Outcast (1ª Temporada)

(Cinemax, 2016-)

Direção: Adam Wingard, Howard Deutch, Julius Ramsay, Craig Zobel, Tricia Brock, Leigh Janiak, Scott Winant, Loni Peristere

Roteiro: Robert Kirkman, Jeff Vlaming, Chris Black, Robin Veith, Joy Blake, Nathaniel Halpern, Tony Basgallop, Adam Targum

Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Brent Spiner, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman , C.J. Hoff, Melinda McGraw, Grace Zabriskie, Catherine Dent, Lee Tergesen, Scott Porter

Número de Episódios: 10 episódios

Período de Exibição: 03 de Junho de 2016 a 12 de Agosto de 2016

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O texto contém spoilers.

Outcast sequer se aproxima de um apelo ao público similar ao de The Walking Dead, o que é uma grande surpresa. A comparação, ou simples menção da série de um canal concorrente, se dá pelo fato do material em que são baseadas terem o mesmo criador. Em Outcast, no entanto, Robert Kirkman parece utilizar sua influência adquirida nos bastidores, pós-sucesso massivo da primeira série baseada em seus quadrinhos, aqui figurando inclusive como responsável por desenvolver a série para a televisão. Um grande atrativo que a baixa audiência da série mostrou não angariar a atenção de muitos fãs, ainda que tenha em seu âmago semelhanças muito concomitantes com o que se vê na outra série, amada por multidões mundo afora.

Outcast conta a história de Kyle Barnes (Patrick Fugit), um homem cuja vida é marcada desde a infância por estranhos acontecimentos violentos. Carregando o peso da culpa por uma aparente doença que acometeu sua mãe quando ele ainda era só um jovem garoto, acaba vendo algo semelhante ocorrer com sua esposa e filha décadas depois, tendo o afastamento, então, se mostrado a melhor solução. Anos depois, na pequena cidade em que deixou para trás, agora o Reverendo Anderson (Philip Glenister) é uma última esperança num estranho caso envolvendo o filho de uma residente local. Não surpreendentemente, é justamente no ápice desse acontecimento que Kyle retorna para sua antiga casa.

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Assim como em The Walking Dead, aqui temos uma temática de horror que serve de um segundo plano para um drama. Não é sem surpresas, também, que pode se perceber falhas semelhantes entre as duas obras, que por usarem o horror como um pano de fundo, revelam muito da faceta de Robert Kirkman como escritor e roteirista, mesmo na criação dos personagens, no qual um Rick Grimes de Andrew Lincoln se assemelha não só em postura, mas numa ambientação local parecida com a do Kyle Barnes de Patrick Fugit. Os temores que os acometem também são semelhantes, porque são uma ferramenta para utilizar o horror como ele é em sua melhor forma.

Zumbis deixados de lado, em Outcast entram em cena os demônios, numa utilização que concede aos fãs da longeva e completamente irregular Sobrenatural (Supernatural) o que seria ter a série nas mãos de um canal de televisão à cabo. Não é sequer uma referência aos efeitos da série, que em Outcast, quando realmente colocados em prática, deixam a desejar, mas sim ao tempo que a série tem para desenvolver uma trama muito mais competente dentro de uma temporada mais curta com dez inteligentes episódios. Ainda assim, Outcast caminha muito timidamente em terrenos sobrenaturais.

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O que é uma calmaria após a tempestade, afinal o episódio piloto, dirigido por Adam Wingard, passa uma impressão de que veremos muitos eventos sobrenaturais ocorrendo dali em diante. O que logo vemos ser desmentido em um elemento disfuncional da narrativa. É compreensível a dificuldade de Kyle em aceitar aquela nova realidade, mas a maneira como tudo em Outcast varia de um momento para outro, com acontecimentos sendo tão repentinamente conciliados em episódios seguintes, ou então perdoados, quem sabe até esquecidos, causa um grande estranhamento. Falta à própria Outcast um choque de realidade.

Enquanto isso não vem, ficamos fadados ao desconhecimento, cujas respostas são entregues pouco a pouco, deixando-nos geralmente mais com longos diálogos entre os personagens que pouca relação tem com o mote principal da narrativa de Outcast. Nem sempre as conversações são assim, algumas vezes dando lampejos de genialidade e brilhando. São os momentos nos quais o que há de melhor em Outcast fala mais alto, porque quando são diálogos inteligentes e sensitivos, sem exposições desnecessárias, a série se beneficia do ótimo elenco e dos bons personagens que possuí.

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O envolvimento com os personagens é fundamental para Outcast, porque é preciso que nos preocupemos com eles e por eles, não somente como um elemento da parte emocional da série, mas por se tratar daquilo que é o horror funcionando como uma metáfora em Outcast. É por esse motivo que o desfecho do nono e a abertura do décimo episódio são tão incômodas. Quando a Megan de Wrenn Schmidt (The Americans, Person of Interest) é possuída, não é o excesso de sangue na cena e tudo que faz do momento um prato cheio para os fãs do gore que dão esse tom ao que vemos, é o fato de termos uma pessoa com quem nos importamos sendo acometida por um mal súbito.

Quase como uma desvirtuação da personagem, porque não é tanto a violência gráfica que desconcerta o espectador, mas o contexto e a situação em si, que defenestram a segurança e esperança que possuíamos. O maior perigo deixa de ser o desconhecido, se revela um habitante dentro da própria casa, se revela como sendo nós mesmos. É nesse pensamento que temos as maiores virtudes de Outcast, porque são nessas entrelinhas que se destacam o que vemos como as maiores ameaças aos humanos, quer eles tenham algum tipo de fé ou não. Essa disputa moral dá à série suas melhores nuances.

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Seja por envolver o xerife de Reg E. Cathey (House of Cards, Quarteto Fantástico), seja por render um dos maiores questionamentos envolvendo Sidney (Brent Spiner), dando ao personagem uma dualidade impressionante, questionando a índole, dele e nossa, e perguntando se há, realmente, males que vem para o bem. Mas é no monólogo do Reverendo Anderson de Philip Glenister que temos um dos melhores momentos da temporada, quando ele aceita a sua própria índole e reais motivações, numa crença e fanatismo que o cegam em relação a suas próprias ações que, ainda que as consequências em geral não tenham sido ainda exibidas, já deixam claro como Outcast não tem piedade para com seus personagens.

Contudo, precisará ir além para, de fato, confirmar saber ser cruel, desviando dos mesmos medos que estagnaram The Walking Dead e que, já nessa primeira temporada, fizeram de Outcast uma série por vezes monótona. A ambientação, no entanto, precisa inspirar mais a narrativa, que se vê mais envolvente por conta da sinistra trilha sonora e da incrível fotografia da série, que trabalha uma iluminação deveras elaborada, contemplando essa mesma ambiguidade moral da narrativa de uma forma visual, brincando entre a luz e escuridão. Outcast tem potencial para ser uma memorável série, só precisa ter a coragem de enfrentar seus próprios demônios.

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