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Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Ao ganhar o Oscar de melhor roteiro original por “Bela Vingança” (“Promising Young Woman”), a cineasta Emerald Fennell ganhou um prestígio que é para poucos, mas não foi só tal laureio que deixou grandes expectativas para seus próximos projetos, afinal, goste ou não de seu primeiro longa-metragem, é fato que de alguma maneira era impactante. Entre esse primeiro filme, “Saltburn” que foi lançado direto em streaming, e agora “O Morro dos Ventos Uivantes”, é perceptível que Fennell têm muitas boas ideias, principalmente em se tratando de algumas escolhas estéticas para suas narrativas, contudo, isso não parece se traduzir com o efeito desejado e muito porque subverter a narrativa precisa estar acima de todo o restante para a cineasta. Seu filme anterior deixa bem claro como a necessidade de “chocar” o espectador é essencial para seu cinema, e várias mudanças realizadas na hora de adaptar a obra de Emily Brontë já sinalizam para uma tentativa de estipular isso, e as piores expectativas se confirmam, mas elas são menos sobre as mudanças entre obra original e adaptação e mais sobre como Emerald Fennell se desfaz das características que mais podiam potencializar seu filme e, por fim, a maneira como ela encara seu protagonista até acaba por soar controversa.

É bastante óbvia a escolha por um Heathcliff branco, e especialmente que seja Jacob Elordi (“Priscilla”) o escolhido -espécie de homem do momento-, pela maneira como Emerald Fennell fetichiza o personagem, pois de certa forma a “protege” de determinados questionamentos, ainda que eles possam ser levantados independentemente disso, acaba sendo uma tentativa de fugir de problemas, mas que acabam resultando num esvaziamento da obra e que é piorado pelo tratamento que o personagem recebe da cineasta, que descaracteriza seu tratamento como excluído e rejeitado, transformando-o quase que por completo em um herói e que depois fica até difícil criar qualquer antagonismo de fato palpável. Uma história que a princípio é complexa torna-se extremamente simples nas mãos de Fennell, mas não uma simplicidade construída por adaptar os melhores pontos possíveis de uma obra, e sim por se fazer uma história frágil, recheada de ingenuidades e um humor que é tão subversivo quanto uma piada de quinta série. Alguns elementos podem partir de boas ideias, mas no fim os paralelos são sempre traçados de forma tímida ou até mesmo inócua e, no fim das contas, um filme que se vende tanto em cima da sensualidade termina por ser até pudico porque desperdiça justamente suas contradições para desenvolver um romance regado à água com açúcar.

O Morro dos Ventos Uivantes 02

É quase como se Emerald Fennell perdesse o interesse e abandonasse as ideias das quais partem seu filme para estabelecer um romance no qual ela acredita piamente, assim até certas atitudes dos personagens destoam, como toda a trama que posteriormente envolve a Isabella de Alison Oliver, que parece ser um alvo de pura misoginia no filme, isso partindo da própria Fennell. No caso dela é menos velado porque o filme a transforma numa completa chacota, então é mais perceptível, mas há um desdém pelas personagens femininas que se estende para os papéis de Hong Chau (“Tipos de Gentileza”) e, obviamente, para a Cathy de Margot Robbie (“Barbie”). É muito triste como os personagens se esvaziam de significados e há um pudor de fazê-los confrontar ou até mesmo submetê-los ao que o próprio filme nos exibe ou ao que os expõe. Num cenário lúdico onde um palácio maximalista recheado de absurdos soa mais como um devaneio estético do que uma adição contundente à narrativa, até mesmo as músicas compostas por Charli XCX para o filme são subutilizadas. É uma roupagem moderna para uma história clássica, mas a embalagem não é suficiente, em momento algum, para suprir as lacunas que dão fundamento a um romance que, originalmente, tem toda a controvérsia da qual Fennell tanto é fã, mas que aqui não soube apreciar.

O Morro dos Ventos Uivantes” – Trailer Legendado:

O Morro dos Ventos Uivantes” (“Wuthering Heights”, 2026); Direção: Emerald Fennell; Roteiro: Emerald Fennell; Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Martin Clunes, Ewan Mitchell; Duração: 136 minutos; Gênero: Drama, Romance; Produção: Emerald Fennell, Josey McNamara, Margot Robbie; País: Estados Unidos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia no Brasil: 12 de Fevereiro de 2026;

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