Chegou ao fim nessa quarta-feira o quinto Olhar de Cinema, festival internacional que acontece em Curitiba. Desde semana passada, a capital paranaense recebeu quase 100 longas e curtas metragens de diversos países. Podemos dizer que foi uma festa da pluralidade, com um tom político em evidência se levarmos em conta o momento que estamos passando. Seja direto ou indiretamente, houve o clamor contra o governo golpista ilegítimo do senhor vice presidente, interino da titularidade do cargo no momento. Nós apoiamos e reiteramos a ilegalidade desse governo.

A logo oficial dessa edição.

Contudo, o tom politizado do festival e seus filmes não condiz com sua execução final, apresentando uma contradição interessante. Na premiação do júri, foram contemplados curtas e longas com tom machista pra lá de duvidoso. A impressão que tive ao longo desses dias é quão personalista é esses ambientes de festivais e afins, sou do Rio de Janeiro, uma Cidade com uma cena cultural mais vasta e menos agrupada, em Curitiba me pareceu haver uma concentração entre os mesmos diretores, produtores, atores e cia. Estes movem o festival levando em conta seu gostos e contatos. É algo criminoso? Claramente não, temos mais aproximação com a arte e o cinema de determinada pessoa na medida que a compreendemos e conhecemos melhor. Entretanto, eu fico particularmente frustado de como é difícil entrar num meio tão fechado sendo jovem cineasta. É paradoxal como um festival tão jovem consegue ser tão averso aos novos talentos, sobretudo com novas linguagens cinematográficas que vão na contramão do predominante. Temos todo ano, por exemplo, filmes que colocam em evidência a masculinidade outros com tom narrativo totalmente visual, meramente experimental.

Enfim, as críticas feitas ao festival são necessárias para ele se aperfeiçoar, eu acredito mesmo que ele tem uma proposta interessante e nos proporciona momentos únicos. Contudo, é necessário haver uma meá-culpa a fim de não ficar refém apenas de um estilo de cinema, dos mesmos cineastas, possibilitando maior oportunidade para novos diretores que merecem o direito de se expor, para com isso incentivar novos realizadores a entrarem no meio, proporcionando um ciclo positivo para o cenário cinematográfico local e nacional. A minha conclusão é que é fundamental que o Cinema Curitibano, paranaense ou brasileiro como um todo, não só fale em democracia, como haja de forma democrática e democratize as oportunidades, os espaços -financiados com dinheiro público- e os meios.

Seminário contra o Golpe (Foto: ASpiacci e JVeiga)

Outra questão que me foi incômoda foi saber que o meio do festival tratou com desdém críticos e jornalistas que cobriram o festival de forma diferencial. O motivo? A idade. Exatamente isso, eu me senti claramente diminuído por organizadores do Festival Olhar de Cinema que não me tratavam de igual para igual por eu ser jovem no meio, algo bastante desanimador,  não só na questão profissional como também pessoal. Início de carreira é difícil para todos, temos essa de sermos menosprezado, sobretudo num meio onde ter contatos é fundamental, só que é fundamental que haja respeito. Eu deixo aqui meu descontentamento com isso, porque qualquer pessoa deve ser tratada de igual, sobretudo quando esta está a cumprir uma função. Infelizmente só aqui em Curitiba eu sofri essa espécie de preconceito, já estive cobrindo o Festival do Rio e a Mostra São Paulo e lá sempre fui respeitado e tratado como profissional, não como um “intruso” fora de seu real lugar.

Sobre os filmes exibidos, eu apreciei bastante essa seleção, fui com ceticismo e sai surpreendido – assim é melhor. Os Clássicos exibidos foram ótimos, com uma imagem sublime. Tivemos um problema e outro na questão da legenda, mas nada que fosse tão sério ao ponto de prejudicar a experiência. Se tem uma mostra que me arrebatou, sem a menor dúvida, foi a “Novos Olhares”, focado em primeiros longas. Todos que vi dessa mostra foram ótimos. A competitiva oscilou entre filmes incríveis e boçais, isso ficou mais claro ainda na competitiva de curtas, no qual a boçalidade parece ter imperado.

Foto: ASpiacci e JVeiga

O filme de abertura foi agradável. O de encerramento antológico. Antes de falar sobre o filme de encerramento, vou pontuar o que mais me agradou no quinto olhar de cinema, até para não parecer injusto após as críticas acima:

1-  Os clássicos: Ver Fellini no cinema já valeria pelo festival inteiro, só que ele estava acompanhado de nomes como Greta Garbo, Bresson, John Ford…

2 – A diversidade: Filmes do mundo inteiro, praticamente. Reafirmo o meu destaque para a mostra Novos Olhares que apresentou com contundência diferentes visões de mundo ao longo de seus filmes selecionados.

3- O crescimento: Tive oportunidade de conversar com vários cineastas, entrevistar algum deles. Foi bastante engrandecedor como profissional. Cresci também como pessoa por ter levado comigo bastante do que senti em alguns longas.

4- A retrospectiva: Conheci o cinema de Person graças ao Olhar de Cinema, só tenho a agradecer o tão engrandecedor que foi. Person vive!

