Prosseguindo a cobertura ao quinto Olhar de Cinema, tive a oportunidade de entrevistar o jovem cineasta João Paulo Miranda Maria, diretor do curta “A Moça que Dançou com o Diabo”, premiado recentemente no Festival de Cannes com a menção honrosa. Em nossa entrevista, falamos sobre a polêmica entorno do filme, que foi usado para atacar por conservadores como forma de atacar a Lei Rouanet, além sobre o momento crítico que o país vive e seus próximos projetos como cineasta.

  1. Da onde partiu a ideia inicial para o curta?

 

Tudo surgiu a partir de uma lenda popular que tem o mesmo nome do filme, “A Moça Que Dançou com o Diabo”, que é uma história que contavam para assustar as crianças, onde uma menina de uma família muito religiosa que queria muito ir num baile, que é justamente numa sexta feira santa, e os pais a proíbem de ir e ela acaba indo mesmo contra a vontade deles. Conforme o baile vai acontecendo, surgiu um forasteiro que dançou com ela a noite toda e quando dá meia-noite, esse forasteiro tirou o chapéu e se revelou como um diabo, levando ela embora para o inferno. Essa história é famosa aonde moro, em Rio Claro, interior de São Paulo, as pessoas discutem se isso é verídico ou não e foi algo que me marcou desde a infância.

Foi uma história que eu havia escrito na adolescência e quando eu entrei no curso de cinema, acabei transformando em roteiro, porém ficou engavetado por algum tempo. Quando voltei do Festival de Cannes ano passado, estávamos em busca de um projeto, tentando algum tipo de apoio, quando lembrei que havia esse roteiro guardado. Ainda que essa lenda tenha servido como base, uma parte da inspiração vem mesmo do meu dia-a-dia. No mesmo quarteirão aonde moro tem em torno de 4 igrejas evangélicas, então é normal escutar o som dos cultos e bandas gospels tocando a noite toda. Parte de uma observação diária sobre a rotina daquelas pessoas e uma vontade de adaptar essa lenda para os dias de hoje. O desafio de realizar esse curta foi conseguir mesmo trazer um ponto de vista original e atual.

 

  1. Como você percebe esse conservadorismo avançando na sociedade brasileira?

 

Eu vejo como um momento perigoso, porque percebo que o meu filme antes de falar sobre um conservadorismo religioso, abrange uma ideia de conservadorismo de modo geral, principalmente no interior. As pessoas acabam tendo uma visão muito mais tradicionalista, principalmente quando a gente fala em arte. Por exemplo, eu tenho interesse em abordar um universo suposto “feio”, “sujo”, que as pessoas colocariam isso de modo pejorativo, que as pessoas falam muito que é o caipira, então aquela coisa que era considerada marginal, pra mim é o que mais interessa como filme, como personagem, como locação e história. Eu sempre tive um interesse maior por coisas simples, que as pessoas pareciam não dar muito atenção. Então de certa forma eu já fiquei muito rotulado na minha própria cidade, as pessoas viam que eu falava das coisas que eles ignoravam e viam de uma maneira suja. Pra eles, a arte seria aquela coisa mais acadêmica, higienizada e convencional. E eu procurei sempre o contrário.

Porém num primeiro momento, ainda mais em São Paulo, que já é um estado muito conservador, eu vejo que há uma forte pressão, ainda mais numa situação política crítica como a de agora, existe um conservadorismo cada vez mais crescente, há a necessidade de se criar uma certa cultura de resistência, uma arte que não seja somente mercadológica. Ou seja, fazer uma arte autoral, de caráter independente, de falar sobre questões muito mais reflexivas do que fazer algo que simplesmente dê lucro. Então, agora há um momento perigoso, aonde as pessoas estão querendo criar uma certa meritocracia aonde vale mais o retorno financeiro do que um retorno de âmbito social e artístico.

Então eu vejo que é um momento muito crítico, aonde ganha força, principalmente no âmbito político, um conservadorismo que vai chegando cada vez mais ao poder. Eu tenho muito receio sobre o amanha, eu achava que essa crítica que eu estava fazendo no meu filme, por exemplo, era uma coisa muito mais antiga e que era uma coisa muito mais do interior, porém acabou se mostrando uma coisa mais ampla. o filme acabou servindo como uma luva sobre a situação atual.

 

  1. O filme foi bem recebido na sua cidade?

 

O filme ainda não foi exibido na minha cidade. Nós vamos passar no final desse mês, porque se comemora o aniversário de Rio Claro e vai ter uma exibição durante as festividades. E eu acho que vai ter uma grande repercussão.

 

  1. Você sente um receio da sociedade da sua cidade mostrar uma certa aversão ao filme?

 

Eu acho que não tanto. Com certeza eles vão sentir como uma certa estocada, um soco no estômago, mas de certa forma eu gosto disso e eles de alguma forma vão ter que engolir, digamos, o que a gente tá fazendo. Antes as pessoas não entendiam, não davam valor, mas agora, desde a primeira vez que fui selecionado para Cannes, quando estreei meu filme anterior, o Command Action. Quando estreou no shopping center da cidade, foram mais de 600 pessoas assistir a sessão. Nós tivemos que fazer três sessões pra atender todo esse público. E todo mundo foi, mesmo sendo um filme bem provocador. Agora com a Moça eu acho que vai ser igual, tem muita gente querendo ver.

