A primeira temporada de True Detective foi uma das maiores experiências televisivas dos últimos anos, podendo facilmente ser um parâmetro para a nova fase de ouro no qual as produções americanas estão vivenciando. O ruim de ter um início tão incrível é seguir adiante com uma nova temporada tão inovadora e ousada quanto a anterior, é uma tarefa árdua para não dizer impossível, pois dificilmente se alcança o patamar estabelecido, sofrendo comparações inevitáveis. A segunda temporada da série foi vítima de comparações levianas, chegando a ser subestimada para não dizer incompreendida, pois de fato há uma heterogeneidade entre as duas temporadas que pode, a primeiro momento, ter chocado o espectador, contudo no decorrer dos novos oito episódios, nos deparamos com o que há de melhor em narrativa, uma das argumentações mais desoladoras e singulares dos últimos tempos, tendo seus personagens muito bem construídos, nos levando ao êxtase do sufocamento e da tristeza, por remeter a assuntos pertinentes, novamente trazendo a condição humana em evidência, sobre novas óticas e focos.

A trama gira em torno da fictícias desértica e industrial cidade de Vinci, panorama de disputas de poderes, desvios de dinheiro, exploração de imigrantes, mafiosos… Enfim, local onde a criminalidade,mesmo que invisível, reina em todos os setores da sociedade. Frank Velcoro (Colin Farrel) é produto de tão nociva sociedade, um detetive que é obrigado a se afastar por problemas específicos com sua família, porém retorna às atividades a mando do empreiteiro e mafioso Frank (Vince Vaughn), que visa sucesso a qualquer custo para dar uma vida decente para sua sonhadora esposa Jordan (Kelly Reilly). Em dado momento, junta-se as investigações a detetive Ani Bezerrides (Rachel McAdams) e o oficial Paul Woodrugh (Taylor Kitsch), ambos somam forças para investigar um crime ligado aos políticos locais, jogos de poder e corrupção na própria corporação. Se a primeira temporada usava do misticismo para construir sua narrativa, a segunda vê na relação do homem e das suas instituições para construir, eis o palco para uma reflexão sobre a sociedade e nosso papel sobre ela.

Podemos associar várias características ao texto e estória de Nic Pizzolato, porém nenhuma se refere à sua previsibilidade e fácil compreensão, a série vai sendo construída aos poucos em seu decorres, de diálogo em diálogo, frase por frase, ato por ato de seus personagens, tudo fazendo o maior sentido e relevância dentro desde universo, conseguindo gerar uma atmosfera de mistério que chega a nos sufocar, proporcionar apreensão, para os eventos que seguirão. A argumentação segue inúmeras vertentes, primeiramente sobre a decadência da figura masculina/paterna nessa sociedade em evolução, os personagens masculinos, por mais auto-suficientes que possam parecer, apresentam vazio emocional, não aceitam a si mesmo e buscam preencher nos vícios tradicionais ao gênero, já as personagens femininas mostram sua garra em se impor em meio ao machismo, fugindo dos esteriótipos sexuais. A segunda vertente, talvez a primordial do roteiro, é afirmar de forma bastante melancólica e direta à falência da sociedade contemporânea, todos somos passíveis a nos desviar dos caminhos considerados virtuosos, abraçar a barbárie para conquistar nosso espaço, realizar nossos próprios interesses, não há mais esperança no mundo que vivemos por termos uma sociedade vazia e carente de utopias e lutas de relevância social.

“Merecíamos um mundo melhor…” Pronuncia certa personagem em momento decisivo, no final das contas o mistério -instigante ainda- fica em segundo plano, sendo uma reflexão desoladora, triste de se captar, pois a industrial cidade de Vinci conseguiu transpor todos os males pertencentes na atualidade, faltando pessoas realmente dispostas a ir na contramão, sendo os personagens seres assolados por tamanha impotência. Infelizmente é a realidade, vinda sob uma série sensacional, com todo elenco no ápice de suas carreiras, vale a conferida, a reflexão e a torcida para uma eventual terceira temporada.

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