Ponto Sem Retorno 01

Crítica | Ponto Sem Retorno

É impressionante a vitalidade de Ridley Scott, com seus quase 90 anos, entregando produções sempre de grande escala quase anualmente nos cinemas, vide seus últimos projetos sendo “Gladiador II” e “Napoleão”, alguns de seus trabalhos mais ambiciosos. Assim, “Ponto Sem Retorno” é até de certa forma algo mais intimista, adaptando o livro homônimo de Peter Heller que acompanha a história de Hig (Jacob Elordi), um ex-mecânico que se vê numa parceria inusitada com o “sobrevivencialista” Bangley (Josh Brolin), após um vírus dizimar boa parte da humanidade. A dupla vive num perímetro muito bem protegido por ambos, com Hig sempre sobrevoando a região em seu avião monomotor e, ocasionalmente, indo até alguma cidade abandonada em busca de suprimentos. A maior companhia de Hig, no entanto, é seu cachorro Jasper, que o acompanha para todo lado e é seu último laço de humanidade com a antiga vida que tinha e com quem ele é, ainda mais quando discorda do tratamento que Bangley dá a qualquer outro sobrevivente, enquanto Hig ainda tenta ajudar quem for possível, o fazendo acreditar que, talvez, ainda exista alguma possibilidade de um futuro. Essa busca por humanidade, entretanto, é tão insípida quanto a artificialidade que Ridley Scott aborda “Ponto Sem Retorno”.

Ponto Sem Retorno 02
(Divulgação/Imagem: 20th Century Studios/Fabio Lovino)

É tudo tão mecânico que é difícil se relacionar com qualquer aspecto de “Ponto Sem Retorno”, até a trama envolvendo Jasper, o cachorro do protagonista, Ridley Scott consegue trabalhar de uma maneira bem tímida, o que enfraquece completamente qualquer emoção sincera que o filme pudesse ter. É o reflexo de uma narrativa bastante congestionada, que quer dar conta de muito elementos e tramas paralelas, mas não se dá ao tempo nem esforço para desenvolvê-las todas de maneira satisfatória o suficiente, asso, alguns acontecimentos vão ficando quase esquecidos pelo filme e deixam de surtir o impacto que deviam. Tudo acontece de uma forma tão protocolar que os sentimentos sequer se fazem presentes, e quando há alguma tentativa chega a ser risível (a cena da música!), porque Ridley Scott aborda e filma “Ponto Sem Retorno” com uma postura que torna tudo bastante genérico. O único momento destoante é mais próximo do clímax do filme, numa sequência que se resolve tão abruptamente que mal se pode aproveitar o mínimo de surrealismo que traz alguma sobrevida ao que é hoje o cinema de Ridley Scott. É tão deslocado que parecemos estar diante de outro filme, um que se faz mais interessante que este.

Ponto Sem Retorno 03
(Divulgação/Imagem: 20th Century Studios/Fabio Lovino)

Até porque é pouco condizente com a maneira na qual Ridley Scott trata a urgência em “Ponto Sem Retorno”, apresentando no início algo que supostamente iria influenciar a narrativa, mas depois é trabalhado de uma forma paralela tão desinteressante. No geral é um filme muito desencontrado, porque têm essas ideias para justapor seus personagens e suas origens e características, mas a partir disso tudo o que temos é uma tremenda pobreza imaginária, seja visual ou narrativamente. É até meio melancólico um filme com uma produção tão boa parecer tão sem vida, um visual tão depressivo, que até podia refletir a cabeça do protagonista interpretado por Jacob Elordi (“O Morro dos Ventos Uivantes”, “Priscilla”). Não há, entretanto, nenhum indício de que “Ponto Sem Retorno” queira se debruçar sobre isso, ou talvez seja a incapacidade de Ridley Scott de entregar algo que tenha algum resquício de humanidade ou sensibilidade, porque mesmo em meio a diálogos ruins, existe ali algo que é mais profundo sobre esses personagens e o mundo que agora habitam, mas é impossível se conectar a eles. Acredito que não há segredo sobre a vitalidade cinematográfica de Ridley Scott, porque com produções que, apesar de ricas, são tão padronizadas e industrializadas que tornam fáceis de realizar seus projetos, mas simultaneamente, eles se tornam cada vez mais frios e artificiais.

Ponto Sem Retorno” – Trailer Legendado:

Ponto Sem Retorno” (“The Dog Stars”, 2026); Direção: Ridley Scott; Roteiro: Mark L. Smith; Elenco: Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley, Guy Pearce, Allison Janney, Benedict Wong; Duração: 118 minutos; Gênero: Aventura, Drama, Ficção Científica; Produção: Ridley Scott, Michael Pruss, Mark L. Smith, Cliff Roberts; País: Estados Unidos, Reino Unido; Distribuição: 20th Century Studios; Estreia no Brasil: 27 de Agosto de 2026;

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