A mente de Noah Hawley talvez seja uma das mais criativas da indústria atualmente, o que ele faz nas suas produções é de uma grandeza narrativa ímpar. No início desse ano tivemos a estreia da série Legion, usando personagens do universo Marvel, o showrunner deu uma dimensão jamais vista no que tangencia adaptações de quadrinhos. Seu maior trunfo é saber contar a estória sem caminhar para caminhos comuns, ao contrário: quanto mais nonsense é a caminhada de seus personagens mais característico do criador será. Isso é sentido em proporção na antologia Fargo, inspirado no filme homônimo de 1996 dos Irmãos Coen, a minissérie aborda casos criminosos de caráter totalmente duvidoso para criar um universo abundantemente vasto de complexidade filosófica e reflexões sociais, partindo do mesmo princípio do filme: A banalização da vida no cotidiano contemporâneo.

Nessa terceira temporada, a trama gira entorno dos irmãos gêmeos Emmit e Ray (Ewan McGregor), o primeiro é um pequeno empresário bem sucedido no ramo dos estacionamentos, o segundo é um agente de condicional que vive de forma humilde sendo obrigado a se humilhar para o irmão. Ray visa se casar com uma ex presidiaria sob condicional chamada Nikki (Mary Elizabeth Winstead), para isso decide pedir dinheiro emprestado para Emmit e seu sócio Syl (Michael Stuhlbarg), porém não é bem compreendido. A partir disso inicia-se uma série de acontecimentos inacreditáveis entorno da disputa dos dois irmãos, que acaba por envolver uma investigação de assassinato sendo comandada pela chefe Gloria (Carrie Coon).

Diferente das outras duas temporadas, a terceira é a que mais faz sentido no seu nonsense (?). Simplesmente a trama é tão bem escrita que mesmo os momentos inverossímeis soam completamente reais. O desenvolvimento da estória na medida que os personagens também crescem é uma dos melhores feitos da antologia. Ela consegue realizar um gigante estudo de cada personagem, dando espaço para a particularidade de figuras tão distintas, como a chefe de polícia vivida por Carrie Coon (The Leftovers). Vítima de tragédia pessoal, de notória crise de identidade e ainda perdida em meio a uma sociedade machista que não a enxerga, vê na investigação uma forma de ganhar notoriedade e consequentemente relevância, porém o próprio sistema opressor a impede de prosseguir. Ou então a personalidade distinta de cada um dos irmãos gêmeos: Ray é uma figura quase bestial, aprisionado na própria melancolia de ter estado sempre à sombra do irmão, vê no seu casamento a primeira oportunidade concreta de começar a própria vida sem necessitar continuar nessa competição alá Cain e Abel. E justamente o anseio de Ray em se desprender disso que faz Emmit entrar em plena crise consigo mesmo, pois a sua vida depende inevitavelmente dessa rixa em ser acima do irmão. Quando se vê em meio a um dilema moral no qual encontra-se nas mãos do mafioso Varga (David Thewlis), entende a necessidade de escolher outro caminho. Porém a minissérie persiste em demonstrar um tom de destruição moral e humana dos indivíduos inseridos nessa sociedade banal, então nada acontece conforme planejado.

Fargo é uma tragédia sobre a decadência humana, como um bom filme dos irmãos Coen, entretanto com a essência visual de Noah Hawley, que opta nessa temporada por tons sutis abruptos. Em pequenos detalhes nos deparamos com o sub-texto inserido na trama, como em um cena na qual Varga abre os presentes de natal de Emmit e analisa de forma minuciosa, mostrando estar inserido profundamente naquele cotidiano que já não é mais familiar. Outro ponto é a disposição dos objetivos na construção das cenas, alinhados de forma simétrica a formar uma outra imagem, parecendo como um grande quadro. São esses detalhes que tornam a experiência tão soberba, a forma como a direção consegue conduzir de forma tão linear cada episódio, mantendo um ritmo de tensão e curiosidade ao espectador, entregando cada vez mais uma informação na formação desse quebra-cabeça mental para então jogarmos tudo que havíamos montado para o ar. Fargo quer te fazer pensar ao mesmo tempo quer te entreter com a indecência humana. Ela quer que você, espectador, se enxergue de alguma forma em algum daqueles personagens e perceba como a sociedade corrói.

O trabalho do elenco caminha junto do brilhantismo da direção e de seu argumento. Ewan McGregor faz dois personagens na mesma forma idênticos – não só na aparência – e completamente diferentes em exata proporção. O trabalho de David Thewlis é um dos melhores de todas as temporadas, ele constrói seu mafioso com moldes que nos fazem lembrar os mafiosos de Poderoso Chefão. Seu ar imponente, no entanto, se dá pela sua verborragia e seus trejeitos peculiares, um personagem que representa toda a banalidade proposta pela série, que a defende de forma vigorosa, nos fazendo embarcar na aparente loucura filosófica de Varga – que na verdade talvez seja o mais racional dos personagens.  Mary Elizabeth Winstead encarna com maestria sua personagem, ela faz uma anti-heroína digna de qualquer quadrinho, servindo de um belo contraponto para a composição de Carrie Coon, que aqui nos brinda com uma performance brilhante, defendendo uma personagem difícil por ser do núcleo, aparentemente, mais desinteressante.  Michael Stuhlbarg é o ator mais “Coeniano” de todas as temporadas”, ele chegou a fazer “Um Homem Sério (2009)” com a dupla de irmãos. Seu personagem também é de longe o que mais se assemelha ao universo dos Coen, sendo encarnado de forma igualmente digna pelo grande ator. Fica claro que além da mente genial por trás da série, seu elenco defende de forma incrível cada fala, cada jogo de câmera e cada argumento dado a eles.

A terceira temporada de Fargo pode ser a última, o próprio showrunner assegurou não saber o futuro da antologia. Desde já seria uma lástima perder uma preciosidade dessas, que nos rendeu episódios marcantes, cada um deles termina com um gosto de quero mais. Esse ano particularmente foi difícil terminar os episódios 7, 8 e 9, aos quais considero título de obra-prima contemporânea que redefinem os moldes tradicionais de narrativa televisiva –e cinematográfica – e proporcionam um novo patamar no qual, acredito eu, vai demorar para ser alcançado. Cada episódio, inclusive, renderia uma série de debates decorrente do amplo material empregado em seu texto.

Fargo é uma experiência a ser consumida com mente aberta e atenção aos detalhes, no final das contas proporciona uma ironia deliciosa em perceber que a maior piada da série é diretamente nós, os indivíduos da sociedade assistindo a tragédia da nossa própria vida.