Em “Feito Pipa” acompanhamos Gugu (Yuri Gomes), um garoto queer que vive com sua avó, Dilma (Teca Pereira), no interior do Ceará, e essa relação dos dois é o grande trunfo do filme. A dupla formada pelo ator mirim e pela veterana da atuação é o que melhor funciona aqui, seja pela química de ambos, seja pela sensibilidade com a qual o diretor Allan Deberton consegue empregar para desenvolver a jornada dos dois enquanto eles enfrentam seus próprios desafios, que pode tanto os separar como os unir ainda mais. A abordagem dessa relação maternal é de um impacto sublime, e se sobressaí a todo o restante do filme. Vale pontuar que em seu filme anterior, “Meu Melhor Amigo”, também havia uma dificuldade de Deberton em conciliar as partes mais fantasiosas de seu musical com o drama, o filme funcionava melhor em uma faceta do que em outra, que soava muito engessada. Acredito que é algo que ainda existe aqui neste filme, porque enquanto Gugu e Dilma são uma parceria irretocável, o restante não consegue acompanhar e “Feito Pipa” fica mais no espectro do potencial daquilo que podia ser, do que realmente é. Nem por isso deixa de ser um bom filme.

A trama principal de “Feito Pipa” não tem o que se tirar nem pôr, mas em contraposição, outras tramas acabam sendo apenas simpáticas ou simplesmente genéricas. O maior exemplo disso é o personagem de Lázaro Ramos, onde o ator tem uma atuação bastante discreta porque o filme nunca dá a ele um rumo, inclusive, seu melhor momento é quando Ramos e Gomes contracenam e seus personagens refletem sobre o destino da mãe do garoto. Ainda assim, não chega próximo a qualquer momento de Gomes com Teca Pereira, esta última o grande nome do filme. A atriz entrega uma atuação estupenda, desde a forma como nos conquista através de seu carisma, até os golpes mais fortes quando é acometida cada vez mais forte pelo Alzheimer. A liberdade que a personagem dá ao neto transforma a relação dos dois numa de reconhecimento e aconchego, num sentimentalismo que é muito bem transmitido por Deberton. Em justaposição, quando o personagem de Ramos entra em cena, fica evidente que falta algo e a impressão é que “Feito Pipa” tenta ser correto, e não arrisca uma coisa e nem outra, não há exatamente um desenvolvimento, muito menos uma resolução para a relação entre pai e filho. Há muito de um lugar comum no filme que representa o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar nesta temporada, e há um filme especial quando Yuri Gomes e Teca Pereira estão em cena em “Feito Pipa”.
“Feito Pipa” – Trailer Oficial:
“Feito Pipa” (2026); Direção: Allan Deberton; Roteiro: André Araujo; Elenco: Yuri Gomes, Teca Pereira, Lázaro Ramos, Georgina Castro, Castro Francisco; Duração: 93 minutos; Gênero: Drama; Produção: Karen Castanho, Bianca Villar, Fernando Fraiha, Allan Deberton; País: Brasil; Distribuição: Paris Filmes; Estreia no Brasil: 05 de Novembro de 2026;