Critica | A Garota Dinamarquesa

Critica | A Garota Dinamarquesa

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Título Original: The Danish Girl

Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lucinda Coxon

Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Amber Heard, Ben Whishaw

Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Anne Harrison, Tom Hooper, Gail Mutrux

Estreia Mundial: 5 de Setembro de 2015 (Festival de Veneza)

Estreia Nacional: 11 de Fevereiro de 2016

Gênero: Drama

Duração: 119 minutos

Classificação Indicativa: 14 anos

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Tom Hooper é um diretor medíocre. Certamente, isso não significa que seus filmes sejam ruins. Geralmente o grande problema da película são os seus excessos (cof grandes angulares cof) e a falta de sentido narrativo nas suas decisões, mas, no fim, as suas produções sempre são salvas pelas excelentes atuações e pelas histórias fantásticas que ele resolve retratar. É o que acontece, por exemplo, em o Discurso do Rei e Os Miseráveis. Porém, nestes últimos, ainda sentíamos a forte influência do realizador seja pelos seus planos fechados, ignorando uma excelente direção de arte sempre presente nas suas realizações, seja pelas já citadas grande angulares. Aqui, em A Garota Dinamarquesa, por sua vez, o enredo é tão fantástico e as atuações são tão envolventes que, sim, os maneirismos dele não me incomodaram.

Baseado no livro homônimo de David Ebershoff, A Garota Dinamarquesa narra uma história ficcional inspirada na vida de Lili Elbe, conhecida por ser uma das primeiras mulheres a realizar uma cirugia genital. Conforme o autor explicita nas primeiras páginas do exemplar, ele apenas utilizou a realidade nos personagens, no local e na questão da transexualidade, o resto é tudo invenção de sua cabeça. Ele começou a fantasiar como que o/a protagonista teria chegado na decisão, nascendo assim o enredo da obra que, ora é adaptado para as telonas. Tudo começa na Copenhague dos anos 20 em que o casal de pintores Einar (Eddie Redmayne) e Gerda Wegener (Alicia Vikander) estão trabalhando para conseguir conhecimento com suas pinturas. Ele retrata paisagens, ela faz retratos de mulheres. Um certo dia, uma das modelos de Gerda não comparece ao estúdio, impedindo que ela termine a tela, então ela solicita ao marido que coloque um vestido e um sapato, servindo de molde para que o quadro possa ser finalizado.

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Em um primeiro momento, esse pedido é visto como uma brincadeira, mas, sem muita relutância, o cônjuge aceita e coloca as vestes femininas. A partir disso, nasce Lili. Primeiramente, esse alter ego de Einar é apenas um passatempo e, de certa forma, uma fuga, contudo, conforme o tempo vai passando, Lili vai criando uma personalidade tão constante e tão mais interessante que Einar chega a conclusão que sempre fora Lili e que, na verdade, aquele corpo masculino nunca lhe pertenceu. E é incrível como Eddie conseguiu passar para o público esse sentimento (a despeito de que uma atriz trans seria muito mais correto). Durante a projeção há uma série de alterações entre a persona de Lili e a de Einar, e o ator demonstra com maestria que o/a personagem, quando está em composição feminina é mais relaxado/a e mais completo/a, ao passo que, nas vestes masculinas sente-se enclausurado/a – sensação corroborada pela acertada escolha de sempre retratá-lo utilizando ternos apertados e, sim, as grandes angulares de Tom Hooper também auxiliam nisso. Porém, é mais curioso constatar que muitos já tentaram, sem sucesso, explicar qual é a sensação de estranheza com o próprio corpo, Eddie consegue, em uma cena, nos fazer acreditar que não é loucura da cabeça de Einar e que muito menos é algo que possa ser revertido, a despeito da sociedade daquela época (e me dói observar que as coisas não mudaram muito) acreditar que a condição do/a protagonista era uma doença.

Outro ponto a destacar é a linda fotografia que, remetendo à profissão dos/as protagonistas, lembra o tempo inteiro a quadros magnificamente pintados, ainda que, uma vez o outra Tom Hooper ataque de Tom Hooper. Ademais, a direção de arte trabalha em sintonia com os figurinos para recriar a Copenhague de 1926 com excelência, funcionando como uma prisão para Lili – nos momentos em que é obrigada a ser novamente um figura masculina -, assim como é uma fuga quando ela pode ser ela mesma. Pontos técnicos já abordados, vou me ater, agora, a melhor coisa da fita. Não. Não é Eddie Redmayne (sim ele é ótimo e isso não é novidade), mas, sim Alicia Vikander. A personagem Gerda é deveras interessante: ao passo que entende a condição do marido, por dentro, ela também está destruída. Ela vai vendo o amor da sua vida se transformar em uma outra pessoa e não há como lutar contra, pois, mais do que ninguém, ela sabe o quanto Einar, ora Lili, está realizado/a e é lindo quando a história de amor homem e mulher, vira uma de amizade e compreensão. Uma começa a auxiliar a outra e juntas elas conseguem o empoderamento necessário para seguir em frente e, provavelmente, para desafiar uma sociedade machista e opressora. Alicia demonstra esse misto de força com fragilidade de forma magnífica, além de sua conexão com Eddie ser perfeita, seja ele Einar, seja ele Lili. Um complementa o outro.

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Destarte, A Garota Dinamarquesa se torna um longa importante em vários aspectos: sejam técnicos como direção de arte, fotografia e atuação; sejam sociais como dar visibilidade a uma camada da sociedade que sempre é esquecida e não por descuido, mas propositalmente. Como referi antes, é triste constatar que dos anos vinte do século XX para a atualidade, pouco mudou e, mesmo que a película, não foque na luta por reconhecimento, visto que tinha a intenção de apenas apresentar a transição de Einar para Lili, é importante dar visibilidade a causa. No mundo e no Brasil, principalmente, ainda há uma dificuldade enorme para uma pessoa transexual se adaptar e isso vai desde a alteração do nome em um simples documento de identidade, até o preconceito sempre presente, ainda que velado. Enfim, é lindo ver que A Garota Dinamarquesa tenha conseguido alguma relevância nas premiações, mas, assim como Carol de Todd Haynes, o filme, por trazer minorias, acaba sendo escanteado na categoria de melhor filme e de algumas outras principais. De qualquer forma, é um começo. Quem sabe um dia, historias como essa tenham o devido reconhecimento.

TRAILER LEGENDADO

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