The Get Down Parte 1 (1ª Temporada)

(Netflix, 2016)

Direção: Baz Luhrmann, Ed Bianchi, Andrew Bernstein, Michael Dinner

Roteiro: Baz Luhrmann, Stephen Adly Guirgis, Seth Zvi Rosenfeld, Sam Bromell, Sinead Daly, Jacqui Rivera, T Cooper, Allison Glock-Cooper, Aaron Rahsaan Thomas

Elenco: Justice Smith, Jaden Smith, Shameik Moore, Herizen F. Guardiola, Skylan Brooks, Tremaine Brown Jr., Yahya Abdul-Mateen II, Jimmy Smits, Giancarlo Esposito, Yolonda Ross, Kevin Corrigan, Lillias White, Stefanée Martin, Shyrley Rodriguez, Mamoudou Athie

Número de Episódios: 6 episódios

Data de Lançamento: 12 de Agosto de 2016

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O texto contém spoilers.

The Get Down possuí uma proposta que parece ser a necessária para que Baz Luhrmann consiga colocar em prática aquilo que seu cinema tem a oferecer de melhor. O problema é que o cinema do diretor, que atingiu um contestável pico no início dos anos 2000, parece enfrentar uma decadência desastrosa, como muito bem vista no infeliz O Grande Gatsby (The Great Gatsby), lançado três anos atrás. Este último filme do diretor, no entanto, dava indícios de que aqui poderíamos ver se concretizar algo realmente diferente em um saturado mercado. O que parece se saturar na série são, entretanto, os anseios musicais de Baz Luhrmann.

Em The Get Down, o cenário cultural no sul do Bronx está em ebulição na década de 70, um grito de socorro e luta em meio a crescente criminalidade, resultado do desleixo do governo embasado em preconceitos. Numa juventude que se vê numa complicada encruzilhada em relação ao futuro, surge Ezekiel “Zeke” Figuero (Justice Smith) um inteligente garoto que perdeu os pais e, agora morando com os tios, tem o sonho de deixar sua marca no mundo, levando junto de si sua amada Mylene (Herizen F. Guardiola), a lead singer do coral da igreja que almeja mais futuro do que aquele que seu pai acredita lhe estar reservado.

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Como parte de uma premissa que nos transporta para os anos 70, é preciso falar sobre a recriação da época, até porque o design de produção nos projetos de Baz Luhrmann são, sempre, um dos maiores atrativos. Em The Get Down a coisa ganha camadas ainda mais absurdas, dada a diversidade não só do grupo de amigos que acompanhamos, mas pelo perfil da comunidade que habitava o sul do Bronx nos idos dos anos 70. Ainda que agrade em muitos momentos, ainda mais quando casa perfeitamente com a linguagem visual da série, a tendência a se aproximar de uma linha artística mais rococó, ou com quês de kitsch, desconstrói o trabalho.

Pode-se resumir a estética do design de produção e como o excesso prejudica o restante baseando-se em uma convoluta cena da série. Na única cena em que vemos o Pastor Ramon Cruz de Giancarlo Esposito pregar em sua igreja, temos um momento de êxtase que contagia não só a todos ali dentro como, com movimentos de câmera e cortes frenéticos, tenta nos envolver no momento, que culmina com “o milagre da voz de Mylene”. Ainda que sirva a determinado propósito, o excesso não só estereotipa e rebaixa uma crença, porém entrega uma cena que exalta os problemas de The Get Down.

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O exagero é praticamente uma marca registrada de Baz Luhrmann, o que se evidencia ao longo de todo um irregular primeiro episódio, até por conta da necessidade de nos adequarmos a proposta da série. O que é facilitado no episódio seguinte, quando Ed Bianchi parece reduzir os exageros, alinhando um pouco mais a diversidade de personagens, elementos e tramas presentes na série. O que faz The Get Down sofrer são, no entanto, as escolhas feitas inicialmente por Baz Luhrmann, que resultam numa verborragia que, se não cansa, dá um tom novelístico à série.

O que faz The Get Down destoar disso, e torna em momentos a verborragia bem-vinda, é justamente o que caracteriza o título da série. Os momentos que abraçam a faceta de musical, e a utilização da trilha sonora em episódios subsequentes, são tão contagiantes que quase se mostram capazes de absolver os deslizes restantes da série. Isso acontece porque a maneira como a música se torna contagiante diz respeito não somente a boas músicas, mas músicas que conversam com a trama e, nas palavras cravadas pelo personagem de Justice Smith, trazem uma consciência e reflexão sobre a condição momentânea que é chave para The Get Down.

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Um elemento mais funcional do que em Vinyl, que se passa praticamente na mesma época, mas de um ponto de vista completamente divergente. Porém, há similaridades nos erros das tramas de ambas as séries. Um dos mais gritantes são as mortes nas quais os personagens principais de ambas as séries se envolvem. O envolvimento do personagem de Justice Smith é mais plausível, mas quando chegamos ao Shaolin Fantastic de Shameik Moore é uma daquelas tramas constrangedoras, porque se faz desnecessária ao encaminhar um bom e carismático personagem/ator para um caminho que só pode ser assumido quando subvertida toda a moral de construir uma juventude mais promissora.

Quando as diferentes tramas se encontram, vemos em risco toda uma razoável narrativa. O que deixa de lado, inclusive, outras tramas igualmente interessantes e aparentemente mais atrativas de se explorar, mas que acabam de certa forma à deriva, como os grafites do personagem de Jaden Smith que, apesar de convergir numa das tramas principais, funciona muito mais como uma ferramenta convencional para os roteiristas, do que o caminho correto para o personagem, cuja trama deixa a dúvida se tem medo ou falha intencionalmente em explorar a homossexualidade do mesmo. Ainda mais quando se constrói quase que um universo paralelo que é deslumbrante não só ao personagem que o visita pela primeira vez.

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É pela primeira vez, também, que Baz Luhrmann parece estar visitando o Bronx. Não só pela falta de tato na construção da condição social, que falha ao tentar envolver a parte política, mas também por seu maior deslize, ao fazer uma leitura do todo tão superficial quanto a que o diretor/roteirista fez da obra-prima de F. Scott Fitzgerald em sua adaptação. O piloto de Baz Luhrmann parece tão deslumbrado com o que vê que se esquece que precisa, por si só, deslumbrar também. Somente jogar elementos diversos numa narrativa não quer dizer respeito a eles.

Assim, o que falta a The Get Down é mergulhar ao todo em sua proposta, em abraçar sua estética, seja ela kitsch ou rococó, como bem quiser rotulá-la. Precisa construir seus inverossímeis cenários digitais com personagens que sejam capazes de realmente habitá-los, afinal, o núcleo jovem da série, suas vozes e seus ritmos musicais são a alma de The Get Down, mas eles são demasiadamente reais para habitar o mundo idílico de Baz Luhrmann. É necessário focar naquilo que funciona de melhor na série, deixar de lado os exageros que não se fazem necessários e, então, finalmente ter o caminho livre para se tornar a voz de uma geração, como tanto quer.

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