Guerra Fria (Zimna wojna, 2018); Direção: Pawel Pawlikowski; Roteiro: Pawel Pawlikowski & Janusz Glowacki; Elenco: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Agata Kulesza; Duração: 88 minutos; Gênero: Drama, Romance; Produção: Tanya Seghatchian, Ewa Puszczynska; País: Polônia, França, Reino Unido; Distribuição: California Filmes; Estreia no Brasil: 07 de Fevereiro de 2019;

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Quem não gosta de uma boa história de amor? Ainda mais quando ele é um romance impossível. O cinema hollywoodiano popularizou o gênero, porém acabou por banaliza-lo. Facilmente se dá uma trama onde o romance enfrenta inúmeras dificuldades, os amantes impossíveis acabam por superar as adversidades e por fim ficam felizes para sempre. Além de clichê, quase brega. Felizmente, o gênero se reinventa sempre, adicionando diferentes elementos vindouros de outros subgêneros, é o caso do longa polonês “Guerra Fria” , do diretor vencedor do Oscar por “Ida” (2013),  Pawel Pawlikowski. O título se refere ao conflito indireto vivido pós 2ª Guerra Mundial, que culminou na ocupação soviética na Polônia, implementando um regime autoritário ao país. Nesse cenário, se insere a arte: a música e o teatro, muito valorizado inclusive pelo próprio Stalin.

Zula (Joanna Kulig) busca por meio da música encontrar um rumo a si. Ela se apaixona por seu maestro Wiktor (Tomasz Kot), um homem mais velho, com a estabilidade que a jovem tanto busca. Durante 15 anos, eles vão desenrolando tal romance, considerado impossível decorrente dos fatores políticos e sociais locais. Assim como fez em seu filme anterior, Pawlikowski faz um olhar analítico, distante, quase frígido sobre a relação daqueles indivíduos, usando da arte envolto dos dois como grito, bem sutil, em prol da liberdade. Outro ponto interessante é como os dois personagens encarnam a representação de diferentes espectros de mundo: o caos, a incerteza em meio ao futuro de uma guerra nuclear iminente e o belo, a calmaria, a plenitude quase passiva da música e da dança que eleva num tom de escapismo.

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A fotografia de Lukasz Sal, mesmo de “Ida“, desenhada é bárbara, compõe em cada enquadramento uma bela obra de arte, como numa pintura barroca. Não é gratuito, cada elemento em quadro tem significado, seja narrativo ou meramente simbólico. É um dos melhores usos de preto e branco contemporaneamente, visto que o próprio figurino de determinados personagens denota valor, como a plateia em preto que assiste ao espetáculo, completamente branco, quase angelical. O uso da música também acrescenta um lirismo que se contrapõe ao tom distante da direção, gerando momentos de emoção.

O principal mérito de “Guerra Fria” é conseguir sintetizar o conflito do título em uma relação entre um homem e uma mulher. Numa sutileza absurda, onde tanto Joanna quanto Tomasz desempenham performances opostas, justamente por isso complementares. Os amantes que, mesmo sem estarem juntos durante os anos que percorrem, carregam o sentimento consigo para sempre. É visto isso no olhar, de cumplicidade e também passividade, onde um se entrega ao outro permissivamente dos dois e, principalmente, do cineasta -que se inspirou no casamento dos próprios pais – ao qual imprime um tom único sobre o amor pleno. O do pertencimento, independente do que houver, mas sempre amor.

“Guerra Fria” – Trailer Legendado:

Este texto faz parte da cobertura do 20º Festival do Rio.

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