A palavra “saudade” é exclusivamente do português, estando presente em outras línguas derivativas do latim. Entretanto, a originalidade do português ampliou na concepção de sua semântica: saudade é a dor ocorrida através da ausência de algo que amamos, seja do lar, de pessoas, eventos ou coisas vividas e que gostaríamos de ter presente no cotidiano.

A diretora portuguesa Catarina Vasconcelos foca no real significado da saudade. Absorve sua semântica, tornando-o imagem e som em movimento – audiovisual vivo. Trata-se de uma experiência ao qual compreende seus elementos, seus significados e, sobretudo, seus objetivos. Por ser tão precisa, consegue tornar uma experiência pessoal em uma viagem coletiva.

A Metamorfose dos Pássaros” parte de um hibridismo entre o documental e a ficção, contando sobre Beatriz, mãe de seis filhos, apaixonada por um marinheiro que em dado momento parte decorrente de seu ofício. A morte começa a assolar a família de Beatriz, tendo que lidar com as adversidades – e limitações – da mortalidade. Ao assumir seu caráter pessoal, a obra acaba por torná-lo uma temática universal: a de lidar com a saudade e, consequentemente, com a impotência de se deparar com a ausência.

Esbanjando lirismo em sequências belas, a cineasta vai construindo a medida uma jornada em busca de sentimentos aos quais o espectador é convidado a também achar. Sua avó, Beatriz, é a projeção de uma mulher ao qual Catarina meramente ouviu seu legado, nunca conhecera. Mas manteve a curiosidade, e principalmente, o sentimento de falta – e de perda – da ausência da avó. É uma construção fílmica pautada na sensibilidade, no sentimento humano, onde vemos uma figura diversa, sentimos genuinamente que ela faz parte de nosso meio.

As palavras conseguem serem comunicadas imageticamente. As imagens conseguem traduzir sentimentos. É um dos casos raros no qual a cineasta consegue atingir o auge do potencial de seu material, tornando o filme uma experimentação das mais engrandecedoras possíveis. O espectador, mesmo o pouco habituado a filmes verborrágicos e com tons experimentais, consegue tirar uma experiência baseada na empatia e no amor.

Em suma, “A Metamorfose dos Pássaros” consegue gerar diferentes versões do que representa a saudade. Ouso dizer que ainda consegue ir além: consegue representar a importância de descobrirmos um pouco de nós mesmos, expresso na vida e legado das figuras que ditaram os rumos da nossa vida.

Saudade nunca foi uma palavra tão portuguesa quanto agora.


A Metamorfose dos Pássaros (2020); Direção: Catarina Vasconcelos; Roteiro: Catarina Vasconcelos; Elenco: Manuel Rosa, João Móra, Ana Vasconcelos, Zé Maria Rosa, Henrique Móra, Inês Melo Campos, Nuno Vasconcelos, Henrique Vasconcelos, Catarina Vasconcelos; Duração: 101 minutos; Gênero: Biografia, Documentário, Drama; Produção: Pedro Fernandes Duarte, Joana Gusmão; País: Portugal; Distribuição: –; Estreia no Brasil:

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