[sg_popup id=”9″ event=”onload”][/sg_popup]Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017); Direção: Martin McDonagh; Roteiro: Martin McDonagh; Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Samara Weaving; Duração: 115 minutos; Gênero: Drama, Comédia; Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh; País: Reino Unido, Estados Unidos; Distribuição: Fox Film do Brasil; Estreia no Brasil: 15 de Fevereiro de 2018;

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Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Misouri) era o aguardado retorno de Martin McDonagh ao cinema, empreitada que já havia acontecido duas vezes até então para o dramaturgo, lhe rendendo uma indicação ao Oscar por seu roteiro de estreia, com “Na Mira do Chefe” (In Bruges), e uma ligeira decepção com o abarrotado “Sete Psicopatas e um Shih Tzu” (Seven Psycopaths). Esta última uma obra aonde o próprio autor se inseria como um dos personagens, pairando por fim a dúvida: O que víamos ali representava o processo de concepção e escrita deste próprio filme? Aparentemente, sim, era essa a realidade, fora, obviamente, a overdose de reais psicopatas.

Contudo, o que parecia um ponto fora da curva para uma vez um promissor cineasta, tenta se afirmar em seu terceiro filme como uma constante. Tanto que algumas semelhanças do que incomodavam no filme anterior se repetem aqui ainda que com maior sutileza. Aliás, é bastante interessante assistir aos dois filmes em sequência, se possível, para se perceber como conversam entre si. Principalmente o fato deste terceiro filme de McDonagh ter como protagonista uma figura falha em sua filmografia até então. Porque o próprio, em seu filme anterior, escancaradamente admite não saber escrever papéis femininos de qualidade. O que vemos aqui, portanto, parece até uma tentativa de provar algo a si próprio.

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Até na temática McDonagh se arrisca por completo, ou é o que Três Anúncios Para Um Crime inicialmente aparenta. Afinal, é um filme que apresenta tópicos que vêm gerando acaloradas discussões, principalmente nos Estados Unidos, não só com o conturbado momento que vive Hollywood, onde a voz das mulheres contra os assédios daqueles em posição de poder se tornam recorrentes, como também das questões raciais e xenofóbicas. Todos elementos que se veem potencializados quando o próprio presidente dos Estados Unidos não se preocupa com a disseminação, fazendo com que o ódio flua pela sociedade, exaltando os ânimos e causando rachas ideológicos.

A maior representação dessa faceta norte-americana inflada de preconceitos se dá no personagem de Sam Rockwell. Inclusive seu policial Dixon tem no próprio filme um momento em que seus ânimos estão completamente exaltados, resultando numa sequência visualmente intensa que imprime a impunidade da violência policial e o abuso de autoridade. Rockwell se sai bem ao mergulhar no personagem como faz, mas é o personagem quem se faz pivô de polêmica pelo seu racismo e xenofobia, justamente pela forma como parece dar ao mesmo uma espécie de redenção, ao tentar fazer com que simpatizemos com ele como sempre desejou o personagem de Woody Harrelson, o xerife da cidade.

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O Willoughby de Woody Harrelson (Planeta dos Macacos: A Guerra, O Castelo de Vidro) se beneficia muito mais do arco dramático dado ao personagem do que pelo próprio desempenho de Harrelson em si que, apesar de consistente, é insuficiente para o que Três Anúncios Para Um Crime deseja que seja sua importância dentro da narrativa. Por isso também é uma trama mais catártica dentro do filme, por soar tão destoante de todo o restante. Tanto o personagem de Harrelson como o de Abbie Cornish -que com um sotaque incompreensivelmente vergonhoso interpreta a esposa do xerife- parecem viver a parte de tudo aquilo que acontece dentro da cidade. Isentos de opinião e posicionamento no meio de toda a discussão.

Assim, percebemos aqui como existem essas arestas com as quais Martin McDonagh não sabe lidar e, independentemente, insere ainda outras temáticas de maneira convoluta e sem qualquer sensibilidade. Até porque no humor negro o qual ostenta com orgulho o cineasta parece refutar qualquer sensibilidade, encontrando muito mais em comentários desbocados a graça do seu filme. Escrever personagens que não medem suas palavras parece, na percepção do diretor, lhes atribuir alguma espécie de poder, uma determinada autoridade, que supostamente devia os tornar mais fortes. Algo que, no fim das contas, desanda numa ingenuidade que distancia daquilo que a princípio se propunha.

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É ainda mais evidente essa falta de sensibilidade de Martin McDonagh quando temos um flashback da protagonista vivida por Frances McDormand. Sua Mildred Hayes é, sim, uma mulher forte, como o cineasta parecia precisar provar a si mesmo ser capaz de escrever. Resta, no entanto, a incapacidade de dar a atriz um texto a altura de seu desempenho. A insensibilidade se denota neste flashback, onde McDonagh perde a mão ao nos presentear com um diálogo dramaticamente manipulativo, mas que em momento algum quer perder a piada. Só é mais perceptível a forma como destoam atuação de texto quando algo semelhante se repete em um diálogo que se quer ser contemplativo de Frances McDormand com um veado. Ali vemos como a atriz se sobressaí ao texto que lhe é oferecido.

O que se faz mais notável em Três Anúncios Para Um Crime, porém, é justamente a incapacidade de Martin McDonagh em capturar o âmago do momento que quer retratar. Falhando desde sua concepção geográfica -a localidade parece pouco importar dada a artificialidade da cidade- a maneira como lida com suas temáticas. McDonagh quer porque quer debater as questões sócio-políticas, mas todas as vozes aqui ouvidas são as mesmas e, talvez, não à toa o filme tenha medo em dar qualquer protagonismo a alguém que coloque em cheque a ambiguidade da índole que encontramos na obra de Martin McDonagh.

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