“Só Por Uma Noite” começa no terceiro ano após o governo dos Estados Unidos ter implementado um sistema biológico que proíbe o sexo pré-marital, ou seja, ou você é casado ou se torna celibatário; com exceção de uma única noite no ano. Nas 12 horas em que os solteiros têm para aproveitar sua oportunidade, Allie (Monica Barbaro) e Owen (Callum Turner) têm planos bem diferentes, contudo, enquanto a dupla tenta alcançar seu objetivo, seus caminhos vão se cruzar mais vezes do que eles imaginavam, ou desejavam. Entre idas e vindas, o filme de Will Gluck reflete sobre o amor enquanto brinca com essa distopia colorida imaginada pelo roteirista Travis Braun. E “brinca” é uma palavra ambígua para se referir ao que Gluck faz no filme, porque em meio a toda roupagem da comédia romântica, a sensação que fica em torno do tratamento dada a essa proibição totalitarista é que existe uma condescendência que até se faz assustadora quando o filme parece querer nos fazer acreditar que é realmente viável pensar que “talvez os fascistas tenham acertado sobre isso”, como diz um dos personagens durante “Só Por Uma Noite”. Entre todo o lúdico existe uma possibilidade de acatar essa realidade que coloca tudo em xeque.

Porque “Só Por Uma Noite” funciona como uma boa comédia romântica com seus protagonistas, com Monica Barbaro (“Um Completo Desconhecido”, “Top Gun: Maverick”) e Callum Turner (“Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore”) tendo muita química juntos em cena, e conseguem fazer com que o filme seja uma experiência parcialmente divertida, isso até a constante menção ao “mandato” que o governo estabeleceu. Ao mesmo tempo em que tem pudor de se debruçar mais sobre a problemática disso, a forma como tenta contornar toda a situação a tratando quase como um alívio cômico recorrente é um tanto constrangedora, ainda mais quando aliada ao pudor em que retrata corpos e o sexo em si, porque apesar de alguma breve nudez, literalmente nada demais, essas sequências são sempre em momentos que coloca os personagens em questão em alguma situação embaraçosa, como se estivesse os culpando por terem tido tal audácia de se despirem com alguém. Não penso que “Só Por Uma Noite” devia assumir um tom crítico, porque nenhum filme tem essa obrigação, mas sua postura torna a ideia em algo que faz tudo aqui fundamentalmente de mau gosto, porque desesperadamente quer justificar e defender uma espécie de amor romântico usando uma ferramenta totalitária para tal, criando um conceito que é difícil de defender.
É uma problemática muito intrínseca para se relevar, mas “Só Uma Noite” até que tenta com que o espectador não se atente, porque seus protagonistas fazem todo o possível para distrair da ideia central, mas sempre acabamos voltando para ela. Acho uma pena para Barbaro e Turner, porque a dupla merecia algo melhor, enquanto ela vem numa ótima crescente, já até tendo sido indicada ao Oscar, ele tem aqui seu maior papel de protagonismo, e ambos sustentam muito bem o romance central, fazendo a química entre si o principal trunfo do filme, mas nunca é o suficiente para contrapor todo o maquiavelismo de Gluck e Braun.
“Só Por Uma Noite” – Trailer Legendado:
“Só Por Uma Noite” (“One Night Only”, 2026); Direção: Will Gluck; Roteiro: Travis Braun; Elenco: Monica Barbaro, Callum Turner, Maya Hawke, Molly Ringwald, LeVar Burton, King Princess, Quintessa Swindell; Duração: 102 minutos; Gênero: Comédia, Romance; Produção: Will Gluck, Jacqueline Monetta; País: Estados Unidos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia no Brasil: 20 de Agosto de 2026;