Crítica | T2 Trainspotting

T2 Trainspotting (2017); Direção: Danny Boyle; Roteiro: John Hodge; Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova; Duração: 117 minutos; Gênero: Drama, Comédia; Produção: Bernard Bellew, Danny Boyle, Christian Colson, Andrew Macdonald; Distribuição: Sony Pictures; País de Origem: Reino Unido; Estreia no Brasil: 23 de Março de 2017;

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Trainspotting pareceu conversar muito bem não somente com a geração para a qual foi concebido, mas também para uma futura geração, aquela que sucederia ao público e que é onde me encaixo. Até porque, ao passar pela adolescência, mais exatamente para o término deste período, se vê surgir, ou se via, quase que como uma obrigação encarar o filme de Danny Boyle, lançado em 1996. Então, por mais que tenham se completado duas décadas desde o lançamento, é seguro dizer que o filme ainda está vivo na memória de muitos. Contudo, uma continuação parecia trair o discurso final feito lá atrás, catártico para muitos devido ao chocante rumo que víamos o Renton de Ewan McGregor (Fargo) tomar, escolhendo uma vida que, mesmo sendo tão conhecida por nós, se fazia assustadora. Tendo em mente os parâmetros ficcionais e fantasiosos vendidos sobre a vida, escolher algo diferente daquilo optado pelo personagem, até hoje parece um distante sonho, uma possibilidade talvez ainda mais improvável inclusive. Por isso mesmo T2 Trainspotting parece funcionar tão bem. Com uma direção de um Danny Boyle mais maduro, e bastante seguro, parecendo adentrar numa nova fase em sua carreira, a produção roteirizada por John Hodge se mostra completamente ciente desse seu status nostálgico, o abraçando como algo relevante para entender esse apego constante às coisas do passado.

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O discurso do “escolha a vida” até se encontra repetido aqui, mas seu posicionamento diz muito sobre o que é essa continuação. Pois, uma vez que toca em temáticas muito mais artificias, de um mundo digital que simultaneamente nos aproxima e distância com a mesma facilidade, sua colocação em determinado momento do filme serve não apenas como uma divergência da obra original, mas como uma reflexão dessa constante necessidade de reinvenção, ainda que completamente falsificada. O peso da escolha já não é mais o mesmo, restando, portanto, a decadência. Situação na qual os personagens que retornam se encontram, até mesmo aquele que parecia ter se afastado do que se reservava para os que um dia chamou de amigos. O ressentimento é algo que também ecoa, de todas as partes, vindouro não só das decisões que culminam no final do primeiro filme, mas na forma como lá moldavam a juventude desses personagens. Há uma certa sobriedade na história, até certo ponto, que faz ressaltar essa abstinência pela qual os personagens passam, uma abstinência que vai muito além da ausência de uma substância no sistema, referindo-se a uma ausência cuja a própria vida nos apresenta.

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T2 Trainspotting é um filme que, a princípio, se apresenta como um reconhecimento simples daquilo que foi feito há duas décadas. Porém, há mais do que se percebe à primeira vista, fazendo com que no todo se sobressaía como um grande filme, inclusive superando deslizes igualmente simples que comete. A exemplo da Veronika de Anjela Nedyalkova, que apesar de ser uma ótima nova adição ao elenco, faz parte de uma resolução muito banal que o filme de Danny Boyle encontra para as coisas. A impressão é de que há uma overdose de confiança na construção da narrativa, culminando num clímax que é um aguardado embate (por uma das partes) e que deixa pouco para resolver o que se segue depois. A expectativa em torno da conclusão é tanta que, não só por parte do público, mas do próprio filme em si, torna-se quase anticlimática. Parcialmente, ela tem a intenção de ser, mas esbarra na falha da construção de algumas tramas, revelando uma certa fragilidade em alguns elementos. Independentemente de se ter melhores escolhas, a aqui realizada, tanto para o final como para o belo filme que Danny Boyle entrega, se abraça uma ideia diferente daquela que se tinha décadas atrás. Se é a conformidade que se faz valer, talvez seja porque a vida mostrou possuir uma faceta menos promissora, qualquer que fosse o rumo tomado.

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