Sexto dia e minha depressão pós festival já começa a se manifestar, principalmente porque ficar quase uma semana longe de tudo e de todos, faz você perder a noção do tempo e…é tão bom. Mas chega de enrolação, pois ainda tem mais três dias de evento propriamente dito.

Nesta quarta-feira em que o frio e a chuva chegam à Gramado, começo os trabalhos com o documentário gaúcho “O Último Poema” e…que coisa mais linda. Recordo-me de ter ouvido sobre a história da professora Helena Maria Balbinot que se correspondeu com Drummond durante anos, porém nunca parei para pesquisar sobre e o documentário, felizmente, não só aborda essa história, como também aprofunda as relações e os sentimentos envolvidos. A diretora Mirela Kruel, já falei dela no terceiro dia na apresentação do lindo curta “Carol”, mais uma vez mostra que tem uma sensibilidade artística, estética e narrativa ao mostrar os objetivos dela como realizadora. Os dois minutos iniciais em que vemos a apresentação de Helena é uma das mais belas cenas que já vi em um documentário.

Longa “O Último Poema”, de Mirela Kruel

Logo após essa maravilha do cinema gaúcho, era hora de adentrar novamente nas exibições competitivas e, como de costume, teríamos dois curtas e dois longas. O primeiro curta “Lembrança do Fim dos Tempos”, de Rafael Câmara narra os momentos de um artista plástico que, no auge de seu trabalho, tem de lidar com a possível perda de visão. É pesado e, claro, o medo de ter o principal instrumento de trabalho prejudicado deixaria qualquer pessoa fora de órbita, entretanto, me incomoda o fato de o curta não entrar no mérito de, mesmo com uma possível deficiência, o artista procure se reinventar, ainda mais quando o tempo todo, nós artistas, defendemos a arte, não importa como ou por quem ela seja feita. Fora isso, esteticamente, o filme é belíssimo.

Curta “Lembranças do Fim dos Tempos”, de Rafael Câmara

Imediatamente após a exibição do curta, veio o primeiro longa que poderia, tranquilamente, não ser exibido. Eu posso ter meus problemas com outras produções apresentadas no Festival, contudo, nada chega (ou chegará) aos pés (espero) de “Campaña Antiargentina”, dirigido por Ale Parysow que, com certeza, não fazia mínima ideia do que estava fazendo. Resumidamente, a história se passa na produção de um documentário sobre uma suposta campanha antiargentina, ligando fatos históricos e supostos fracassos da Argentina a uma seita secreta que quer acabar com o país. Diferente de outras teorias da conspiração que são muito bem embasadas, essa aqui é mais perdida que a montagem do filme. Alternam entre o documentário final, com a produção deste, sem se preocupar com explicar qual é qual. É uma confusão do início ao fim.

Longa “Campaña Antiargentina”, de Ale Parysow

Passado esse fracasso, veio o segundo curta da noite “Memória da Pedra”, de Luciana Lemos o qual se propõe a fazer uma reflexão sobre as cidades de Milagres e Monte Santo cinquenta anos após serem mostradas pelas lentes de Glauber Rocha em o “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. É triste ver que muito pouco mudou e que as pessoas que ali moram não sabem da importância desses filmes. De qualquer forma, o curta, em poucos minutos, consegue dar aquele soco no estômago, tirando o amargo que ficou da projeção anterior.

Curta “Memória da Pedra”, de Luciana Lemos

E, finalizando, veio o longa brasileiro El Mate de Bruno Kott o qual, dentro das possibilidades, se sai muito bem. As inspirações nas trasheiras de Tarantino e Robert Rodrigues são evidentes, tanto pelas situações absurdas quanto pela banalização da morte, logo o clima desses cineastas permeia a fita toda e, claro, humor é o que não falta. No entanto, narrativamente ainda falta muito para Kott chegar perto de Tarantino, visto que o roteiro, em alguns momentos, é deveras confuso, principalmente na apresentação de personagens. A despeito disso, é uma película de ação eficiente na maior parte do tempo.

Longa “El Mate”, de Bruno Kott

Assim termina mais um dia mediano de festival e eu continuo no aguardo de um dia que eu goste de todos os filmes, seria meu sonho?

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Foto de Capa: Edison Vara/Pressphoto

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