Depois de um morno dia de abertura, coube ao segundo a tarefa de mostrar a tão anunciada qualidade e diversidade do 46º Festival de Cinema de Gramado.  Na programação tínhamos exibição da primeira parte da mostra de curtas gaúchos e, por fim, durante a noite, era hora dos curtas “Um filme de baixo orçamento”, de Paulo Leierer e “Guaxuma”, de Nara Normande, e dos longas “Las Herederas”, de Marcelo Martinessi e do aguardado “Benzinho”, de Gustavo Pizzi tomarem a tela do Palácio dos Festivais.

Sessão Mostra Gaúcha de Curtas-Metragens 01 – Foto: Fabio Winter / Pressphoto

Em relação aos curtas gaúchos, em breve publicaremos críticas individuais de cada um, mas se levarmos em conta este primeiro dia, teremos a mostra mais fraca dos últimos tempos em qualidade e diversidade. A comissão de seleção destaca e comemora que “É flagrante a quantidade e a qualidade dos filmes de realizadoras mulheres, ou de temática de gênero”, contudo a temática de gênero, por exemplo, se reduz apenas a mulheres. O tema queer, por exemplo, foi totalmente escanteado, sem falar de outros temas. De qualquer forma, ainda tem mais um dia de exibição de curtas, então amanhã trago mais conclusões sobre as escolhas da comissão.

Foam exibidos os seguintes filmes na tarde desse sábado

“Um corpo feminino”, de Thaís Fernandes

“Entre sós”, de Caetano Salerno

“Maças em fogo”, de Bruno de Oliveira

“O comedor de sementes”, de Victoria Farina

“Abismo”, de Lucas Reis

“Movimento à margem”, de Lícia Arosteguy

“Subtexto”, de Cristian Beltrán

“Vinil”, de Catherine Silveira de Vargas e Valentina Peroni Freire Barata

“Sem abrigo”, de Leonardo Remor

“Grito”, de Luiz Alberto Cassol

“À Sombra”, de Felipe Iesbick

Sem abrigo foi o melhor deste dia, a forma como emprega a linguagem e os movimentos de câmera para apresentar uma personagem esquecido pela sociedade é de uma sensibilidade ímpar. Provavelmente será um dos curtas mais premiados pelo Juri. Além disso, cabe fazer uma menção honrosa para “Um Corpo Feminino” é um documentário importante por questionar a mulheres sobre o seus corpos, alguns aspectos de ordem técnica e de montagem me incomodaram durante a projeção, mas mesmo assim o tema é sempre relevante e merece o destaque.

Longa-metragem estrangeiro Las Herederas – Diretor Marcelo Martinessi e elenco – Foto: Fabio Winter / Pressphoto

Logo em seguida, já iniciaram os trabalhos do turno da noite com a competição de curtas metragens nacional com “Um filme de baixo orçamento”, de Paulo Leierer. É uma obra bastante divertida que utiliza a metalinguagem para ao mesmo tempo reverenciar a forma de fazer cinema independente e, também criticar a falta de recursos tanto para a ciência quanto para o próprio audiovisual. Após, “Las Herederas”, de Marcelo Martinessi, abriu a mostra de longas estrangeiros, filme aguardadíssimo, considerando o sucesso que fez no Festival de Berlim esse ano.

De fato, a fita merece todos esse elogios. A dinâmica criada pelo diretor e a construção do trio principal de mulheres protagonista é algo raro no cinema mundial. Além disso, temas LGBT (alô comissão de seleção dos curtas gaúchos), depressão, solidão, dentre outros, tomam a tela de forma singular e sempre apresentando um motivo narrativo de estarem ali. Sem dúvida, estará entre os premiados na noite do dia 25/08.

Carlos Saldanha recebe Troféu Eduardo Abelin- Foto: Fabio Winter / Pressphoto

Finalizada a projeção do “Las Herederas”, o festival entregou a primeira das suas três honrarias previstas: o troféu Eduardo Abelin, que sempre é dedicado a profissionais técnicos do audiovisual. Neste ano, o prestigiado diretor e animador Carlos Saldanha foi o homenageado. Caso você não o conheça, ele é responsável por sucessos como “A Era do Gelo”, “Robôs”, “Rio” e “O touro Ferdinando”, que, inclusive, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação em 2018. Premio mais que merecido, ainda mais considerando que ele, como muitos outros, tem mais reconhecimento em outros países do que no Brasil.

Passado o intervalo, o curta “Guaxuma”, de Nara Normande, encantou a plateia e a crítica presente no Palácio. Todo feito com areia, a animação traz uma sensibilidade ao retratar a amizade de duas garotas enquanto rabisca diversos elementos culturais indígenas. É forte, poético e do nível qualidade que se espera de um festival como Gramado.

E, para encerrar a noite, sucesso em Sundance, no início desse ano, “Benzinho”, de Gustavo Pizzi, encantou e emocionou. Karine Teles, protagonista do filme, dá um show de sutilezas na sua interpetação de uma mulher forte que tem de lidar com a repentina mudança de seu filho, que vai para a Alemanha jogar handball; com a sua irmã que vem sofrendo agressões do marido; com falta de dinheiro. Em suma, ela representa a vida de mulheres brasileiras, sempre sobrecarregadas pelo papel duplo, triplo que a sociedade as incumbe. Também deve ser uma das películas mais premiadas pelo júri e merecidamente.

Assim, finalizamos o segundo dia de exibições de uma maneira um pouco mais feliz e, torcendo para que, de agora em diante, só tenhamos filmes bons (não custa sonhar, né?)

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