Crítica | The Americans | 4ª Temporada

Crítica | The Americans | 4ª Temporada

- in Séries de TV
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Direção: Thomas Schlamme, Chris Long, Kevin Dowling, Stefan Schwartz, Noah Emmerich, Kari Skogland, Dan Attias, Matthew Rhys, Daniel Sackheim, Steph Green, Nicole Kassell

Roteiro: Joel Fields, Joe Weisberg, Stephen Schiff, Tracey Scott Wilson, Peter Ackerman, Joshua Brand, Tanya Barfield

Elenco: keri russell, Matthew Rhys, Holly Taylor, Noah Emmerich, Keidrich Sellati, Alison Wright, Dylan Baker, Frank Langella, Annet Mahendru, Costa Ronin, Brandon J. Dirden, Lev Gorn, Richard Thomas, Susan Misner, Daniel Flaherty, Kelly AuCoin, Vera Cherny, Michael Aronov, Margo Martindale, Peter Mark Kendall, Ruthie Ann Miles, Rob Yang

Número de Episódios: 13 episódios

Período de Exibição: 16 de Março a 08 de Junho de 2016

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O texto contém spoilers.

The Americans foi aos poucos conquistando público e crítica, voltando a cada temporada mais madura, mais consciente dos passos que estava dando e mais segura de si, sem medo de arriscar e, ainda assim, desenvolvendo tramas que sentem suas próprias limitações e, antes do desgaste, são descartadas ou encerradas de maneira correta. Com a confirmação de que a série só retornará para mais duas temporadas, uma de 13 episódios em 2017 e outra de 10 episódios, provavelmente em 2018, esse quarto ano da série começou a encaminhar The Americans para o final, alinhando seus próprios personagens com o derradeiro fim que se aproxima.

Nesta quarta temporada, mais do que nunca, a série explorou a dualidade de sentimentos na qual acarreta a vida dupla levada por Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth Jennings (Keri Russell), essa exploração, no entanto, ocorre ainda mais com Elizabeth, sempre a mais fiel à pátria. É uma reflexão sensata, vinda diretamente do elemento, ou personagem, que sutilmente vai sendo desenvolvido nessa quarta temporada. A Paige de Holly Taylor se revela um elemento chave para a temporada, exaltando o questionamento dos Jennings com tudo o que a Central de Inteligência Soviética vinha requerendo deles por todos estes anos de trabalho.

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Porque mesmo a frieza de Elizabeth não é suficiente para impedir o estabelecimento de raízes e conexões com o país nos quais os Jennings vivem. São justamente essas conexões e raízes outro ponto alto da temporada, que dizem respeito não somente aos Jennings, mas muitos dos outros personagens coadjuvantes, principalmente àqueles envolvidos no núcleo da embaixada russa. O que nos leva, também, a personagens envolvidos em tramas paralelas do outro lado do mundo, também relacionados, previamente, ao núcleo da embaixada. Aqui os roteiristas desenvolveram uma solução plausível e rápida para um elemento que poderia se mostrar muito complicado, fosse insistido no desenvolvimento.

Assim, Nina Krilova (Annet Mahendru) viveu um dos momentos mais cruéis com os quais The Americans confrontou seu público. Uma resolução rápida e simples, vinda diretamente do âmago da personagem, elemento que The Americans evidenciou com honestidade, explorando a mudança resultante do desenvolvimento da personagem ao longo dos anos. Por isso foi sincero, honesto, a maneira como Nina partiu. A maneira como The Americans trabalhou toda uma sequência idílica da soltura de Nina é exatamente uma analogia da compreensão de que tal acontecimento, um final feliz, jamais seria possível após as circunstâncias que decorreram dentro das regras estabelecidas para e pela personagem.

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Das despedidas, a mais surpreendente, no entanto, é provavelmente a de Frank Gaad (Richard Thomas), que após ver todos os seus anos de trabalhos destituídos por um simples deslize, do qual não era realmente culpado, ainda sofreu com a paranoia dos anos em que viveu, e com a nada cortês atitude dos inimigos, numa simples tentativa de recrutamento. É surpreendente por se tratar de um acidente, inesperado e, uma vez que ocorrido, inevitável. Funcionando de maneira similar à própria morte de Nina, também por tratar de personagens coadjuvantes, geralmente mais atuantes em tramas paralelas às principais, mas não menos importantes.

A importância veio numa grande adição da quarta temporada, no personagem de William Crandall, interpretado por Dylan Baker. Não só pela entrega do ator, numa atuação louvável, mas na forma como o personagem se encaixou na trama e serviu para expandir aquilo para o que a personagem da Paige abriu as portas. Porque o relacionamento que ele desenvolveu com Philip deixou aparente muito do quanto se é consumido pela vida dupla, pela qual o próprio personagem admira o casal Jenning, por levar os disfarces e uma segunda vida com tanta destreza, capaz de fazer parecer que é, realmente, o sonho americano ao vivo e a cores.

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Mas os Jennings sabem melhor, sabem como estão distantes de qualquer coisa próxima de um sonho. Eles próprios parecem chegar a conclusão unânime disso, quando Elizabeth abre mão de uma vida com Philip, para que ele possa ir embora junto com a mulher que ama. Não ficou claro se voltaremos a ver Martha (Alison Wright), mas qualquer que seja a consequência de sua ida à Rússia, a personagem e a atriz nos entregaram alguns dos melhores momentos dessa quarta temporada e da série, quem sabe da televisão. Tanto na tensa busca dos agentes do FBI no parque, como no ápice dramático da temporada para ela e Philip.

É importante notar que o oitavo episódio dessa temporada foi dirigido pelo próprio Matthew Rhys. Roteirizado por Stephen Schiff, os dois, diretor e roteirista, parecem concordar em construir algo que vá além do memorável. Em uma época em que filmes e séries vivem de verborragia, onde se é possível acompanhar a trama apenas a partir da audição, com os olhos grudados no celular, The Americans deleita o público com um início de episódio sem diálogo algum, por diversos minutos. Não são muitos, é verdade, e muita gente já pode ter explorado isso, mas é naquele silêncio do que antecede a despedida de Martha e Philip que compreendemos muito do cerne dos personagens.

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Stan Beeman (Noah Emmerich) e Aderholt (Brandon J. Dirden) se questionam, durante a investigação, o que teria feito Martha ceder ao lado “inimigo”. Dentre as suposições ingênuas e ignorantes, os dois deixam de lado, sem perceber, a realidade. Uma realidade da solidão, à qual Martha contraindica para Philip, que sabe carregar segredos que não compartilha com a própria Elizabeth. Esta que, por sua vez, percebe fazer o mesmo, assim como Paige, que acaba quase soterrada com as omissões que precisa conviver e os segredos que já a aterrorizam, mas a desenvolvem em termos narrativos, numa temporada que entrega uma Paige vivendo como uma agente soviética sem que sequer ela mesma perceba.

É de certa maneira uma tragédia, a forma como The Americans se desenvolve. Não cogito um final feliz e, caso ele seja, virá com um gosto amargo. Da mesma forma como é para Elizabeth servir sua pátria, após ter praticamente destruído a família de Young Hee (Ruthie Ann Miles). O que desestabilizou a própria personagem, não só por afastá-la de uma conexão sincera, mas por questionar aquela que tinha com sua própria nação, aquela que ela defende com uma explosão de fúria, numa atuação estupenda de Keri Russell, para convencer a própria filha a atuar como os pais mandam. Porém, como os próprios Jennings bem sabem, nem sempre todas as ordens são boas opções a se seguir.

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