Dia D 01

Crítica | Dia D

Dia D” já começa nos jogando no meio da ação, porque não é exatamente o mistério que interessa a Steven Spielberg aqui, não é a questão se existe ou não vida extraterrestre. O que importa é se a verdade será revelada para a população e, o mais importante, as pessoas, os humanos, que fazem parte atuante da história, criada pelo cineasta e roteirizada por David Koepp (“Jurassic World: Recomeço”, “Código Preto”). Então não é a sugestão sobre algo que interessa, mas como esses personagens se encaixam ali naquele momento e a forma que seus caminhos se cruzarão durante a jornada que terão de percorrer. É uma escolha pertinente para o retorno de Spielberg ao tema que é tão marcante na sua filmografia, porque o olhar aqui é menos de um deslumbre em relação ao extraterrestrial, ainda que se faça presente, e mais voltado para o humano, numa característica que está cada vez mais em falta: a empatia. Não é à toa que o filme bata tanto nessa tecla, e todos os diferentes pontos de vista colaborem de alguma forma para fortalecer esse mote central. A questão é o quanto isso realmente funciona, porque é muito fácil decair para uma pieguice que pode prejudicar todo o restante, e “Dia D” precisa muito que isso funcione.

Dia D 02
(Divulgação: Universal Pictures)

O filme se divide em alguns núcleos, mas os principais são os protagonizados por Josh O’Connor (“Rivais”) e Eve Hewson e o de Emily Blunt e Wyatt Russell (“Thunderbolts*”), até na justaposição dos casais há uma ferramenta narrativa que tenta agir em prol do discurso maior de “Dia D”. A princípio, no entanto, as duas duplas parecem protagonizar filmes completamente diferentes, enquanto O’Connor está no meio de uma trama recheada de perseguições e agentes secretos, Blunt está no que parece ser um comercial de margarina onde não tem a menor química com seu par, algo que talvez seja intencional, mas que só causa mesmo é estranheza. Até o caminho deles se cruzarem o que se sobressaí é um tom desconjuntado, com alguns diálogos e situações constrangedoras onde vilões parecem saídos dos mais ingênuos desenhos animados. Sem conseguir estabelecer muito bem essas conexões de uma forma orgânica ou natural, “Dia D” fica muito na artificialidade, e como o emocional é seu principal trunfo narrativo, o filme precisa recorrer justamente ao que mais lhe enfraquece. Começa uma pieguice desvairada que tenta contrapor muito da superficialidade humana que caracteriza os personagens, porque o filme é falho tanto em como estabelece muito de suas relações, também em como as explora.

Dia D 03
(Divulgação: Universal Pictures)

O gênio de Spielberg obviamente ainda se faz presente em “Dia D”, conseguindo entregar algumas cenas e sequências que visualmente tem uma construção belíssima e que fazem o filme ser mais do que a simplicidade tanto da sua narrativa como de seu subtexto e mensagem, inclusive elevam alguns desses elementos que se demonstram falhos, principalmente no quesito emocional, porque se o roteiro não é capaz de dar aos atores algo que seja o suficiente para criar emoções sinceras, Spielberg consegue resgatar algum resquício de humanidade através de suas câmeras. É o bastante para tornar “Dia D” em uma experiência palatável, mas que fica muito aquém do seu potencial, num filme que fica no quase em muitas coisas. As ideias estão cristalinas ali, mas falta um melhor desenvolvimento, falta profundidade, o que é um reflexo direto da ingenuidade desse mundo (ou Estados Unidos) que serve de cenário para o filme de Spielberg. A questão não é nem um excesso de otimismo, mas do otimismo em relação ao quão passivos são alguns elementos da cultura estadunidense, e até mesmo cristã, porque é justamente o contrário. Realmente ouvir quem precisa de empatia é entender que a luta pela verdade não é algo simples, mas uma ruptura completa do status quo, e a suavização disso é apenas a permissividade para com quem controla a “verdade”.  

Dia D” – Trailer Legendado:

Dia D” (“Disclosure Day”, 2026); Direção: Steven Spielberg; Roteiro: David Koepp; Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo, Wyatt Russell, Elizabeth Marvel; Duração: 145 minutos; Gênero: Aventura, Drama, Ficção Científica; Produção: Kristie Macosko Krieger, Steven Spielberg; País: Estados Unidos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia no Brasil: 11 de Junho de 2026;

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