Crítica | American Crime | 3ª Temporada

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American Crime (3ª Temporada) (ABC, 2015-2017); Criada por: John Ridley; Direção: So Yong Kim, Julie Hébert, Victoria Mahoney, Steph Green, Tanya Hamilton, Ramsey Nickell, John Krokidas, Jessica Yu; Roteiro: John Ridley, Janine Salinas Schoenberg, Moisés Zamora, Sonay Hoffman, Keith Huff, Steve Harper, Kirk A. Moore, Julie Hébert; Elenco: Regina King, Felicity Huffman, Benito Martinez, Ana Mulvoy Ten, Timothy Hutton, Lili Taylor, Mickaëlle X. Bizet Richard Cabral, Sandra Oh, Connor Jessup, Janel Moloney, Dallas Roberts, Tim DeKay, Cherry Jones; Número de Episódios: 08 episódios; Data de Exibição: 12 de Março a 30 de Abril de 2017;

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American Crime chegou a sua terceira temporada, mais curta que o usual, parecendo estar ciente do destino que encontraria pouco tempo depois do término daquele que é, agora, seu último ano. A mudança no dia de exibição nos Estados Unidos já dava indícios disso, e o desinteresse da audiência só fez crescer. Também pudera, é nessa última temporada que a série, criada por John Ridley (12 Anos de Escravidão, Guerrilla), tem a sua disposição as maiores ambições dos roteiristas até então. Dispersa ao longo dos oito episódios finais está uma arriscada narrativa que busca transcender os limites das relações acompanhadas nas temporadas anteriores. Se ao final de cada temporada deixava-se subentendido que o crime americano do título não era somente o que acompanhávamos ao longo dos episódios, mas, sim, um problema estrutural entrincheirado na sociedade norte-americana, aqui passamos a viver ele, ainda que se possa fazer de sutil maneira. Assim, acompanhamos então um sistema que torna vítimas até mesmo aqueles que são traídos por suas próprias convicções, onde se faz comum que os mesmos encontrem-se desamparados em meio a uma estrutura desigual, ainda que não indiferente, onde é visada importância a circunstâncias que privilegiam determinados indivíduos, ou conjuntos e interesses. Colocando em xeque um duvidoso legado que vem a ser herdado por futuras gerações.

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A complexidade da temporada ultrapassa apenas as temáticas abordadas, tendo sido a da segunda temporada talvez a mais controversa, e se estende em terrenos já conhecidos em um posicionamento que observa, e denota, essas fragilidades que interconectam e ligam vidas alheias umas às outras. Ainda que frágil, a conexão muito mais espaçada entre as histórias não deixa de ser menos poderosa, pelo contrário na realidade. Pelo contexto atual no qual vemos o desenrolar de American Crime, onde xenofobia, racismo e crimes de ódio passam a ganhar mais espaço, onde se tornam comuns discursos ideológicos como o do atual presidente dos Estados Unidos, do partido conservador propulsor do Brexit e da força apresentada pela extrema direita francesa, a contundência da série de John Ridley se faz vital à percepção daquilo que se está por constituir. Uma vez mais, o legado vem à tona. Não somente isso, pois o que parece conectar os personagens são promessas falhas do passado que se fazem um presente amargo, onde se desenha um futuro ainda menos palatável. O sonho americano, da prosperidade financeira, social ou pessoal, se revelou mais falho do que nunca, onde as oportunidades se fizeram de escassas a ameaçadoras, numa reviravolta onde elas próprias se revelam grandes vilãs.

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American Crime, porém, não se deixa cair em maniqueísmos, e muito menos decai ao piegas, assim como nos anos anteriores há um equilíbrio fundamental no desenvolvimento narrativo, onde somos apresentados a uma história ficcional que se torna assustadoramente verossímil. É primorosa a maneira com a qual as diferentes histórias surgem e, consequentemente, dissolvem-se umas nas outras, deixando pairar sobre o próximo passo o contexto de uma outra realidade em um mesmo lugar, nos fazendo contemplar ambos os lados da história, oferecendo uma profundidade que faz criar um embasamento necessário para encarar o todo. Por isso, quando temos atitudes como do personagem de Benito Martinez, que a princípio está buscando por seu filho, mas por fim se encontra numa trama sobre vingança, vemos uma transição feita com sutileza, até por ser algo novo neste ponto na série. Porém, a introdução é compreensível. Não é um homicídio no qual se isenta responsabilidade ou se alega que é olho por olho, dente por dente. Destaca-se aí a relevância de tais crimes dentro do sistema norte-americano, e até mesmo as diferenças nas destinações das vítimas. O olhar lançado sobre as situações demonstra uma desigualdade que é frustrante e que têm pesos diferentes, relegando vítimas a uma fria indiferença que visa outras coisas que não simplesmente a resolução dos casos.

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Enquanto de um outro lado, com uma escassez de recursos, se encontram figuras como a da personagem de Regina King, numa atuação que supera seu trabalho dos anos anteriores e dá à série uma riqueza emocional singular. Algo que só não é equiparável com Felicity Huffman pela personagem desta não ter o mesmo carisma. São delicados contrapontos numa narrativa que torna ambas personagens complementares, dois lados opostos que dada suas circunstâncias fizeram determinadas escolhas que as levaram até o ponto onde se encontram. Ainda que vastamente diferentes, é de praxe das virtudes de American Crime nos mostrar o quanto ambas possuem em comum. Assim como os adolescentes, em especial os mais protagonistas, os personagens de Connor Jessup e Ana Mulvoy Ten. Jovens que carregam em si um pouco do que é visto no outro, e cuja vida tem suas semelhanças, bem como suas divergências e peculiaridades. A série, então, joga com essas justaposições, delineando os personagens desta temporada, para além dos recursos econômicos, com relações que refletem os anseios de uns e outros, exercendo um efeito ainda maior sobre tramas como a protagonizada por Timothy Hutton, Lili Taylor e Mickaëlle X. Bizet. São características que por vezes se fazem cruéis, vista a injustiça às quais certos personagens se destinam, o que só torna tudo ainda mais palpável.

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O mundo passa por mudanças e, cada vez mais conectado, o processo imigratório se torna mais comum quando percebemos que as barreiras até então impostas são inexistentes, uma invenção feita de limites que já não mais funcionam. Com isso, transforma-se em vítimas os habitantes de ambos os lados da cerca, vítimas de uma construção histórica feita justamente para impedir a progressão de algo com o qual até hoje não se sabe lidar. As linhas de um mapa são imaginárias, mas as dores que causam esses frutos são de uma perversão severa, até pela maneira onde a grama do vizinho, que pode parecer mais verde, se releva uma mera ilusão estabelecida às custas de outros. A fotografia e todo o mise-en-scène de American Crime sempre enalteceram uma beleza que vai além de um ornamento estético, a forma como sempre foi preterido um preenchimento da tela pelos personagens diz muito sobre o estado humano que a criação de John Ridley sempre explorou, gerando poderosas imagens e retratos gloriosos daquilo que somos. Se paira com maior força a melancolia e o trágico, é porque nos encaminhamos a um percurso no qual está reservada uma inevitável parcela de sofrimento. American Crime ecoa vozes de vidas inocentes perdidas num processo cuja a prometida prosperidade do sonho americano optou por subjugar. American Crime fez o serviço de explorar histórias com o devido respeito que mereciam. American Crime nos fez entender como é ainda mais complexo do que imaginávamos, ser humanos, falhos, imperfeitos, estarmos perdidos em tal contexto, este que torna essa última temporada na melhor série do ano.

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