Crítica | House of Cards – 5ª Temporada

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“Eles são o que a América queria ser, vocês são o que ela é”, essa frase proferida na temporada anterior de House of Cards sintetiza muito a América como um todo, referente ao casal Underwood ser exatamente o que o povo americano é em detrimento do que gostaria de ser – uma figura padrão de retidão moral. Associar uma figura maquiavélica como Frank Underwood (Kevin Spacey) à uma população inteira podia parecer exagerado, porém após esse povo ter elegido uma figura como Donald Trump para presidência soa cada vez mais atual. Underwood é a América escrachada e escancarada, nua e crua, doa a quem doer.

House of Cards foi um dos primeiros sucessos da Netflix, foi um marco por ter sedimentado o streaming como uma desenvolvedora de conteúdo original ao em vez de mera reprodutora. Não por acaso é um dos maiores sucessos no que tende as séries americanas hoje em dia. Um dos trunfos foi justamente tornar palpável uma temática difícil como a política, onde a maioria das pessoas prefere se afastar, gerando certa aproximação do espectador ao tema. Esse acerto se deve aos seus personagens bem delineados e de fácil identificação, gerando um certo constrangimento. Como podemos “torcer” para uma figura tão controversa como Frank Underwood? Justamente por sermos que nem ele, em maior ou menor grau. Essa é uma constatação que a série veio desenvolvendo ao longo dos anos, nesse quinto coloca em xeque ao se deparar com um Frank, aparentemente, frágil diante de uma situação política cada vez mais conturbada.

(Divulgação: David Giesbrecht / Netflix)

Embora a fragilidade de Underwood nos incomode, ela é preenchida com a ascensão de sua esposa Claire, que se depara com os rumos ao poder, porém se conflita com sua própria humanidade. Vale mesmo tudo pelo poder? Se a resposta for sim, Claire completa seu ciclo e se torna exatamente igual ao marido, enfim uma Underwood legítima.

Apesar das perguntas expostas ao público serem respondidas no decorrer desse quinto ano, House of Cards propõe um confronto com seu espectador, querendo que este responda para si os dilemas morais aos quais seus personagens vivem. Diante disso, dá para dizer que nunca antes uma temporada foi menos sobre Frank Underwood, ao mesmo tempo que foi totalmente sobre ele. É um paradoxo no qual se entende nos três episódios finais, o clímax da temporada.

O problema do quinto ano foi deixar o clímax pros episódios finais, muitos enredos e problematizações ao longo da série soaram forçados e desnecessários. Notoriamente a mudança de showrunner evidenciou um rebaixamento no texto, não conseguindo preencher treze capítulos de quase uma hora de duração cada. Um recurso necessário teria sido menos capítulos, com duração média de quarenta e cinco minutos, uma boa solução para evitar uma barriga na trama.

(Divulgação: David Giesbrecht / Netflix)

Um ponto notório do poderoso texto das últimas temporadas ter sido diminuído nessa temporada foi a tentativa de adotar um moralismo na narrativa, tentando mostrar que “os maus são punidos no final” ou mesmo a velha narrativa que “a verdade sempre aparece por mais demorado que seja”, pensamentos inocentes, quase românticos, sobretudo ao se tratar do mundo político onde os maus feitos são predominantes e, quando punidos, não tem efeito prático. Outro ponto perturbador é a exaltação do núcleo da mídia investigativa, tentando mostrar como a mídia tem papel fundamental na preservação de uma moral e ética –sério?! Tal núcleo deveria ter ganhado papel secundário após a saída de Zoe Barnes (Kate Mara), sua permanência gera um contraponto totalmente hipócrita aos Underwoods.

Um dos pontos altos da temporada foi a quebra dos ideais, a frase na qual início esse texto se refere ao casal Conway, candidatos republicanos à presidência dos EUA em comparação com os Underwood. Eles demonstraram não ser aquilo que aparentam, com uma quebra de paradigma, referindo que até mesmo os mais polidos detém seus telhados de vidro.

