Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood, 2019); Direção: Marielle Heller; Roteiro: Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster; Elenco: Matthew Rhys, Tom Hanks, Susan Kelechi Watson, Chris Cooper; Duração: 107 minutos; Gênero: Biografia, Drama; Produção: Youree Henley, Peter Saraf, Marc Turtletaub, Leah Holzer; País: Estados Unidos; Distribuição: Sony Pictures; Estreia no Brasil: 23 de Janeiro de 2020;

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Talvez a falta de base sobre o apresentador e ícone americano, Fred Rogers, do programa histórico “Mister Rogers Neighborhood“, comprometam a imersão no longa de Marielle Heller (“Poderia Me Perdoar?“). Para quem não conhece o apresentador, terminará “Um Lindo Dia na Vizinhança” seguindo a não conhece-lo, pois, apesar de todo o marketing ser em cima desta figura -decisão comercialmente certa, o filme abraça outros caminhos, na construção de uma narrativa aonde expõe a toxidez da masculinidade e a necessidade do autoconhecimento para resolução de conflitos internos e externos. O foco principal é o jornalista problemático Lloyd Vogel (Matthey Rhys), logo após seu primeiro filho nascer, ele é encarregado de fazer um perfil jornalístico sobre o apresentador, O Mister Rogers (Tom Hanks). A partir daí, os dois começam uma relação de evolução em cima do afeto e da amizade.

Além da estranheza dos brasileiros a uma figura como Mister Rogers, o principal problema é uma trama extremamente didática, diminuindo a capacidade cognitiva de seu público. É um longa que tenta emular o universo e a mitologia construída ao longo da carreira do apresentador, porém, soa bastante infantilizado, num modo forçado, acrescentando muito pouco em si à narrativa. Até mesmo o artifício de usar maquetes na construção da narrativa acaba saindo dos eixos, algo que parece ser inovador nos primeiros minutos, entretanto, capenga e soa um recurso bobo e preguiçoso. O roteiro acerta em tentar humanizar a figura de Mister Rogers, como uma pessoa com falhas, porém, extremo autocontrole destas. A dificuldade, entretanto, é conseguir gerar uma profundidade desse homem tão fascinante, parece haver tantas camadas que nunca são exploradas de fato. Isso é um dos principais limitadores da própria performance de Tom Hanks, ele acaba por ser uma imitação de Rogers, por justamente carecer de um material original. Para quem gostaria de conhecer e, mesmo entender quem foi essa pessoa, é sugerível assistir ao documentário “Won’t You Be My Neighbor?“, de Morgan Neville.

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A construção entorno do personagem principal consegue abraçar vários aspectos interligados num só: a necessidade de desconstruir o padrão de maternidade imposto pelo patriarcado durante séculos. Por isso, o longa expõe a necessidade da participação do homem nas demandas domésticas, na maternidade e mesmo do homem lidar consigo mesmo, seus sentimentos e dores. O maior trunfo do filme é conseguir abordar entorno da relação conflituosa entre Lloyd e seu pai (Chris Cooper assombroso) o reflexo de um pai renegado pelo filho, ao mesmo tempo ao qual este repete o padrão de seu pai, repetindo uma estória de ausência e intolerância. Talvez seja o núcleo mais interessante do longa, contudo a presença de Rogers como um “salvador” na vida de Lloyd e conselheiro da sua relação com seu pai, seu filho recém nascido e sua esposa, acaba por tornar tudo artificial, didático demais.

Marielle Heller é uma cineasta interessante, seu terceiro longa consegue ter grandes méritos pela sua capacidade em construir narrativas entorno de relações entre personagens e mais variados temas. Com um texto mais afiado, conseguiria atingir um ápice pelo qual a cineasta parece traçar. “Um dia Lindo na Vizinhança” acaba por ser um exercício de curiosidade do público, tanto pela vida dos personagens biografados quanto pelo futuro dessa diretora que aparenta ter tanto a oferecer, só falta realmente mostrar em um projeto completo de profundidade, e não meramente pautado de momentos pontuais.

“Um Lindo Dia na Vizinhança” – Trailer Legendado:

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