O Quarto de Jack (Room, 2015); Direção: Lenny Abrahamson; Roteiro: Emma Donoghue; Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sam Bridgers, Joan Allen, William H. Macy; Produção: Ed Guiney e David Gross; Estreia Mundial: 4 de Setembro de 2015 (Telluride Film Festival); Estreia Nacional: 18 de Fevereiro de 2016; Gênero: Drama; Duração: 118 minutos; Classificação Indicativa: 14 anos;

Quarto de Jack 02

Para melhor analisar “O Quarto de Jack“, dividirei a crítica em duas partes as quais correspondem a forma como a produção também se apresenta: uma dentro do quarto, outra fora do quarto (e sim isso está no trailer, então não é surpresa alguma). Bom, vamos lá

Parte 1 – De Dentro Para Fora

Fui puro para a sessão: não vi trailer e sabia vagamente a sinopse. Então foi uma grata surpresa quando, durante a projeção, começo a observar elementos filosóficos remetendo, quase que explicitamente, à Platão, mais especificamente, à sua Parábola da Caverna (caso não conheça, aqui vai o link do texto – é curtinho e bem tranquilo de ler). Bem superficialmente, esse mito narra uma situação hipotética de seres humanos que, basicamente, estão, desde sua infância, presos em uma caverna na qual só conseguem contato com o mundo externo através das sombras de quem passa pela fogueira desse covil. Em o Quarto de Jack, temos a história de Jack (Jacob Tremblay), um menino de  cinco anos, que, desde o seu nascimento, nunca teve contato com o mundo externo, aliás, seu conhecimento de “mundo” é apenas o quarto em que é mantido em cativeiro com sua Mãe (Brie Larson). Ele, é claro, não tem noção da situação pela qual está passando, aliás, enxerga o sequestrador, apelidado de velho Nick (Sean Bridgers), como uma figura boa que lhe traz presentes aos domingos.

Assim, com uma breve reflexão, chegamos à conclusão que tanto no caso do conto, quanto no de Jack a visão de mundo das pessoas envolvidas fica limitada a um lugar e ao seu entorno. Então, não é à toa que o protagonista da fita dê bom dia a objetos inanimados, chame seu quarto de “O Quarto”, pois, para ele, aquilo é a única verdade que têm. O que está além do local, só existe na imaginação e na TV, tanto que duvida da existência, por exemplo, de um cachorro e inclusive da de outros seres humanos. O mais incrível é que começamos a perceber a subsistência dele com isso. Por mais que tenha curiosidade de saber o que há lá fora, não há uma necessidade imediata, visto que está bem com o que lhe foi posto. Aí entramos na questão já abordada maestralmente pelos Waschovski no filme Matrix e em diversas outras produções: aparência x realidade. Até que ponto a primeira, baseada, segundo Platão, apenas nas coisas sensíveis, consegue influir na segunda que, por sua vez, está nas ideias, naquilo que seria real e verdadeiro. Ou melhor, há alguma que esteja mais certa que a outra? Não necessariamente, tendo em vista experimentos mentais como o Cérebro Numa Cuba de Putnam, por exemplo (se você viu Matrix, sabe do que estou falando).

Mas, voltando ao filme, pois quero deixar as reflexões para vocês. Sem dúvida, a película depende de seus personagens – principalmente na primeira parte, em que o diretor Lenny Abrahamson (de Frank), inteligentemente, usa e abusa de planos fechados e, também subjetivos -, e Brie Larson e Jacob Tremblay são essenciais para que a relação com o espectador aconteça. A atriz consegue nos fazer acreditar no peso que carrega: aguentando toda a situação pela qual passa e tentando esconder isso do filho; incentivando, de certa forma, a criação de uma realidade paralela por Jack, de modo que ele possa lidar melhor com o fato de estar em um quarto fechado. Já o ator mirim faz exatamente o contraposto da mãe. Se ela já perdera a inocência e buscava sobrevivência, ele busca viver intensamente aquele quarto, uma vez que, como já frisei antes, aquele local é o que ele conhece e Tremblay entrega uma atuação monstruosa – inclusive considero uma injustiça ele não estar indicado a nenhuma categoria do Oscar.

