A Casa Que Jack Construiu (The House That Jack Built, 2018); Direção: Lars Von Trier; Roteiro: Lars Von Trier; Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl, Riley Keough, Jeremy Davies; Duração: 155 minutos; Gênero: Drama, Thriller; Produção: Louise Vesth, Jonas Bagger, Piv Bernth, Peter Aalbæk Jensen, Marianne Slot; País: Dinamarca, França, Suécia, Alemanha; Distribuição: California Filmes; Estreia no Brasil: 01 de Novembro de 2018;

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O cineasta dinamarquês Lars Von Trier é um amante da polêmica. Talvez o auge disso, foi sua expulsão no Festival de Cannes de 2011, depois de fazer uma série de piadas de gosto duvidoso, onde defendia os atos atrozes cometidos por Hitler. Esse ano, o diretor retornou ao festival com “A Casa Que Jack Construiu“, quase uma obra autobiográfica por tamanha auto-indulgência por parte de Von Trier. É uma obra de ódio e amor a si próprio, da forma mais egocêntrica possível. É notório como o cineasta aproveita ao máximo da própria persona criada decorrente de seus atos, construindo uma caricatura de si. É um exercício de usar da polêmica, do choque e sadismo ao espectador como força motriz de seu cinema.

Justamente essa necessidade de chocar torna “A Casa que Jack Construiu“, um filme tão insosso. Todo o potencial é perdido numa mera masturbação intelectual e artística – como o personagem faz tanta questão de frisar – de um cineasta que só fala consigo próprio. Os fãs ávidos do diretor devem apreciar, até pelo fato de ser o filme onde ele se comunica diretamente com estes, se todas as referências óbvias não bastassem, Von Trier ainda faz questão de, além de se referenciar, mostrar cenas de seus filmes anteriores e classifica-los como obras de arte, que retratam a miséria e dor do universo (!). A pretensão absurda gera um humor involuntário, pois ele leva tão a sério tamanho discurso que soa quase banal.

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A estória é sobre Jack (Matt Dillon), um psicopata assumido, percorrendo um caminho ao lado de um viajante anônimo (Bruno Ganz) por quase toda a trama. O personagem do título conta cinco incidentes aleatórios na sua vida, que culminaram nele praticando assassinato gratuitamente, em paralelo ao seu desejo de construir a tal da casa, uma considerada perfeita. Não faz muita diferença dizer, todas as vítimas do serial killer são mulheres. Por qual motivo? Fica a questão. Um ódio assumido pelas mulheres, ao qual Von Trier classifica como natureza: O homem já nasce fadado a ser culpado dos males, a mulher por sua vez nasce para ser vítima. Uma misoginia chocante, pois realmente o diretor tenta fazer um papel de desconstrução desse seu machismo, numa forma de auto-perdão. Acaba saindo como um atestado de ódio a qualquer mulher, como pode ser visto pelos abusos cometidos pelo diretor à suas atrizes ao longo de sua carreira.

Ele tenta se justificar em todo momento, de uma forma didática, completamente chata. Até toda a polêmica envolta de sua opinião sobre Hitler é citada, novamente tentando achar uma explicação para atribuir relevância artística ao holocausto. Tamanha barbaridade seu discurso, num sadismo impressionante, até ao nível do diretor. Ele quer chocar em todo momento. Cada incidente é mais violento, gratuito e banal. O mérito maior é para Matt Dillon que consegue captar a insanidade de Von Trier; não conseguimos (e nem queremos) ter alguma empatia com um personagem tão egocêntrico e detestável. Dillon pode até abraçar o lado caricatural, porém trabalha com os elementos oferecidos pelo roteiro, também assinado pelo diretor, que é tão raso. Os momentos que tenta gerar uma grandeza filosófica são arrogantes, onde tenta explicar ao público os sacrifícios pela Arte, as questões da natureza humana… Uma divagação que pouco acrescenta, na verdade torna a experiência ainda mais entediante.

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O pior polemista é aquele assumido, que faz tudo em prol da relevância. Fazendo isso, ele não causa nada além de preguiça. Lars Von Trier chegou nesse caminho, ele pode se esforçar ao máximo para chocar, pode usar de todo o sadismo e crueldade com isso, porém nada tem a oferecer. O que torna “A Casa que Jack Construiu” só um retrato de um homem atormentado consigo, porém buscando o perdão. Melhor uma terapia que um filme tão boçal como esse, né?

“A Casa Que Jack Construiu” – Trailer Legendado:

Este texto faz parte da cobertura do 20º Festival do Rio.

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