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Crítica | Digger

Depois de fazer história vencendo o prêmio de Melhor Direção por 2 anos consecutivos no Oscar, por “Birdman” e “O Regresso”, o cineasta mexicano Alejandro G. Iñárritu tirou um bom período sabático, ao menos dos cinemas, retornando agora de forma integral, assim completando uma década desde suas grandes conquistas e um grande lançamento nos cinemas -“Bardo” caiu na armadilha da Netflix. Junto dele, retorna também seu fiel escudeiro, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, mas o que os reúne outra vez, muito provavelmente, foi a parceria inédita que “capitaneia” esse novo filme, com Tom Cruise sendo o centro das atenções de “Digger”. O ator de “Top Gun: Maverick” e da franquia “Missão: Impossível” protagoniza aqui um personagem muito diferente do que estamos acostumados a ver vindo dele, interpretando um Digger Rockwell que é um magnata do petróleo que tem o presidente dos Estados Unidos na palma mão, o que vem a calhar justamente quando uma de suas plataformas de petróleo está à beira de causar um colapso ambiental sem precedentes. Enquanto essa crise se desenrola, Iñárritu, Lubezki, Cruise e Cia. nos levam numa jornada que tenta desconstruir essa caricatura que protagoniza uma sátira até próxima demais da nossa realidade, com um tom de alarmismo que lembra “Não Olhe Para Cima”, até nas irregularidades.

Digger 03
(Imagem cortesia da Warner Bros. Pictures)

“Digger”, entretanto, é muito mais pautado por seu protagonista do que pela iminente catástrofe que se aproxima enquanto o debate entre os poderosos é sobre como controlar a narrativa. À primeira vista parece uma sátira interessante, mas aos poucos e, então, de forma cada vez mais rápida, vai tudo se esgotando, e as risadas que é capaz de arrancar não são tantas, até porque parece temer mergulhar por completo nessa caricatura, tanto para Tom Cruise como para Iñárritu parece necessário reforçar o quanto autoconsciente tudo aqui é, e cada discurso soa mais pedante, enquanto mergulha em pieguice. No todo, inclusive, o discurso de “Digger” é bem raso, carece de substância que pudesse o tornar afiado, ao invés disso, acaba ficando num lugar comum, como um sermão redundante que passa longe de atingir seu alvo. De certa forma, a narrativa até aspira aos moldes de obras de Charlie Kaufman, mas sua execução é tão sem inspiração que o “truque” idealizado para o filme tem o efeito contrário ao desejado. Porque se o desejo era ser ousado, o resultado me parece muito mais uma covardia quando reluta em abraçar por completo essa sátira, com medo de que o público não compreenda inteiramente a proposta inicial. E assim “Digger” se apequena ainda mais como filme.

Digger 04
(Imagem cortesia da Warner Bros. Pictures)

É engraçado, porque têm seus arroubos de uma grande produção, mas para além de alguns cenários megalomaníacos, “Digger” é a obra imageticamente menos interessante da dupla Iñárritu e Lubezki, é verdade que tem alguns gatilhos visuais que tentam se destacar e ressaltar a narrativa que se desenrola, mas a criatividade dá lugar a um engessamento que é bastante atípico para a dupla de realizadores. Se dez anos atrás eles ganharam notoriedade por serem transgressores dentro uma de indústria sedenta por desafios visuais –Lubezki fotografou “O Regresso” todo com luz natural-, em “Digger” o cansaço parece vencer, assim como os executivos, e o resultado é um filme que pode ter uma roupagem de grandeza, mas no fundo é essa condição fajuta e imutável que mantém seguro um status quo, já devidamente adestrado para não desafiá-lo. Assim, o peso da caracterização de Tom Cruise como Digger se esvai com muita facilidade, porque se teme a caricatura, e a saída encontrada só não é tão criminosa quanto a subutilização de Sandra Hüller numa personagem completamente deslocada no filme. Acredito que é inegável o quanto “Digger” almejava ser um “Dr. Fantástico” (filme de Stanley Kubrick, lançado em 1964) para os tempos contemporâneos, no fim, falta a acidez e, principalmente, a coragem de se lançar inteiramente na loucura em que propôs a princípio.

“Digger” – Trailer Legendado:

“Digger” (2026); Direção: Alejandro G. Iñárritu; Roteiro: Alejandro G. Iñárritu & Alexander Dinelaris & Nicolás Giacobone e Sabina Berman; Elenco: Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons, Sophie Wilde, Robert John Burke, Emma D’Arcy; Duração: 129 minutos; Gênero: Comédia; Produção: Alejandro G. Iñárritu, Mary Parent, Tom Cruise; País: Estados Unidos, México, Reino Unido; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia no Brasil: 01 de Outubro de 2026;

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