 

  1. Alguém da cidade já te criticou diretamente pelos filmes?

 

Ahh, acontece. Muita gente crítica, desde o momento das filmagens. Quando eu falo que vou filmar num bairro mais simples, mostrar pessoas que supostamente não se encaixam num padrão normativo, as pessoas já olham torto. Até gente da prefeitura da cidade vem falar pra mim: “ahh, mas você poderia estar gravando a apresentação do coral, uma coisa mais bonita, uma orquestra, e não ir lá gravar um feirinha num lugar sujo e feio”. Então eu já cheguei a ver uma conotação negativa desde o momento das gravações. Eu vejo até por parte da Secretária da Cultura, eu vejo que isso é uma coisa complicada, até mesmo uma certa ignorância, não chego a ver como algo tão maldoso, mas uma ignorância mesmo. E isso eu sempre digo e repito, eles não têm muita consciência do que eu tô fazendo, eles apenas sabem que isso está sendo muito bom, que está tendo repercussão e que o mundo inteiro tá falando bem, então eles acabam tendo que engolir.

 

  1. Você pretende ficar em São Paulo ou pretende expandir, filmar em outros lugares, ou tem essa preferência em ser um diretor regionalista?

 

Então, meus filmes acabam sim sendo gravados no interior, mas a ideia é ser algo muito mais universal, que não soe de uma maneira tão regionalista. Mas no meu longa metragem que estou fazendo, por exemplo, eu quero ir mais para o interior do Brasil. Que uma coisa é o interior de São Paulo, outra coisa seria o interior de outros estados, como Mato Grosso, Goiás, que é até justamente o Estado que eu vou estar filmando o longa. E também em Santa Catarina. Então eu quero estar gravando nesses outros lugares e em cidades do interior, porque é um universo que eu mais me identifico.

 

  1. Esse longa vai ser lançado no próximo ano?

 

Então, estamos conversando com produtoras e distribuidoras para fazer as parcerias ideais para que esse filme realmente tenha uma visibilidade.

A ideia é filmar ele no próximo ano, mais ou menos em Julho e Agosto de 2017 e lançá-lo em 2018.

 

  1. Não te irritou o fato do filme ter se popularizado mais pela ideia do seu financiamento independente? Quando da premiação do curta no Festival de Cannes, o filme foi usado como bode expiatório em correntes em redes sociais para atacar a Lei Rouanet.

 

Exatamente! Eu vi algo muito negativo, tanto que acabei escrevendo uma postagem mais oficial no Facebook para tentar de alguma maneira fazer as pessoas entenderem. Porque eu comecei a ver que pessoas até muito conservadoras da minha própria cidade e da região, não só elas, mas o Brasil todo, as pessoas que não gostaram, por exemplo, que a equipe do filme Aquarius ter feito toda aquela manifestação, da qual eu concordo, e até nas entrevistas da minha participação em Cannes, eu sempre ressaltei essa questão que eu realmente concordo com a equipe do filme do Kleber (Mendonça Filho). Faço questão de dizer isso. Só que as pessoas começaram a usar o nosso nome como um modo de atacar que o outro filme foi feito com a lei de incentivo, custou milhões, e o meu filme ter sido feito com apenas 500 reais arrecadados com rifa e chegou a ser premiado. Mas isso não significa motivo algum pra desprezar um filme como Aquarius, que é um filme genial. Eu conheço e admiro muito o trabalho do Kleber, vejo ele como inspiração, pra mim é um dos maiores diretores que a gente tem no Brasil. De certa forma eu acho que depois da minha retratação, não senti necessidade de ficar alimentando essas correntes, o que seria bem pior. Eu fiquei muito sem graça com essa situação, mas eu vejo que todos as pessoas do cinema que me conhecem, com quem já conversei, sabem que não foi uma coisa que eu impulsionei. As pessoas começaram a usar a imagem do nosso filme e fazer uma publicidade negativa e conservadora. E ficou muito chato, até porque o próprio Ministério da Cultura também elogiou o feito da premiação, divulgou que o nosso filme foi selecionado e premiado em Cannes. Ou seja, aí as pessoas começam a querer atingir o Ministério da Cultura, atingir, por exemplo, a questão da Lei Rouanet, tanto que eu já no filme anterior, tentei usar a Lei Rouanet, mas o problema com a lei não é a aprovação. Quem escolhe pra onde vai o dinheiro são as empresas. São essas empresas que preferem dar o dinheiro pra um músico famoso do que um filme independente. Então não sou eu que escolho, também nem o governo. O governo dá um aval pra você fazer a captação do recurso, só que você acaba disputando junto de outros. Eu acho que, de certa forma, o que poderia mudar e melhorar é muito mais essa relação com as empresas. Eu acho que não deveria o artista ter que se submeter aos gostos e caprichos do empresário, sendo que o dinheiro que vai ser usado é um dinheiro de imposto, ou seja, dinheiro público. E ele tá querendo fazer como uma troca de favores, querendo tirar proveitos pessoais e privados. Isso que eu acho que é errado com a Lei Rouanet. Isso que eu acho que deveria ser repensado. e vejo que até o governo que estava antes, estava se pensando isso com o Sistema Nacional de Cultura, criando fundos de cultura aonde boa parte desse dinheiro não iria ficar apenas na mão de empresários. Iria entrar nos fundos e esses fundos teriam fóruns e conselhos de nível municipal, estadual e federal pra escolher o destino desse dinheiro. Seria uma forma mais eficaz de democratizar esse dinheiro, sem ter que estar fazendo favores a empresários e marketing dessas empresas.

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