Kevin (2021); Direção: Joana Oliveira; Roteiro: Joana Oliveira, Laura Barile; Elenco: Joana Oliveira, Kevin Adweko; Duração: 81 minutos; Gênero: Documentário; Produção: Luana Melgaço, Joana Oliveira; País: Brasil; Distribuição: –; Estreia no Brasil: –;

O alemão Werner Herzog, um dos maiores documentaristas da história, assumiu mais de uma vez que ensaiava algumas situações se elas trouxessem potência ao filme. Não que fosse tudo falácia, mas sim entender e assumir que o ato de filmar tira qualquer valor puro de realidade ali. Uma ideia oposta ao cinema-verdade de Jean Rouch mas que mantinha a não intervenção como um dos seus nortes, chegando até mesmo a exibir o momento em que o diretor tomou um tiro no meio da filmagem de uma entrevista. Em seus melhores momentos, “Kevin” consegue ser essa ilusão de realidade à respeito de um contraste entre recortes da mesma.

Por que o média-metragem de Joana Oliveira, que dirige e é a atriz social aqui, é um filme sobre esse jogo de contradições e polaridades em qualquer aspecto humano. É o futuro nebuloso do hospital em contraste com a busca de uma nostalgia na viagem; o feminino branco e negro; recorte de um Brasil urbano com uma Uganda ruralista. Essa oposição vai se moldando em novas formas de se expor através da imagem que salva o filme de uma monotonia ou até mesmo de um certo prazer com a desgraça alheia. Um filme dirigido sob uma perspectiva de fora do continente africano poderia cair facilmente no lugar comum de olhar com pluma para o panorama, em um complexo de salvador extremamente nocivo.

Existe uma direção muito intuitiva e quase ao ponto de dogmática por parte da diretora. Os momentos de conforto são filmados com uma câmera estática, buscando muito mais uma atmosfera através de fatores externos, como ventos, chuvas e a imprevisibilidade infantil, enquanto qualquer interação com o externo é sempre  brusco, trêmulo, manuseado pela mão. Uma abordagem bem honesta para uma história sobre relações cujo  fatores externos estão sempre impedindo o decorrer das intenções. As conversas das duas sempre expõe os privilégios e diferenças por meio dessa imagem que não busca intervir no que é dito, quase pura.

Por isso que a sequência inicial e o clímax de Joana parece tão desconjuntado, pois são duas cenas com uma lógica narrativa ficcional que entra em contradição com o resto. A cena da filha visitando o pai, apesar de desoladora, possui um aspecto meio choroso como se a qualquer momento uma trilha triste fosse surgir. Ainda mais considerando que é a primeira cena do filme, quando corta para trêmula mão no aeroporto, o filme entra em um recomeço muito inconveniente de ser visto. O final entra mais ou menos na mesma lógica, com uma narração em meio a imagens da cidade, como se a relação de causa e consequência entre a conversa das duas sobre o filho perdido e o áudio tivesse sido algo pensado em pós produção. Dando assim, um tom cínico dessa manipulação Herzogiana às pontas do filme que acabam por afetar a concepção geral do todo.

Surge uma questão de eterna dúvida sobre a autenticidade das cenas, ela paira por todas as conversas importantes sobre privilégios, classe e raça que as duas possuem. Mas também passa a pôr em cheque o sustento emocional do filme inteiro, sobre a legitimidade da viagem enquanto esse refúgio a uma fotografia de tempos mais simples. Enfim, “Kevin” é uma experiência interessante, que não se envergonha de ser cru por essência mas com momentos de intervenção que pouco ajudam.

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