Tina Fey é uma das principais comediantes americanas que se popularizou graças ao seu seriado 30 Rock, na qual bordava os bastidores de um programa de televisão, tema livremente inspirado na própria vivência de Fey durante seus anos no Saturday Night Live. Após a conclusão de sua série, a comediante teve destaque apresentando por três anos seguidos a cerimônia de premiação do Globo de Ouro, ao lado de sua parceira e amiga Amy Poehler, ganhando ainda mais notoriedade, reafirmando-se como uma das mais promissoras comediantes da geração. Diante disso, era muito esperado seu retorno aos projetos televisivos, eis que Unbreakable Kimmy Schmidt surgiu com o retorno de Tina Fey frente ao comando de um show. Produzida pela Netflix, Kimmy Schmidt chega ao seu terceiro ano mais nonsense do que nunca, explorando seu próprio universo – e pasmem: o universo da netflix – e se mostrando, cada vez mais, temporada por temporada, uma série cômica extremamente melancólica, sobre como a humanidade é triste e deprimente.

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Se a primeira temporada teve as dificuldades de uma série inicial, tendo que apresentar seus personagens e focando em desenvolver a protagonista, chegamos no terceiro ano tendo uma série que é, ao mesmo tempo sobre Kimmy Schmidt (Ellie Kemper) e ainda totalmente sobre seus outros personagens. As múltiplas tramas paralelas envolvendo Jacqueline (Jane Krakowski), Titus (Tituss Burgess) e Lilian (Carol Kane) dão um caminho a parte da trajetória de Kimmy em se adequar ao mundo moderno após mais de dez anos presa num bunker sendo iludida por um falso profeta religioso (John Hamm fazendo uma ótima ponta).  Esse terceiro ano, inclusive, foi o momento dos coadjuvantes terem pleno destaque, a profundidade dada para Lilian, antes um mero alívio cômico nonsense, destacou uma profunda amargura com o mundo contemporâneo ao qual a série tanto nutre em reafirmar, Lilian prefere se agarrar as memórias do passado, onde havia motivos pelo que lutar, ao contrário de hoje.

O episódio número dois dessa terceira temporada, o que foca em Titus emulando a cantora Beyonce e o álbum “Lemonade”, foi um dos momentos mais inspirados da série até agora, foi nada mais que uma cena clássica instantânea. Junto ainda da participação maravilhosa da também comediante Maya Rudolph, vivendo a cantora Dionne Warwick – Emmy de atriz convidada já tem uma favorita. Afirmo com clareza que a temporada foi de Titus, um personagem desde a primeira temporada foi o ladrão de cena, ganhou uma nuance dramática em seu enredo, sem perder o bom humor, uma sintonia rara na qual o show conseguiu equilibrar. Jacqueline, por sua vez, teve seu conflito em evidência, na busca pelo amadurecimento como pessoa versus o desejo de ser uma esposa troféu ao lado de um marido rico.

Tina Fey ainda aproveitou para evidenciar a América de Trump, um país cada vez mais cínico e ciente da escolha controversa na qual fez no pleito de outubro passado. É contagiante a forma como a realizadora incorpora esse cinismo social junto ao argumento da série, onde os personagens parecem reféns da falência do sonho americano que os cercam, muito por isso eles tentam fugir da realidade, abraçam o nonsense e dependem de Kimmy para ser o otimismo e a esperança que os tempos, por mais sombrios, melhorarão, ainda que não seja algo muito real, diante dos fracassos da própria protagonista. Enfim, apesar de um leve tom político, a série permaneceu focado em ser aquilo na qual propõe: uma fuga da realidade, sem tamanhos, por mais forçado que algumas situações possam parecer durante a projeção, vemos uma originalidade na proposta que nos cativa ao modo de embarcarmos nesse barco até o fim. Pode não ser uma experiência divertida para todos, porém contempla bastante para aqueles que, assim como Kimmy, Lilian, Titus e Jacqueline, querem fugir do triste amargo da vida adulta/moderna e só por isso já valeria a pena, porém com um texto inspirado, a experiência acaba sendo pra lá de contemplativa.

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