O Animal Cordial (2017); Direção: Gabriela Amaral Almeida; Roteiro: Gabriela Amaral Almeida; Elenco: Murilo Benício, Luciana Paes, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Camila Morgado, Irandhir Santos, Humberto Carrão, Ariclenes Barroso, Thais Aguiar, Eduardo Gomes, Diego Avelino; Duração: 96 minutos; Gênero: Thriller, Slasher, Gore; Produção: Rodrigo Teixeira; País: Brasil; Distribuição: California Filmes; Estreia: 09 de Agosto de 2018;

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No fim do dia, um restaurante de classe média paulista é invadido por dois bandidos armados. O dono Inácio (Murilo Benício), a garçonete (Luciana Paes), o cozinheiro (Irandhir Santos), além dos clientes -o solitário Amadeu (Ernani Moares) e o casal elitista Verônica (Camila Morgado) e Bruno (Jiddu Pinheiro). Contudo, Inácio se recusa a permanecer passivo frente ao perigo, reagindo e iniciando um legítimo caos no pequeno estabelecimento. Se passando apenas em um único ambiente, a diretora Gabriela Amaral Almeida estréia com seu primeiro longa-metragem construindo nesse cenário uma parábola sobre as relações de classes brasileiras.

Sérgio Buarque de Holanda determinou em  “Raízes do Brasil (1936)” que o brasileiro era um homem cordial. Não por tratar com gentileza o próximo, sim por agir decorrente seus instintos e interesses, não separando o público do privado, usando dessa cordialidade meramente por conveniência. O título de O Animal Cordial não só é um uma ironia à tese de Buarque de Holanda como o filme desconstrói esse “Homem”, transpondo como esse animal, guiado meramente por instintos, interesses e não separando os espaços públicos e privados, tudo é extensão do próprio instinto.  Gabriela Amaral Almeida faz dessa ironia para retratar o quão animalesco é esse homem -ou animal- ao qual estamos reféns.

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Com destreza, a diretora subverte o gênero de terror slasher, nascido em meados dos anos 70 e 80 como resposta conservadora ao movimento feminista. Amaral Almeida usa todos os signos dos gênero para decompor a masculinidade solidificada em Inácio, um personagem extremamente complexo por evocar o pior do ser humano ao tentar parecer invencível. Ai está sua fragilidade. Em Sara, a garçonete, está o contraponto, de uma igual animal cordial, entretanto que tem como justificativa a luta de classes. Ela está abaixo da hierarquia, por isso deve lutar para atingir o topo, custe o que custar.

Esse espectro social de nação é representado nesse restaurante, de uma afiada e tensa relação de classes brasileira: no casal elitista que desdenha dos funcionários e se acha superior; do cozinheiro (trabalhador) explorado pelo patrão; do solitário ex-policial saudoso dos velhos tempos na ativa; do patrão de classe média visando prosperidade a fim de entrar na elite econômica; dos assaltantes que tem a visão Robin Hood do ofício e da garçonete… que nada mais, nada menos do que manipula a tudo e a todos ao seu bel prazer em prol da sobrevivência nessa selva caótica chamada Brasil.

As imagens compostas pela diretora em O Animal Cordial sintetizam o potencial do roteiro em falar de classes e de brasilidade, numa direção que trabalha muito bem com os espaços restritos que tem a fim de sufocar o espectador, criando tensão ao máximo. O pavor fica entorno justamente da identificação ao retrato das classes transpostas, nas atitudes humanas comuns ao brasileiro. O elenco liderado por Murilo Benício e Luciana Paes (Mãe Só Há Uma) têm uma sintonia absoluta, conseguindo dar um ar cômico sádico, pouco usual ao tipo de papel.

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Em seu primeiro longa, Gabriela Amaral Almeida entrega um retrato sangrento, crú e conciso de um país prestes a ir às urnas em outubro próximo, tendo um candidato misógino, homofóbico, racista e retrógrado como um dos líderes das pesquisas de intenção de voto à presidência do Brasil. Diante disso, mais do que nunca, vivemos um tempo de animais cordiais, onde a insanidade parece ser voga.

Com isso, Amaral faz a síntese do momento que vivemos.

O Animal Cordial – Trailer:

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