Dentre tantos cineastas dessa nova geração, um dos que considero mais interessante e promissor é, sem a menor dúvida, J.C.Chandor, chegando ao seu terceiro filme, mostrando uma sintonia entre seus projetos -proposital ou não- no mínimo peculiar. Em “Margin Call”, nos deparamos com o início da falência do sistema capitalista, deixando seus operadores reféns, buscando alternativas para sobreviver. Já em “Até o fim” vemos um homem literalmente a deriva no mar, visando justamente sobreviver às adversidades que por alguma razão pareciam castigá-lo. Agora, em “O Ano Mais Violento” vemos um imigrante tentando se consolidar como empresário respeitável, entretanto há uma grande aversão a ele, seja pelo preconceito étnico ou pela concorrência desleal temerosa. Em suma: os três longas-metragens, mesmo sendo filmes tão diferentes entre si, narram a odisseia de seus distintos personagens em busca da sobrevivência, enfrentando consequências por suas escolhas, seja por acaso ou não.

Abel (Oscar Isaac) é o tal imigrante que tenta se firmar como empresário, aparenta ter um grande senso moral, com objetivo de ser um respeitável e honesto empresário. Sua esposa, Anna (Jessica Chastain) tenta ser braço direito do marido, porém com conflitos quanto ao caminho honesto a se seguir, além do fato de ser filha de mafiosos e estar perturbada pelos golpes que a concorrência estão dando nos dois. Em dado momento, ambos ficam encurralados por todos, tendo que começar a correr sérios riscos para seguir em frente. A violência do título começa a se manifestar de inúmeras formas, será que ele estão preparados para isto sem se corromper?

Chandor além de dissecar o “American Dream”, acrescenta um importante questionamento: seria possível vencer na vida sem se corromper? Sem abrir mão de seus ideais e da virtuosidade? É justamente esse potente argumento que nos conduz ao longo das duas horas de filme, é incrível como o público se sente representado pelas ambições de Abel, refém daqueles que tentam diminuí-lo e no conflito de se vale a pena pegar algum “atalho” ou não. Também há uma crítica direta ao sistema hostil americano, assumidamente preconceituoso aos que fogem à “normatividade”, vangloriando os que apresentam algum tipo de influência política ou econômica. Uma fotografia sofisticada aumenta a sensação de mal estar, de clima pesado e do ar decadente americano. A direção de Chandor consegue aproveitar ao máximo seu roteiro, induz uma violência sutil, não escrachada, há uma cena em particular na qual uma criança brinca inocentemente com uma arma de fogo, causando um pavor gigantesco ao público, sem exageros.

Oscar Isaac e Jessica Chastain apresentam uma química incrível, ambos desempenham seus papéis de forma soberba, o primeiro apresenta um refinamento singular, dá um ar superior ao seu personagem, não nos faz ter pena. A segunda, mostra ser uma das atrizes mais versáteis e empáticas dos últimos tempos, com “quê” de femme fatalle, lembrando até uma das loiras hitchcockianas. “O Ano Mais Violento”, portanto, é um dos filmes mais interessantes dessa última temporada, é inventivo e reflexivo que nos arrebata ao ponto de estarmos conectados até certo ponto aos personagens. Afinal, vale tudo para sobreviver? J.C.Chandor ainda irá nos responder, resta esperar seus próximos projetos.

O Ano Mais Violento por Márcio Picoli

Todo ano, após o Oscar, sempre começam a chegar as produções que tinham tudo para estar na premiação e, inclusive, ganhar alguns prêmios. Esse é o caso de o Ano Mais Violento, ou melhor, esse e o caso de J.C. Chandor que, mais uma vez, foi ignorado pela Academia. Sim, ele já esteve entre os indicados a melhor roteiro original pele seu primeiro longa, Margin Call, mas ficou só na indicação mesmo e, por isso, falo ignorado sem medo. Após a sessão é impossível não se questionar o porquê de diretores como Morten Tyldum, por O Jogo da Imitação, estarem na lista e Chandor, não. Já que não dá para mudar o passado, vou então, tentar provar (se os argumentos do Eduardo ainda não tiverem sido suficientes) a burrada que a Academia cometeu novamente.

Superadas as preliminares de crítica ao sistema ao qual os EUA vivem, mesmo que de forma indireta, até hoje que o Eduardo apontou, vou me ater, brevemente, um pouco mais a técnica de Chandor e de sua equipe na criação desse universo hostil, mas ao mesmo tempo muito familiar. A Nova Iorque que vemos na fita é algo praticamente único e que pouco tivemos acesso nos últimos anos. O clima de morte e de tensão sangra por toda película, ao ponto de ser difícil reconhecer primeiramente que a trama se passa na Grande Maça. Isso se deve muito às escolhas exitosas do diretor de fotografia Bradford Young (que também trabalhou em outro filme marginalizado pela Academia, Selma) que mantém uma paleta de cores frias em todos os momentos, inclusive naqueles em que não há nenhuma ameaça iminente, criando, portanto, um constante aspecto de insegurança. Essa atmosfera vai nos passando um sentimento de horror e de impotência, principalmente quando começamos a perceber que as escolhas do protagonista vão levá-lo para dois caminhos: ou o da destruição ou o da glória. Este último, é claro, através da corrupção e da deturpação das normas tanto éticas quanto morais. E o pior de tudo é que acabamos sendo cúmplices, pois a relação dos protagonistas interpretados pelos brilhantes Oscar Isaac e Jessica Chastain nos levam a torcer pelo seu sucesso para só mais tarde, ou melhor, no final da película, abrir espaços para questionamentos sobre a necessidade de tudo aquilo.

 ~~TRAILER LEGENDADO~~

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