Crítica | Atômica

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Atômica (Atomic Blonde, 2017); Direção: David Leitch; Roteiro: Kurt Johnstad; Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Eddie Marsan, John Goodman, Toby Jones, James Faulkner, Roland Møller, Sofia Boutella, Bill Skarsgård; Duração: 115 minutos; Gênero: Ação, Thriller; Produção: Charlize Theron, Beth Kono, A. J. Dix, Kelly McCormick, Eric Gitter, Peter Schwerin; Distribuição: Universal Pictures; País de Origem: Estados Unidos, Alemanha, Suécia; Estreia no Brasil: 31 de Agosto de 2017;

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Autenticidade é algo que falta às produções hollywoodianas, principalmente em se tratando de sequências de ação de grandes exigências físicas. As questões de tempo e orçamento geralmente são um conflito que resultam em obras nas quais temos de nos contentar com meros lampejos, se muito, da qualidade que vários dos nomes envolvidos são capazes de entregar, inclusive quando estas produções acabam comandadas por quem pouco entende, ou se permite entender, da dinâmica necessária para fazer tais momentos funcionarem. Algo que ficou ainda mais evidente quando, em 2014, David Leitch co-dirigiu De Volta ao Jogo (John Wick), mesma função que desempenharia na continuação, John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2), antes de aceitar assumir Atômica (Atomic Blonde). É o diretor que se faz o único elo direto entre os filmes, mas um que faz toda a diferença. A extensa carreira como coordenador de dublês e desempenhando a própria função é o que dá ao filme protagonizado por Charlize Theron (Velozes e Furiosos 8, O Caçador e a Rainha do Gelo, Mad Max: Estrada da Fúria) uma de suas principais virtudes, senão a principal. Mas enquanto é aproveitada esta expertise do realizador, assim como o empenho e entrega do elenco, o potencial geral ao qual aspira nunca é plenamente conquistado, onde se atinge somente um congestionamento estilístico.

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Grande parte do que prejudica Atômica está no desenvolvimento do roteiro, que por ter uma narrativa demasiadamente simples acaba por, no final das contas, tentar parecer mais inteligente do que realmente é. Encarando como uma obrigação a subversão de expectativas, para fazer jus ao jogo de espionagem que delineia em suas tramas, o filme acaba por forçar reviravoltas que não funcionam e em sua maioria são previsíveis. A duplicidade dos personagens requer melhor equilíbrio, algo que não se encontra inteiramente aqui por conta da maneira em que se aposta nas intenções da produção. Ao mesmo tempo em que quer ser um thriller de espionagem envolto em requintes, se tenta desvencilhar do burocrático, buscando construir uma identidade singular através da colagem de músicas que compõem a trilha sonora. O repertório de clássicos dos anos 80 estão ali para dar essa aura de descolado ao filme, e em boa parte são um acerto e o tornam dinâmico, isso frente a lapsos narrativos, estes que posteriormente são resolvidos à americana, com cada detalhe sendo explicitamente entregue de forma didática para a compreensão do público. No entanto, os momentos de calmaria, ao menos musical, revelam o quanto Atômica é negativamente abarrotado por uma sucessão incansável de canções.

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Há um excesso que torna o filme em um quase musical por completo, mas a pouca coerência, no geral, o distancia disso. A sensação que se sobressaí, em muitos momentos, é a de um desencontro. Existem momentos brilhantes e únicos durante Atômica, mas alguns não funcionam, porém, felizmente nenhum chega a ser um desastre, pelo contrário. Há um certo nível que é mantido durante o filme e a partir dali se atingem picos de qualidade inegável e admirável. Toda essa ambição é parcialmente recompensada, mas também o fluxo narrativo não auxilia. As quebras narrativas, com idas e vindas entre passado e presente do filme, pontuam acontecimentos com previsibilidade. Falta uma estabilidade e isso influencia no ritmo, que em meados do caminho parece arrastado demais, fazendo as quase duas horas de duração pesarem sobre o espectador. Antes dos grandes méritos do filme, porém, é importante ressaltar que, sendo as músicas um dos atrativos para diferenciar Atômica, seu design de som conta com uma mixagem e edição sensacionais, onde os efeitos do ambiente e das sequências de ação se fazem um puro deleite de ouvir e, o melhor, desempenham muito mais responsabilidade do que as músicas para nos envolver e jogar em meio ao que está acontecendo em cena.

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O que acontece em cena tem seus méritos em débito com as escolhas de David Leitch e, principalmente, com o trabalho de Charlize Theron, ainda que todo o elenco que participe dos esforços físicos presente na narrativa a tornem o mais verossímil possível, inclusive uma subaproveitada Sofia Boutella (Kingsman: Serviço Secreto). Mas é a protagonista quem clama para si todo o destaque, seja em sequências nas banheiras repletas de gelo em empreitadas mais contemplativas de Atômica, seja nas sequências de luta cada vez mais desafiadoras. Há sempre uma busca pela clareza e compreensão do que os atores estão fazendo, então raramente há trucagens baratas e cortes rápidos que escondam uma possível falta de capacidade de algum ator em desempenhar as lutas. Há também uma busca pela naturalidade, e os movimentos sempre representam essa sensação de dificuldade e desgaste conforme nos encaminhamos para cenas mais elaboradas e mais derradeiras. O ápice desse desenvolvimento é extasiante, culminando em um plano sequência que tem por volta de sete minutos. Se há alguma dúvida de que Atômica é um filme que merece sua atenção, estes sete minutos fazem uma síntese da razão para que se deva assisti-lo. Existem percalços em meio ao caminho, mas a recompensa é tão gratificante que só nos resta agradecer Charlize Theron e companhia.

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