reunia alguns dos nomes mais fortes da história do cinema e da música. Um projeto em um dos melhores canais de televisão norte-americanos, senão o melhor. Não estava se falando em filme, mas sim em uma série. Criada por Mick Jagger, Martin Scorsese, Rich Cohen e Terence Winter (roteirista de O Lobo de Wall Street), este último sendo o showrunner, Vinyl chegou rodeada de expectativas. Porém, ao final de sua temporada, com a demissão de Terence Winter pela HBO e a contratação de um novo showrunner, fica óbvio que algo não funcionou muito bem.

Em Vinyl nós acompanhamos a trajetória de Richie Finestra (Bobby Cannavale), presidente da gravadora American Century Records, que com seus sócios Skip Fontaine (J. C. MacKenzie) e Zak Yankovich (Ray Romano), está prestes a vender a gravadora para a empresa alemã Polygram. O que parecia se encaminhar para um final feliz, acaba numa amarga discussão com Robert Plant, do Led Zeppelin, que explodindo na década de 70 estava prestes a assinar com a gravadora de Richie e faria parte do pacote da venda para os alemães. O que se apresentou como um problema, Richie Finnestra viu, no entanto, como um sinal de colocar sua gravadora mais uma vez na linha, em busca de um novo auge, em busca de um novo e autêntico som.

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Porém, nem só de música vive Vinyl. Pode ser exatamente por isso que a série não alcançou o sucesso desejado. Contudo, é inevitável não explorar um lado mais dramático na história. Algumas vezes, é verdade, não funciona. Vinyl parece lutar contra um possível melodrama, há um motivo pelo qual consegue vencer. Há, entretanto, outro grande motivo, que carrega e é responsável por boa parte da trama da série, que parece não funcionar muito bem. É algo que dá a impressão de ser uma parte externa de Vinyl, que não se agrega simbiótica e naturalmente aos principais atrativos da narrativa pela qual Terence Winter nos conduz.

Se há algo que fica claro logo de primeira em Vinyl, é que o reencontro de Terence Winter com Martin Scorsese não terá medo de apostar em excessos. As quase duas horas de duração do episódio piloto estão ali para afirmar justamente isso. O que vemos em seu decorrer é uma confirmação daquilo que já se podia imaginar. Um fato curioso é na semelhança que a nada usual duração para um piloto de televisão segue exatamente na mesma pegada da extensão de O Lobo de Wall Street, parceria anterior daqueles que citei no início do parágrafo. Vinyl, porém, é mais contida que o filme, só que suas reviravoltas podem se basear em uma insanidade sem medo algum, ainda mais com a quantidade de cocaína que os personagens da série costumam usar.

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Como consequência surge aquilo que eu acredito destoar da narrativa. Quando um surtado Frank ‘Buck’ Rogers (Andrew Dice Clay) acaba assassinado em sua própria casa, após atacar um revoltado Richie Finestra. Assim a coisa meio que desanda. Posteriormente nos é imposta a dúvida, devido ao vício de Richie, de que ele possivelmente foi quem cometeu o crime. Ainda assim, essa é uma sombra que paira por sobre Vinyl, jogando sobre seu personagem principal um peso que é demasiadamente complicado de se carregar, porque ofusca as chances de uma possível redenção do personagem. Os próprios roteiristas parecem perceber isso, tentando limpar a barra de Richie ao máximo nos episódios seguintes, culminando na morte de Joe Corso (Bo Dietl), personagem que fez mal a série e poderia ter sido evitado.

Até porque o Richie Finestra de Bobby Cannavale consegue convencer em um quesito: seu amor por Devon (Olivia Wilde). Há momentos em que o ator representa a paixão que seu personagem sente pela esposa de maneira perfeita. É quase palpável o sentimento que eles partilham um pelo outro. Calha, porém, um melhor desenvolvimento de Devon, tanto para o bem da série, como da própria personagem. Que parece não exigir tanto, dramaticamente, de Olivia Wilde. Salvo um punhado de cenas, dentre elas a gravação de Andy Warhol (John Cameron Mitchell), no qual o constrangimento dela nos é trespassado com enorme competência. Aquele é um momento que envolve toda a equipe da série em uma sintonia de alto nível, construindo um momento memorável.

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Aliás, momentos como esse, do encontro com Andy Warhol, um dos poucos personagens que assumem o mesmo nome em Vinyl que na vida real, são momentos que revelam o que há de mais interessante na série. É como no episódio dedicado a David Bowie, no qual o ator Noah Bean interpreta o falecido e icônico artista. A presença que Vinyl reconhece ao personagem o coloca na posição de uma divindade, muito por ele facilmente poder ser considerado uma divindade do mundo da música. O que chama a atenção é, no entanto, a forma como Vinyl respeita, não só a este a cantor, mas outras figuras conhecidas e icônicas que dão as caras (ficticiamente) ou são mencionados na série, fazendo nos sentir essa aura. É quando Vinyl idolatra a música em sua melhor forma.

Não é à toa, portanto, que o melhor núcleo de Vinyl seja com a banda Nasty Bits e seu agente Lester Grimes (Ato Essandoh), possivelmente o melhor personagem da série e o ator que faz o melhor trabalho do elenco. É óbvio, na primeira vez que o vemos, que Richie lhe causaria problemas. É previsível a maneira como acontece, mas Ato Essandoh faz um trabalho de enorme sensibilidade, que rende uma das tramas mais interessantes de Vinyl, que infelizmente é bem menos explorada do que devia. Ainda mais quando rende lindas cenas, não só esteticamente, porém, com uma significação que só a compreensão do todo pode trazer.

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Assim como a reviravolta no sexto episódio, Cyclone. O golpe final, com a revelação do destino de Ernst (Carrington Vilmont), é duro. Um acontecimento chave na trama, por desenvolver ainda mais todos os personagens envolvidos no acidente. Que passa por uma das melhores construções visuais da série, que mesmo não sendo dos momentos mais gráficos em termos de violência -longe disso- é brutal, tanto pelas circunstâncias do que acompanhamos até ali, como pela maneira que se opta por realizar a derradeira cena. É onde Vinyl demonstra o poder dramático que possui, o porquê de os personagens merecerem tanto desenvolvimento quanto do terreno musical da série.

Por falar em musical, Vinyl muitas vezes cede a esse seu lado, com apresentações, como a do final do episódio Cyclone, que delineiam esse excesso da série, preterido por Terence Winter e companhia. Funciona. Contudo, o que mais funciona são cenas como Clark Morelle (Jack Quaid) na boate com seus colegas de trabalho; ou então a ambição de Jamie Vine (Juno Temple), personagem que também precisa de melhor desenvolvimento, incitando o Nasty Bits a atingir o melhor que eles têm a oferecer. São momentos que demonstram que sua trilha sonora Vinyl já encontrou, falta agora encontrar uma conexão interior com as músicas que nos apresenta.

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