Sem Caminho Direto Para Casa” (“No Simple Way Home”, 2022); Direção: Akuol de Mabior; Roteiro: Akuol de Mabior; Elenco: Rebecca Nyandeng de Mabior; Duração: 85 minutos; Gênero: Documentário; Produção: Sam Soko; País: África do Sul, Reino Unido;

Akuol de Mabior, quando nasceu em 1989, já via seu país em uma guerra civil, que durou por quase três décadas, a vida de uma geração foi, de fato, definida pelos conflitos que levaram à separação do Sudão entre Norte e Sul. A diretora de “Sem Caminho Direto Para Casa” viveu em exílio, longe dessa realidade, é verdade, mas é tão vítima desses conflitos quanto qualquer outro, afinal, seus pais lideraram a insurgência da força revolucionária sudanesa e a tentativa de tratativas de paz, que se arrastaram até 2019, e ainda hoje caminha a passos lentos. É bem plausível dizer que há um certo privilégio por parte de Akuol, criada com muitas mais oportunidades que a maioria da população de seu país natal jamais terão, mas acredito que há uma consciência dela por parte disso, e assim é fundamental a maneira como ela se coloca não só como câmera personagem, mas como uma própria personagem dentro da narrativa, afinal, sua história e a de seu país são intrínsecas umas às outras. É importante, também, como Akuol não se coloca como solucionadora de conflitos ou problemas de sua nação, creio até que ela prefere assumir um papel de observadora justamente por não ser capaz de se ver naquela posição, o que não é demérito algum, pelo contrário. É também uma forma de demonstrar a importância que sua mãe passa a ter no país, bem como a sua irmã, e a força que as duas precisam ter e exercer para coexistir naquele ambiente de hostilidade que engloba uma miríade de elementos socioculturais que fomentam a cisão do país, além, obviamente, da disputa de poder.

Há uma tremenda sensibilidade no olhar de Akuol para seu país e sua família, que compartilham uma mesma história. Um olhar bastante apurado para alguém tão jovem, ainda que aqui ou ali possa ecoar um mínimo de ingenuidade. Algo que também é contraposto por como ela demonstra entender que o país está longe, muito longe, de qualquer forma de estabilidade. De forma que ela até se mostra vulnerável ao entrevistar algumas mulheres de um vilarejo assolado pelas enchentes no país, vilarejo este do qual se origina sua própria família, e de onde seu pai encontrou vários homens que fizeram parte de seu exército durante a guerra. Há um parâmetro entre essas mães e famílias desamparadas, que compartilham perdas por consequência de uma mesma causa, ainda que vivam em espectros tão diferentes. Similaridades que a atraem de volta para casa, que atraem o seu olhar tão apurado para contar essa história. Há uma dor muito profunda que recorta todo o filme, que parece capaz de desencorajar qualquer um. Mas isso é justaposto por um aparente otimismo de Akuol, que ecoa com as razões pelas quais ela se torna personagem no filme, “Sem Caminho Direto Para Casa” é também sobre crise identitária, e sobre essa figura se encontrando e reconhecendo-se em seu verdadeiro lar.

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