“O Fim da Rua” começa com uma premissa ordinária, com a família à lá comercial de margarina formada pelos personagens de Anne Hathaway (“A Odisseia”) e Ewan McGregor vivendo sua vida aparentemente perfeita num subúrbio perfeito no início dos anos 80. Contudo, cada membro da família têm seus segredos e tem que lidar com seus próprios dilemas, mas, à segunda vista, é perceptível que a família perfeita está em rota de colisão, até que um evento muda toda a vida deles numa questão de instantes. Acredito que tanto a premissa como esse confronto aos quais os personagens obviamente serão submetidos é algo bastante simples, que inclusive já vimos em outros filmes e já conhecemos de cor. Só que David Robert Mitchell transforma seu filme em algo mais, a aparente simplicidade toma contornos que surpreendem, principalmente porque Mitchell não tem pudor na forma como trata seus personagens e, assim, sua narrativa se faz cada mais envolvente e efetiva, me trazendo inclusive a memória o “Jumanji” de Joe Johnston, mas “O Fim da Rua” consegue ser ainda melhor, uma experiência que, apesar de sucinta, se faz completamente visceral. É realmente surpreendente como a cada momento o filme de Mitchell consegue se tornar ainda mais especial.

David Robert Mitchell é o principal responsável por quão bom se faz a experiência com “O Fim da Rua”, porque é na forma que aborda e executa seu filme que torna tudo tão palpável. Desde a maturidade que lida com seus personagens, até ao trabalho de câmera que emprega para estabelecer os sentimentos que deseja no espectador, não só controlando as expectativas, mas subvertendo elas de maneira muito inspirada. Há uma série de referências no filme que remetem a filmes dos anos 80, filmes clássicos, e até mesmo do próprio J.J. Abrams, que assina como produtor aqui. O envolvimento de Abrams aqui, no entanto, não atrapalha em nada a autoria de Mitchell, que constrói “O Fim da Rua” como bem quer e remete aos melhores momentos de sua breve, mas impactante, filmografia. Acredito que aqui ele até se firma como um dos grandes nomes do cinema norte-americano contemporâneo, porque filma como poucos e investiga seus personagens com uma vivacidade imagética que faz falta em boa parte dos enlatados hollywoodianos. É um filme corajoso pelas suas escolhas estéticas e é um filme honesto porque não tenta esconder a ação, seja ela qual for, do espectador. Quando “não pode” mostrar tais ações, usa alguma inventividade para continuar sendo visceral.

Mas tudo isso só tem ainda mais efeito porque o elenco está muito bem em cena, as crianças interpretadas por Maisy Stella e Christian Convery (“O Macaco”) são tratadas até com um certo cinismo que as faz ser além dos típicos filhos bobos; Ewan McGregor traz uma sensibilidade que é desconstruída pela forma sincera com a qual Mitchell trabalha seus personagens; Anne Hathaway, no entanto, é a grande estrela aqui, num ano completamente espetacular esta talvez seja sua melhor atuação entre seus tantos projetos de 2026. Sua personagem sintetiza muito bem tudo que desmistifica a aparente simplicidade de “O Fim da Rua”, com uma figura complexa, com seu drama pessoal em uma crise que se faz sufocante, e quando o inevitável acontece é muito interessante a sua postura, numa voracidade de emoções que é muito bem transmitida por Hathaway, de grandes momentos heroicos, ao desabamento emocional, ela sempre comove, até nos mais singelos momentos, como quando se depara com o que aconteceu ao seu árduo trabalho, momento que provavelmente separa “O Fim da Rua” de um filme qualquer e um filme memorável. A “aventura” que as criaturas jurássicas pautam é uma roupagem, muito bem realizada, de um filme que em seu interior tem muito a mais a dizer, e consegue ser contundente sobre isso.
“O Fim da Rua” – Trailer Legendado:
“O Fim da Rua” (“The End of Oak Street”, 2026); Direção: David Robert Mitchell; Roteiro: David Robert Mitchell; Elenco: Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella, Christian Convery, Jordan Alexa Davis, P.J. Byrne; Duração: 99 minutos; Gênero: Aventura, Drama, Fantasia; Produção: J. J. Abrams, Hannah Minghella, Jon Cohen, David Robert Mitchell, Matt Jackson, Tommy Harper; País: Estados Unidos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia no Brasil: 13 de Agosto de 2026;