Crítica | Guerrilla | Minissérie

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Guerrilla (Minissérie) (Sky Atlantic/Showtime, 2017); Criada por: John Ridley; Direção: John Ridley, Sam Miller; Roteiro: John Ridley, Misan Sagay; Elenco: Freida Pinto, Babou Ceesay, Rory Kinnear, Nathaniel Martello-White, Idris Elba, Patrick Gibson, Zawe Ashton, Daniel Mays, Bella Dayne, Wunmi Mosaku, Denise Gough, Brandon Scott, Nicholas Pinnock; Número de Episódios: 06 episódios; Data de Exibição: 13 de Abril a 14 de Maio de 2017;

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Guerrilla, assim como a última temporada de American Crime, se beneficia do contexto atual pelo qual passamos, a minissérie parece deveras atual quando lembramos do Brexit, nos levando a questionar o quanto realmente mudou numa luta pela equidade de direitos. Porém, ao contrário da outra série de John Ridley, que tem um olhar mais passivo, onde os personagens geralmente se encontram numa posição de vítimas, ainda que das próprias convicções, aqui se dá lugar a algo mais ativo, entra então a rebeldia. Colocados contra a parede, resta o confronto. Até por isso, talvez, Guerrilla seja mais indigesta. A minissérie se recusa a ficar em cima do muro, e seu radicalismo apresenta um outro lado, o lado que só tem a revolução como saída, uma revolução que não se pode formar apenas por palavras, é necessária uma tomada de ação. A ideia, porém, encontra um empecilho em sua execução, ao menos parcialmente, e a revolução que parecia uma promessa a ser cumprida se atém muito apenas às palavras. Discursos dão lugares a discussões infundadas e propiciam ao espectador uma dezena de cenas onde a narrativa se vê encurralada, com trocas de ofensas entre os personagens, quando seus egos são colocados em voga frente ao movimento.

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É compreensível a tentativa de John Ridley. A intenção ao colocar Freida Pinto e Babou Ceesay como protagonistas deixa as coisas bastante claras. Há um aprofundamento na intimidade dessas figuras históricas que aqui são representadas. Há também o indicativo de que a minissérie trata apenas do início do movimento. Contudo, mesmo numa curta jornada como a da minissérie, que conta com apenas seis episódios, parece haver excessos em certos pontos da narrativa. Uma questão fundamental para a compreensão disso são os diversos personagens coadjuvantes que acabam estabelecidos como antagonistas centrais, e que recebem uma representação de sua própria intimidade. É algo que Guerrilla faz para tentar contornar a criação de uma força opressora maniqueísta, bem como explorar a criação de um contraponto ao radicalismo dos protagonistas, que é onde entra o personagem de Idris Elba. Figura que cria uma divisão dentro do movimento negro, causando uma cisão que, como sempre na história, visa beneficiar somente aos interesses dos opressores. Guerrilla lida com esse elemento exatamente desta forma, mas pouco o personagem oferece para um ator de tal nível. O que encontramos como resultado é uma trama superficial que desperdiça enorme potencial, sem contar o tempo que é dedicado ao desenvolvimento a tal elemento, que não encontra um equilíbrio necessário.

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Esse ponto de equilíbrio também não é encontrado para os personagens de Rory Kinnear (Penny Dreadful) e Daniel Mays, que fazem os detetives responsáveis pela caça aos líderes do movimento. Ambos auxiliam a estufar a narrativa e é bastante perceptível a maneira como os dois são utilizados para subverter expectativas. O que a princípio se espera de um, acaba sendo feito por outro. No entanto, enquanto o personagem do primeiro recebe demasiada atenção, numa trama individual toda para si, o segundo quase decaí para o maniqueísmo que se quer evitar. Pode-se até aceitar que Daniel Mays interpreta mesmo um personagem maniqueísta, até porque o desenvolvimento do mesmo é bastante ralo. Este último arrasta consigo uma das personagens coadjuvantes, interpretada por Denise Gough, até o último episódio, com tramas que se estendem numa construção na qual se tenta vender uma reviravolta barata. A funcionalidade existe, mas por conta da superficialidade que encontramos, outra vez, no detetive, parece muito mais uma conveniência da qual John Ridley vê a oportunidade de tirar proveito. Aqui há, porém, dedicação plena dos atores, que ao menos recebem algo a mais do que Idris Elba com o que trabalhar, tendo aí momentos de dramaticidade mais maleáveis, mas que exigem menos sutileza, pois se embasam muito em momentos explosivos dos personagens.

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Guerrilla não é imparcial, e o faz pelos motivos corretos. Talvez as expectativas em torno de si, ao menos de minha parte, eram grandes demais. Mas baseado no que John Ridley já se mostrou capaz, a minissérie parece pouco inspirada. Um recorte que não parece fazer jus ao movimento negro, não porque tem medo de levantar as bandeiras que precisa, isso faz sem pudor algum, o problema reside em como o conteúdo se desencontra, e aos poucos se esvai, nas cansativas discussões pessoais entre os personagens. Se ali, naquele momento, eles próprios ainda estavam buscando por suas próprias vozes, é algo compreensível. O que deixa de ser verdade quando boa parte dos episódios é uma gritaria e situações de ameaças veladas entre os próprios companheiros. É uma provação constante do ego dos personagens. Se Guerrilla seguisse pelo caminho que estabelece nos dois primeiros episódios, que são os mais empolgantes da minissérie, teríamos aqui um sucesso indispensável. Entretanto, nos deparamos com um desenvolvimento que beira o marasmo, nos quais as elipses temporais, tão queridas a John Ridley, se fazem um ornamento estético dispensável, e que pouca, ou nenhuma, influência tem na narrativa no todo. Caso fizessem os personagens e o ideal andar em frente, Guerrilla seria recebida com louvores, mas acaba por existir apenas como uma aspiração ao seu potencial.

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