Christopher Nolan atingiu um patamar que pouquíssimos cineastas foram capazes, desfrutando de um privilégio que lhe deu a oportunidade de se tornar cada vez mais ambicioso em seus projetos e que, por fim, lhe rendeu o Oscar que tanto almejava, com “Oppenheimer” dominando a premiação no ano em que concorreu. Depois dessa obra mais introvertida, ainda que fosse um drama com proporções épicas, Nolan retorna com um filme cujo significado de épico é intrínseco à obra original. “A Odisseia” parece se fazer, portanto, o trabalho mais ambicioso da carreira do cineasta, que aproveita do seu status para nos levar numa jornada que tenta reconstruir as desventuras de Odisseu numa escala que raramente se tem a possibilidade de vermos realizada no cinema. O resultado faz o investimento valer a pena, e não somente isso, Christopher Nolan está aqui em sua melhor forma, entregando aquele que é, possivelmente, o melhor trabalho de sua carreira, porque não é apenas a escala do que ele constrói aqui que funciona, mas como ele consegue conciliar todo o drama e o sentimento do texto com seus personagens e a jornada na qual os acompanhamos, tornando possível com que tenhamos uma sensibilidade que extravasa toda a grandiloquência para se fazer algo muito singular.

“A Odisseia” é um trabalho árduo e percebe-se isso na riqueza dos cenários pelos quais viajamos através do filme, e quando digo “cenário” me refiro ao conjunto da obra, tudo em cena é de uma beleza que se cria a partir dos mínimos detalhes. O mais importante é que eles não estão apenas de enfeite ali, são elementos que realmente constituem e contam a história junto com o todo, ajudando a estabelecer uma escala de épico que se constrói desde os pormenores. Aliado a isso estão os literais cenários aos quais Nolan e sua equipe nos conduzem, com mais um trabalho espetacular do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema -que faz parceria com o cineasta desde “Interestelar”. Todo esse trabalho faz com que “A Odisseia” se torne uma fantasia com contornos palpáveis, ao mesmo tempo em que tem esse toque de credibilidade, de realidade, lida com o fabuloso de maneira constante e é essa mescla que faz com que o filme tome proporções que ecoam de maneira ainda maior dentro do espectador, porque Christopher Nolan começa a tecer diversos comentários e gerar um debate que reflete muito da sociedade na qual vivemos e em como ela é construída. Há uma humanidade tão graciosa presente aqui, algo que Nolan sempre teve dificuldade em trazer de forma orgânica para seus personagens.

Com isso, “A Odisseia” consegue um baque que ressona muito mais forte que em seus outros filmes, ainda que traga consigo diversas características de seus trabalhos ao longo dos anos. Há um pouco de tudo aqui, e é com a soma desses pequenos detalhes que se estabelece essa força narrativa cujo impacto é certeiro quando as peças vão sendo colocadas no lugar. Dentro de toda essa jornada o que faz com que isso se sobressaia são algumas atuações chave: Anne Hathaway com sua Penelope, que vive um dilema que traz uma complexidade raramente vista para personagens femininas na filmografia de Nolan; Elliot Page e Robert Pattinson complementando dois lados de uma história, na qual Page brilha com um confronto no qual seu talento ofusca qualquer outro em cena; por fim, Zendaya como uma figura mítica que culmina numa construção cênica onde o filme de Nolan se faz arrebatador. Esses são alguns dos principais nomes para o cerne emocional do filme, aquele que dá um toque a mais de profundidade e, obviamente, são muito mais capazes do que Matt Damon e Tom Holland, não à toa são seus momentos que mais se fazem poderosos durante o filme. Himesh Patel também entrega uma boa atuação, como o fiel escudeiro de Odisseu, enquanto Samantha Morton rouba a cena para si numa sequência espetacular de body horror onde até o próprio cinema de Nolan toma contornos pouco conhecidos.
“A Odisseia” tem toda a grandiloquência pela qual Christopher Nolan é reconhecido e cultuado, travestido de um filme palatável para todos os públicos, mas que sinaliza um completo amadurecimento na carreira do cineasta. Não é apenas um épico, é um drama que sabe tirar proveito da riqueza do texto original para ter uma narrativa que não trata apenas de epopeias, mas de sacrifícios mundanos e cotidianos, apresentando uma sensibilidade que contempla também o fracasso civilizatório onde a conquista arruína ambos os lados, destruindo os “derrotados” na mesma escala em que corrompe aqueles que clamam a vitória. Uma reação em cadeia sobre a qual Nolan já nos falava em “Oppenheimer”, e agora só a torna ainda mais pessoal e impactante em “A Odisseia”.
“A Odisseia” – Trailer Legendado:
“A Odisseia” (“The Odyssey”, 2026); Direção: Christopher Nolan; Roteiro: Christopher Nolan; Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Himesh Patel, Lupita Nyong’o, Samantha Morton, Zendaya, Charlize Theron; Duração: 172 minutos; Gênero: Aventura, Drama, Fantasia; Produção: Emma Thomas Christopher Nolan; País: Estados Unidos, Reino Unido; Distribuição: Universal Pictures; Estreia no Brasil: 16 de Julho de 2026;