[A partir daqui o texto terá spoiler’s sobre a trama]

Outro ponto interessante foi como Claire Underwood tomou um protagonismo multidimensional, seus desenvolvimento como personagem está no auge ao nos depararmos com uma mulher em conflito constante ao se deparar com qual decisão deve tomar quanto sua vida. Em um momento chave ela opta escolher o poder à humanidade, o fazendo com uma frieza ímpar. Frank ficaria orgulhoso. Claire opta, principalmente, por não ser uma figura preparada pelos outros, seja pelo seu marido ou por seu amante, ela quer ser uma figura própria, por consequência que possa controlar os outros.

(Divulgação: David Giesbrecht / Netflix)

A entrada de dois personagens ambíguos aumenta a tensão e o argumento que a América é sim composta por vários Underwoods. Trata-se dos consultores implacáveis Jane Davis (Patrícia Clarkson) e Mark Usher (Campbell Scott). A entrada deles reflete pela primeira vez que o Poder, o real, está à margem do Poder Institucional representado pela figura de presidente e pela Casa Branca. As reais decisões são tomadas sim por grupo de poderosos, empresários, banqueiros, petrolíferas etc. Pode soar como uma teoria da conspiração e um grave enfraquecimento aos poderes institucionais eleitos pelo voto livre e popular, contudo é só nos depararmos com as notícias recentes no âmbito nacional quando temos as principais empresas e empreiteiras pautando agendas nacionais e influenciando nos três poderes da república.

O desfecho desse quinto ano deixa mais pontas abertas do que o do quarto – para mim o desfecho que a série merecia. Nessas últimas semanas a Netflix vem anunciando a pretensão de cancelar séries originais, como fez recentemente com Sense8 e Get Down, portando não me surpreenderia se o mesmo acontecesse com House of Cards, visto não ter tido a mesma receptividade que suas últimas temporadas. Ao meu ver, o final sintetiza que Claire se livrou da sombra de seu marido, sendo exatamente como ele. Sua ascensão meteórica como primeira presidenta do país, com direito ao emblemático momento final expondo “Minha vez”, deixa claro que ela está disposta a fazer tudo para se perpetuar no poder. Porém seu único inimigo possível seria justamente outro Underwood… Ou seja, apenas um Underwood pode derrotar outro Underwood, um caminho ao qual a série deve caminhar num eventual sexto ano, porém com os problemas de ritmo que este ano teve, é notório como mais 13 episódios causariam maior rebaixamento do texto e consequentemente um desgaste que poderia diminuir a série como um todo.

[Os spoiler’s acabaram aqui em diante]

House of Cards continua sendo uma série cada vez mais atual quando nos deparamos com o noticiário local e internacional. Contudo, só essa ordem de comparação não pode sustentar uma série, tão pouco ter personagens tão eletrizantes e episódios finais grandiosos. A impressão que se dá é a inexistência de um plot que sustente de fato uma temporada, não por acaso o Showrunner original queria terminar na quarta temporada.

Se o triunfo é o casal Underwood causar tanta empatia – de novo a controversa –  e permitir o público se por dentro dos dilemas expostos, o defeito principal é a ausência de um dilema mais complexo, confrontador ao espectador, como foi feito ao longo dos anos. É difícil uma série ao atingir seus momentos de ápice continuar se superando, sobretudo ao demonstrar a farsa do sistema político representativo e da democracia ocidental. Entretanto, particularmente, senti uma falta de algo a mais que elevasse o argumento num novo patamar.

(Divulgação: David Giesbrecht / Netflix)

Se o texto diminuiu junto com o argumento, a direção continuou impecável ao lado das atuações soberbas de Kevin Spacey e Robin Wright, ambos são titãs no que fazem e defendem com tamanha maestria seus personagens, com destaque para Robin que ainda dirige os dois melhores episódios desse quinto ano.

Não sei o que vai acontecer com a série de agora em diante, se haverá mais temporadas ou não, porém a realidade é que a nação Underwood é, mais do que nunca, uma verdade. Uma constatação controversa, ao torcemos pelo casal na série tentamos abstrair das figuras horrendas que supostamente nós representam. Mas estão lá por serem exatamente como nós.

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