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Seguindo o Conto da Caverna, em certo momento, os prisioneiros são libertados e consequentemente passam a ter de lidar com objetos (vivos ou não) que, antes, apenas lhe apareciam sob forma de sombras. O mesmo acontece em O Quarto de Jack, com Jack, que, depois de uma manobra da Mãe, consegue fugir do quarto e avisar da localização do cativeiro. Portanto, a ignorância dele em relação ao mundo externo começa a desaparecer e entramos em uma nova fase da vida do garoto e, consequentemente, ao segundo ato do filme. Se antes havia aquela urgência da Mãe de tentar fugir, agora é preciso voltar a realidade, ou melhor, apresentá-la para Jack e, também, para a progenitora que, aparentemente, havia esquecido como era ser livre. Mais uma vez, a produção acerta em cheio na forma como retrata essa adaptação: Jack inicialmente só consegue falar com a mãe, já que tem medo dos outros; ele não compreende o conceito de uma escada, então precisa de ajuda para subi-la; ele precisa de óculos de sol, posto que a luz ainda é muito forte; e assim por diante. São situações tão banais para quem nasceu livre que, de fato, há um estranhamento causado e, por conseguinte, uma reflexão por parte do espectador.

Jack agora está na sociedade, no mundo externo: de uma hora para outra ele tem de lidar com uma infinidade de conceitos e conhecimentos. E se o personagem encontra dificuldades para se adaptar a essa nova realidade, o mesmo acontece com o roteiro. Concordo que é bastante complicado sair do foco de dois personagens e apresentar outros, porém, a partir do momento que se tem por ambição, com uma hora de filme, introduzir a família da Mãe (ou seja, novos elementos) e o que aconteceu nestes sete anos, é necessário, pausar um pouco o ritmo e fazer o que deve ser feito. E aqui começam os problemas, já que a fita tenta abordar tudo: separação dos pais, preconceito com Jack por ser filho do sequestrador, adaptação, pressão e ganância da mídia. Enfim, não preciso nem dizer que tudo fica superficial e, simplesmente, parece que estamos assistindo a outro filme. No entanto, isso é um problema que não estraga a experiência, primeiro porque ainda estamos muito conectados ao que vimos no primeiro ato e, segundo, porquanto essa superficialidade pode ser encaixada ao modo como Jack está tendo o seu contato com o “novo mundo”. Mesmo assim, não posso deixar de reconhecer que isso pode vir a incomodar algumas pessoas e, com efeito, essas questões poderiam ser mais aprofundadas.

De qualquer forma, acho interessante que, contrariando as expectativas, Jack consegue se adaptar muito mais facilmente que sua mãe. Enquanto ele, agora, lida com o externo, ela tem de lidar com o seu interno também. Em sete anos, muita coisa mudou: houve a separação dos seus pais; as “amigas” de colégio não aparecem para ajudar; abruptamente sua adolescência foi roubada e a vida adulta foi imposta – e claro que isso causa um trauma, agravado ainda mais pela “arrogância” da protagonista em não aceitar ajuda psicológica. Por outro lado, Jack vai passando por uma evolução, ele vai se adaptando com sucesso ao ponto de que, quando ele volta para o Quarto pela última vez, ele pergunta se o local encolheu (e também temos essa impressão graças ao fato do diretor ter usado na primeira metade da película lentes teleobjetivas, que distorcem o tamanho do cenário, dando a impressão de que é maior do que realmente é). Esse diálogo acaba sendo uma alegoria ao crescimento da sua visão: o que antes era o seu mundo, agora é apenas um quarto e não mais O Quarto.

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Com efeito, O Quarto de Jack já garante o seu lugar dentre os melhores do ano seja pelas referências filosóficas que apresenta, seja pelas atuações ou pela história envolvente. É bom quando um longa consegue, em poucas horas, me fazer refletir sobre o que achamos que é verdade ou sobre a demasiada importância que damos, às vezes, para o real ou até para imaginário com base em um senso comum, quando o que realmente importa, é que cada um possa viver de forma intensa a sua verdade, a sua realidade.

O Quarto de Jack – TRAILER LEGENDADO

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