Crítica | O que Está por Vir

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“Será que podemos nos colocar no lugar dos outros?” Essa é a indagação que inicia “O que Está por Vir”, quinto longa-metragem da diretora francesa Mia Hansen-Love. A questão da empatia levantada nesse começo representa muito a obra, pois nós acompanhamos a professora de filosofia Nathalie (Isabelle Huppert) enfrentando várias tragédias pessoais – a separação do marido, a doença da mãe – em meio ainda ao cenário de rebuliço social na França, contrária ao projeto de reforma da previdência proposto pelo governo do então presidente francês, Nicolau Sarcozy. A grandeza na construção da protagonista se dá por um roteiro altivo, longe do lugar comum, no caso o da vitimização, gerando nuances de fragilidade. Ao contrário, o anseio é em demonstrar como essa mulher consegue se deparar com tantas frustrações da vida de forma solar, esperando justamente “o que está por vir”, a vida simplesmente não acabou por causa de seu divórcio.

É uma argumentação tão engrandecedora em sua plenitude que consegue usar a melancolia gerada pelos dilemas vivenciados por Nathalie como forma de causar empatia, sentimos com ela tamanha dor ao mesmo tempo que nos deparamos com o horizonte de novas possibilidades, outros primas se abrem. É algo raro de se ver no cinema e também na vida pessoal, raramente praticamos o pensamento de olhar diferentes perspectivas de um acontecimento, sendo isto fundamental para nosso crescimento pessoal. Nathalie cresce porque decide olhar para frente, por mais doloroso, é o caminho mais seguro.

A veia política da obra também é algo a ser refletida. Chega a ser irônico tenha como pano de fundo o debate sobre a reforma previdenciária imposta pelo governo francês em 2010. Em dado momento um personagem questiona a professora de filosofia “Você acha correto trabalhar até os 67 anos?!”, basicamente um resumo síntese da questão que nos soa, particularmente, urgente e atual, em meio ao projeto de reforma sugerida pelo governo brasileiro atual. Percebe-se também como Nathalie se transformou em tudo aquilo na qual repudiava, ela era uma idealista de esquerda e hoje uma burguesa desiludida com o fervor revolucionário da juventude, apática com a sociedade no modo geral, não briga por nada, sequer por negócios pessoais. Vive a vida na forma mais cômoda possível, evitando ao máximo conflitos. Tal problematização soa uma provocação de Hansen-Love, ao mesmo tempo que ela quer nossa empatia à Nathalia, quer também que a confrontemos.

Isabelle Huppert constrói sua personagem de forma pluri dimensional, proporcionando vastas camadas, servindo de um estudo de personagem soberbo. A atriz ganhou vários elogios e louros graças a sua performance no filme “Elle”, do diretor holandês Paul Verhoeven, onde tem uma grande atuação, porém num papel com elementos similares a outros da extensa carreira dela. O papel aqui se destaca dos demais, primeiro por conseguir desafiar uma atriz gabaritada a fazer algo novo, segundo pelo fato de explorar Huppert em sua plenitude como mulher, exigindo uma atuação corporal, facial, expressiva amplamente. Chega a ser lindo como Nathalie se depara consigo mesmo como uma mulher independente, livre. Absolutamente livre.

De tantas nuances e interpretações que podem –e devem- ser discutidas, ao meu ver “O que Está por Vir” é um filme sobre empatia, ou seja, se colocar no lugar do outro, no caso de Nathalie. Percebe-la como mulher que leva uma rasteira, mas se recusa a cair.  Acredito que muitos haverão de não compreender atos cometidos por ela, contudo ao meu ver ela nos inspira a buscarmos algo muito além da liberdade do ser: o amor pleno, significando amar a nós acima de todos os outros, sem nos rebaixarmos e sempre esperar o que estar por vir. Pois ele sempre chega, basta ter paciência.

TRAILER LEGENDADO

 

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