Atualmente parece quase obrigatório o lançamento anual de cinebiografias musicais que se ancoram em alçar seus protagonistas ao sucesso nas premiações, “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” conseguiu atingir parcialmente seu objetivo, com Kate Hudson terminando indicada ao Oscar de forma surpreendente. Não acredito que seja algo injusto porque, querendo ou não, o filme de Craig Brewer cumpre com as próprias expectativas que cria e o que de fato surpreende é Hugh Jackman não ter recebido a mesma atenção que Hudson no circuito de premiações, visto que estão a par até no que entregam ao espectador. Falar depois do fato é, obviamente, muito fácil, mas é inegável o quanto o filme é um veículo para a atuação da dupla protagonista e é menos uma questão de gosto falar sobre o trabalho dos dois, mas sim em como funciona dentro do filme, que é muito mais honesto com seu público do que as incontáveis cinebiografias musicais que viraram uma febre nos últimos tempos. “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois”, aliás, sequer foge do padrão, é um filme bastante simples e até quadrado, mas ao se assumir sem pudor algum como melodrama, olhando com carinho para a caricatura de seus personagens, se torna bastante funcional também devido ao trabalho de seu elenco, que esbanja muita química juntos e fazem o todo ser efetivo, ainda que minimamente.
O que ajuda “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” é também o fato de ser baseado em um documentário homônimo, que conta a história real de Mike e Claire Sardina (Jackman e Hudson, respectivamente), casal que se conheceu como “imitadores” de outros cantores famosos e que se uniram numa paixão singular, tanto um pelo outro como pela música e a performance, formando a dupla “Lightning and Thunder” (Raio e Trovão) como um tributo a Neil Diamond, ascendendo ao sucesso na cidade onde viviam e formando uma família que no auge do sucesso e união se deparam com uma tragédia que muda o rumo de suas vidas, precisando lidar com as consequências que reverberam na vida e nos sonhos de cada um dos Sardina. A parte trágica é, inclusive, a parte mais aquém do filme, porque “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” funciona mais quando é descontraído, talvez acidentalmente porque é quando se leva mais a sério, mas carece de uma estrutura melhor para sustentar o que tenta fazer, e que devia refletir justamente na atuação de Kate Hudson. Aqui o saldo é negativo porque é a parcela do filme que soa mais constrangedora, que mais tenta se lançar como um drama sisudo que se assemelha a outras coisas que já estamos cansados de ver.
O mais interessante em “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” é exatamente o descolamento da realidade no qual seus protagonistas existem, é esse momento lúdico que Mike e Claire criam para sua família e para si próprios, também tentando escapar de traumas anteriores, que se torna de certa forma aconchegante. É possível que não seja intencional, mas há uma maneira muito específica com que o filme encara seus personagens, que são essas figuras caricatas, como eu já disse, mas que se enquadram na realidade à sua forma, e a falha do filme é não conseguir traduzir tão bem a passagem do lúdico para o impacto do inevitável, ainda que não seja o suficiente para estragar a experiência, que dentro de seus limites é algo agradável e comovente, um melodrama na medida perfeita que é enriquecido pelas boas performances de seu elenco, inclusive os coadjuvantes, mas que funciona melhor em determinada esfera. No fim, Hugh Jackman e Kate Hudson são capazes de tornar “Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” em um filme tão simpático que é impossível ficar indiferente, talvez porque cumpra o principal objetivo de seus protagonistas: entreter.
“Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” – Trailer Legendado:
“Song Sung Blue: Um Sonho a Dois” (“Song Sung Blue”, 2025); Direção: Craig Brewer; Roteiro: Craig Brewer; Elenco: Hugh Jackman, Kate Hudson, Michael Imperioli, Ella Anderson, Mustafa Shakir, Fisher Stevens, Jim Belushi, King Princess; Duração: 132 minutos; Gênero: Biografia, Comédia, Drama, Musical; Produção: John Davis, John Fox, Craig Brewer; País: Estados Unidos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia no Brasil: 29 de Janeiro de 2025;