Uma Noite Sem Saber Nada” (“Toute Une Nuit Sans Savoir”, 2021); Direção: Payal Kapadia; Roteiro: Payal Kapadia, Himanshu Prajapati; Elenco: –; Duração: 99 minutos; Gênero: Documentário; Produção: Thomas Hakim; País: Índia, França;

Ao início da sessão de “Uma Noite Sem Saber Nada”, a diretora Payal Kapadia nos avisa, em uma mensagem gravada direto de sua casa, que o filme que estamos prestes a ver é um bastante silencioso. Depois de visto o filme, chega até a ser uma constatação um tanto irônica. Kapadia não está errada, seu filme é mesmo silencioso, quieto, até introspectivo. Afinal, trata-se de um achado muito pessoal. Diversas cartas, recortes, rascunhos, rabiscos e desenhos encontrados por ela e deixados por um estudante universitário anônimo, assinadas apenas com um L. E a história de L. vai nos conduzindo pela história de uma transformação política na Índia, enquanto universitários batalham por seus direitos e tradições e preconceitos são desafiadas através de um amor. São histórias que se confundem e se mesclam, se misturam e se apresentam como parte de um mesmo tecido, vindouras de uma juventude efervescente e que se vê subjugada por uma série de decisões que pouco ou nada se interessam por sua real situação e, numa tática política comum, faz de tudo para que na percepção pública esses jovens sejam tidos como os vilões da história. Algo do qual estamos bastante acostumados a ver.

E vemos isso refletido no contemporâneo, quando Kapadia e seus colegas de Universidade continuam nessa briga por direitos e melhores condições. A maneira como ela tece seu filme é impressionante, porque tudo é costurado de forma completamente orgânica. Dos arquivos encontrados por ela, às imagens que ela própria constrói, há uma transição muito sutil, e por isso se mesclam, é como se fizessem parte de um mesmo organismo. Há uma sensibilidade muito tocante em como ela estabelece o filme, e justapõe palavras escritas por um desconhecido às imagens que vemos. Ela dá vida àquela pessoa e, assim, seu próprio filme ganha vida. A opção pelo preto e branco ressaltam a visão de Kapadia e o que ela deseja, uma forma de deslocar esses dois espaços de tempo diferentes e alinha-los conformemente, como se fossem uma única unidade, porque ecoam entre si. Mas tanto no amor como na revolução, existe dor, violência, sofrimento, e há uma justaposição de ambos também nesse quesito, não de forma gratuita, mas pela razão da ascendência de L. que gera preconceitos por parte dos pais da pessoa que ama. Tudo isso orna, e se organiza de forma que Kapadia se vê longe de construir um filme silencioso, ao menos no que tem a dizer ao espectador.

Acompanhe aqui nossa cobertura do Festival Internacional de Curitiba. Confira aqui a programação completa do 11º Olhar de Cinema.

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