Selma – Uma Luta Pela Igualdade (Selma, 2014); Direção: Ava DuVernay; Roteiro: Paul Webb; Elenco: David Oyelowo, Common, Tom Wilkinson, Carmen Ejogo, Giovanni Ribisi, Alessandro Nivola, Cuba Gooding Jr., Tim Roth, Oprah Winfrey; Duração: 128 minutos; Gênero: Biografia, Drama, Histórico; Produção: Christian Colson, Oprah Winfrey, Dede Gardner, Jeremy Kleiner; País: Estados Unidos, Reino Unido; Distribuição: Disney/Buena Vista; Estreia no Brasil: 05 de Fevereiro de 2015;

A temática racial nos Estados Unidos é intensamente abordada pelo cinema, já tendo caído num desgaste pelo tom batido predominante às obras, se entregando a discursos abusando do proselitismo e do velho e clássico maniqueísmo. Não há dúvidas da sua relevância social, porém como cinema deixa muito a desejar, sobretudo por se comunicar predominantemente com o público branco, querendo deixá-lo envergonhado das barbaridades cometidas por tal raça. Eis que Selma – Uma Luta Pela Igualdade surge de forma arrebatadora não só para quebrar isso como também reafirmar a capacidade da sétima arte em inspirar e transformar a vida do espectador ao longo de suas duas horas de duração. É uma obra-prima, sem tirar nem por, na qual há um discurso universal, sendo direcionado sobretudo ao público negro, refém ainda de algum tipo de segregação ou preconceito em pleno século XXI, tornando tal obra extremamente pertinente e intensamente atual.

O pastor e líder pacifista pelos direitos civis a negros, Martin Luther King (David Oyelowo), recém laureado com o Nobel da paz graças ao seu icônico discurso “I have a Dream”, busca chegar num consenso com o presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson) para permitir o direito constitucional ao voto à população negra, cerceada nos processos eleitorais em inúmeros Estados. Contudo, não é um dos objetivos do governo, visto o previsível desgaste a ser enfrentado, o que motiva Luther King a organizar marchas em prol dos direitos humanos na cidade de Selma, Alabama, sendo drasticamente repelido pelas instituições sulistas. Com sangue jorrando e forte agitação social, as marchas começam a ganhar grandes adeptos, iniciando uma enorme ebulição capaz de mudar os rumos da história, resta a Martin Luther King liderá-los ao mesmo tempo que busca conciliar seus conflitos internos.

O mais interessante do original e grandioso roteiro de Selma é na construção dos personagens, em Martin Luther King não vemos uma figura canonizada, sim um ser humano notável, com coragem singular, ao mesmo tempo recheado de conflitos internos, ponderando se realmente aquela luta vale a pena visto a vastidão das perdas ou mesmo o fato de ser um marido e pai omisso. É uma aproximação entre essa liderança com o público, exaltando as semelhanças que podemos ter com ele, sem nunca diminuir sua grandeza ou sua fundamental luta. A argumentação consegue ser poderosa por tornar acontecimentos da década de 60 atuais e pertinentes, pois mesmo com os avanços é estarrecedor ainda haver segregação de qualquer tipo de grupo, seja por raça, credo ou sexualidade, cada direito conquistado por tais grupos parece ser apenas “um alento”, contudo passa a ser fundamental a busca constante por mais direitos e conquistas, visando o estado pleno de igualdade entre todos os indivíduos em sociedade. Um destaque também ao discurso político empregado, como a representação do presidente Lyndon Johnson nada mais é que da política mesquinha, visando interesses particulares e não coletivos, sendo inércia política o contrário de falta de força, um argumento funcional universal.

A direção de Ava DuVernay consegue ser precisa a todo momento, não cai nas armadilhas ao gênero, foge justamente do previsível e do maniqueísmo, usa de forma corajosa imagens documentais, aborda seus personagens de forma humana e crível, dá liberdade ao elenco em cada um “defender seu peixe”, constrói sequências de puro clímax e furor. Não há como não ficar espantado com a solidez e maturidade de uma diretora tão jovem, conseguindo transpor uma emoção genuína e arrepiante. Mérito também para David Oyelowo, desde já uma promessa para a arte, com uma performance arrebatadora, sendo aquele caso no qual o ator sobe, ele se entrega ao personagem de forma plena, só vemos Martin Luther King, nos identificamos, emocionamos, queremos até participar das marchas, o expectador é arrebatado. Destaque também para o incrível Tom Wilkinson, personificando o presidente dos Estados Unidos Lyndon Johnson de forma singular, retratando a diferença de ser um estadista a entrar na história ou um reles político mesquinho e conveniente aos seus interesses. Carmen Ejogo outra surpresa, representando aqui a mulher de Martin, de forma consistente e expressiva, uma revelação a ser lapidada futuramente. Destaque também para a canção original “Glory”, usada ao final dos créditos de forma instigante, sendo uma das mais belas deste ano.

É incômodo perceber como Selma sofreu uma campanha política feroz nos Estados Unidos, foi diminuído a todo custo, ficou fora de várias premiações e conquistou sua nomeação ao Oscar meramente por “cota social”, o que é uma vergonha, pois tinha potencial para ser favorito ao prêmio. É um filme que toca nas feridas, sobretudo por evidenciar que o problema racial não é algo apenas a cor, tão pouco aos Estados do Sul, é sim um “problema americano” a ser enfrentado pelas instituições e pela sociedade civil, tal argumentação parece ter irritado a nata conservadora que fez o possível para sabotar tamanha obra colossal. É arrebatador tal filme por ser um grito as minorias oprimidas, incentivá-las ao enfrentamento, a busca por direitos, por princípios universais como igualdade e liberdade, sendo assim um dos filmes mais humanos dos últimos tempos e , sobretudo, um longa que reafirma o potencial social do Cinema -com c maiúsculo- em inspirar, refletir e mobilizar, um poder que a arte parecia ter perdido, mas felizmente pérolas como estas mostram como estamos enganados. Simplesmente inesquecível.

 

Selma – Uma Luta Pela Igualdade – Trailer Legendado:

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