5- Novas amizades: Estar todo dia num mesmo ambiente com as mesmas pessoas acaba por construir um vínculo. Como eu tenho demanda em me expor e conhecer pessoas, tive a felicidade de conhecer várias novas pessoas -do meio ou não. 

6- A gordice: A pipoca doce do cineplex novo batel é simplesmente singular!!!!

7- O Crush: Porque não é só de filme que a gente vive né?! Existe amor no olhar de cinema -risos. Só que foi peculiar e engraçado os acontecimentos desse “episódio”, que acabou me rendendo um nova amizade (e crush e wanabbe ficante)

8- O público: teve um público assíduo, predominante jovem e consciente, pois elegeu como melhor filme e melhor curta realmente os melhores da competição.

9- O protesto: Várias manifestações dentro do festival contra o ilegítimo presidente interino. A resistência continua #VoltaQuerida

10- a adrenalina: Não tem coisa melhor que sair correndo de um cinema pra outro. Essa adrenalina é o que há.

11- Os convidados: Só gente fina, receptiva e respeitosa.

12- A  saudade: a gente fica cansado, louco pra acabar. Mas escrevo esse texto já cheio de melancolia e saudade. Que venha o Sexto Olhar de Cinema!!!

13- O encerramento: E por fim, a quinta edição acabou em grande estilo com Thomas Vinterberg. Deixo aqui embaixo minhas considerações sobre o longa:

A Comunidade, Thomas Vinterberg, 2016 (foto):

Durante a década de 70, no auge da guerra fria e ascensão do movimento hippie como resposta ao conflito, ficou comum o ato de pessoas distintas, sem laços de sangue, se agruparem e morarem conjuntamente em uma “Comunidade”. Hoje em dia, a Constituição e o sistema jurídicos classificam não mais como um estilo de vida, agrupando no âmbito da “família solidária”. Contudo, mesmo sendo um movimentos social e político na época, era visto como algo vulgar e não aceito socialmente. Nos deparamos com a construção dessa comunidade devido a necessidade da âncora de TV Anna (Trine Dyrholm) mudar de vida e se sentir mais potente em meio a situação política, seu marido Erik (Ulrich Thomsen) resiste porém acaba aceitando. Se forma essa espécie de família e um tempo adiante cai por terra a ideia de que é um sistema perfeito.

O mais instigante na direção e roteiro de Vinterberg é o uso do teatralismo de forma ousada e inventiva, construindo por meio de elipses vários dilemas comuns na vida em sociedade, em casal e também a insegurança do jovem em achar seu lugar no mundo. O filme varia entre o personagem da esposa, a sensacional Trine Dyrholm que apresenta momentos de pura aflição, o do marido vivido por Ulrich Thomsen, igualmente soberbo e de sua filha vivida pela jovem e constante Martha Sofie Wallstrøm Hansen. A Comunidade é um filme que estipula um paradoxo incrível, pois a ideia de estar ao redor de mais pessoas nos proporciona mais segurança. Contudo, esses três personagens acabam ficando mais reclusos, sufocados e solitários (!) se fechando em suas bolhas que, infelizmente, são provisórias e meramente paliativas.

É incrível como o filme aborda a complexidade de se viver em sociedade, fazendo alusão em sua “Comunidade”. Mais que isso: Mostra como nós, indivíduos, precisamos de nossos momentos individuais, conosco, para não nos tornemos letais ao próximo. Estar bem conosco antes de estar ao lado das pessoas. É bastante contundente, atual e melancólico. Portanto, o novo longa de Thomas Vinterberg não é meramente sobre viver em sociedade. É, sobretudo, aprender a viver consigo mesmo, só, para então conseguir viver sadiamente com terceiros. O uso da trilha sonora torna a experiência divertida e completa. É um filme que cresce após seu término, como por exemplo a cena soberba onde Anna vai abrir mais uma edição do telejornal local e começa a decair em lágrimas, sua ficha cai e percebemos o quão tóxico está viver com pessoas que não respeitam seus limites. É simplesmente soberbo.

Nota: 5/5

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Concluindo, ainda que com os erros que devem ser apontados na esperança de serem corrigidos futuramente, o Festival Olhar de Cinema mostrou vitalidade, jovialidade e potencial em se tornar não só um simples festival, como também potencial para ser incentivador e propagador do cinema nacional, contribuindo na construção da cena cinematográfica local e nacional. É necessário deixar certos vícios que podem gerar mediocridade. Contudo, eu tenho expectativa que os rumos desse festival estão sólidos e que a tendência é melhorar.

Eu espero poder ter novamente a oportunidade ano que vem de participar cobrindo o festival, sobretudo para poder relatar os acertos e concertos que virão na próxima edição. Eu acredito que o caminho do Olhar de Cinema está cada vez solidificado, só precisa tomar cuidado novamente com erros que podem prejudicar sua ascensão. Fica aqui minha expectativa para o pleno sucesso do #6OlhardeCinema, já deixando claro que estarei presente, sem dúvidas.

Até lá!

 

 

 

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