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Crítica | Cara-de-Barro

O que mais espanta na tentativa da DC em criar um universo cinematográfico conectado é que os filmes mais “experimentais” e individuais são sempre mais atraentes que aqueles que seguem a linha lógica desse universo. Um exemplo foi o “Coringa” de Todd Phillips, que rendeu o Oscar de melhor ator a Joaquin Phoenix, ainda que a continuação desse filme tenha sido um fracasso de crítica e público. O mesmo serve, no entanto, para “Supergirl”, lançado esse ano e um dos maiores fracassos de 2026, em todos os sentidos, e isso sendo subsequente a um bem recebido reboot do universo DC com o “Superman” de James Gunn. Quando as coisas parecem estar no caminho certo, o presente começa a querer repetir o passado, então era realmente difícil saber o que esperar de “Cara-de-Barro” e o resultado, felizmente, é um daqueles acertos da DC quando o estúdio deixa a produção assumir uma identidade muito própria e mergulhar no gênero que deseja. No caso do filme de origem sobre um dos vilões do Batman (que não dá as caras aqui), o terror é o que impera, e é o grande trunfo da produção de James Watkins, com uma atuação protagonista de Tom Rhys Harries que ajuda a elevar ainda mais tudo que vemos aqui.

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(Imagem: Warner Bros. Pictures)

O body horror é muito bem construído em “Cara-de-Barro”, tanto visual como narrativamente. Porque as escolhas estéticas de Watkins funcionam bem, e é um filme que pulsa com vida através de imagens, uma iluminação e movimentos de câmera que criam uma tensão bastante funcional, num trabalho de direção de fotografia atípico para filmes de “super-herói” dada sua qualidade. O maior empecilho é, provavelmente, o quão digital pode parecer a transformação do galã na criatura que passa a assombrar as ruas de Gotham, e o excesso é um elemento que também transcende para a narrativa posteriormente. Até lá, entretanto, o equilíbrio entre o drama de Matt Hagen (Tom Rhys Harries) com o suspense da transformação que se dá aos poucos é muito intrigante e envolvente, especialmente porque o ator é convincente demais em seu papel, carismático o suficiente para conquistar o espectador, e tão cativante a ponto de não nos afastar enquanto se torna um monstro quando olha para dentro de si próprio. E aqui reside a dificuldade de “Cara-de-Barro” em dar aquele passo além, porque enquanto se estabelece muito bem, inclusive com uma visceralidade visual de dar inveja a muitos filmes assumidamente de horror, na hora da resolução o que nos é entregue é algo diferente, numa mudança praticamente abrupta de estilo, que em parte é compreensível, mas que influencia negativamente no todo.

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(Imagem: Warner Bros. Pictures)

“Cara-de-Barro” basicamente se desenvolve com algumas tramas paralelas, o drama do protagonista, seu relacionamento com a médica que lhe dá uma segunda chance -com Naomi Ackie (“Mickey 17”, “Pisque Duas Vezes”) fazendo o que pode com a personagem- e uma quase sub-trama de corrupção policial. Mesmo com essa divisão, ainda há um volume muito grande de coisas acontecendo dentro de cada uma, e no momento que precisam se entrelaçar é quando o filme começa a desandar. Chega a ser meio anticlimático como o filme abraça uma faceta quase de filme de ação em seus momentos finais, e é uma pressa como se tudo precisasse ser resolvido o quanto antes. É irônico como “Cara-de-Barro” pensa ser necessário terminar de forma explosiva para deixar seu clímax melhor, e o efeito é exatamente o oposto. Como disse sobre o excesso de efeitos digitais na transformação do protagonista, essa falta de sutileza é ainda mais evidente em vários fatores na sequência final, e a própria execução desses momentos finais fica aquém até mesmo do que veio anteriormente. Não o suficiente, o filme ainda tem uma dificuldade para encontrar um encerramento ideal, porque tenta concluir todas suas tramas e sub-tramas de uma vez e parece se tornar infindável. É uma pena porque tudo que vem antes faz de “Cara-de-Barro” uma das entradas mais interessantes de um vilão/anti-herói nos cinemas, mas o potencial de ser um filme ainda mais memorável é preterido por uma saída genérica como qualquer outro filme de ação.

“Cara-de-Barro” – Trailer Legendado:

“Cara-de-Barro” (“Clayface”, 2026); Direção: James Watkins; Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini; Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, Joshua James, Joana Ribeiro, David Dencik, Max Minghella, Eddie Marsan; Duração: 108 minutos; Gênero: Ficção Científica, Suspense, Terror; Produção: Matt Reeves, Lynn Harris, James Gunn, Peter Safran; País: Estados Unidos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia no Brasil: 22 de Outubro de 2026;

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