Mosquito (2020); Direção: João Nuno Pinto; Roteiro: Fernanda Polacow, Gonçalo Waddington; Elenco: João Nunes Monteiro, Sebastian Jehkul, Filipe Duarte, Josefina Massango, Miguel Moreira; Duração: 122 minutos; Gênero: Drama, Guerra; Produção: Paulo Branco; País: Portugal, Brasil, França; Distribuição: –; Estreia no Brasil: –;

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(Divulgação/Imagem: Alfama Films)

O cinema mundial é dominado por narrativas entorno de distintos eventos ocorridos ao longo da Segunda Guerra Mundial. Seja pelas atrocidades cometidas pela Alemanha fascista terem marcado a história mundial ou mesmo pelo fato de as artes terem conseguido, em diferentes formas, representar ou documentar os eventos do conflito. As narrativas desse segundo confronto a nível mundial eclipsaram o primeiro confronto.

Muitos relatos da Primeira Guerra foram construídos pela literatura ou pelas pinturas, baseado em experiências pessoais ou estórias contadas de sobreviventes que participaram do evento. É importante reconhecer as origens do conflito, decorrente do choque imperialista das nações Europeias frente aos continentes asiático e africano – o chamado 3º mundo – tornando essas nações colônias, subserviente aos interesses estrangeiros.

Esse ano, tivemos “1917” do diretor Sam Mendes – quase vencedor do Oscar de direção e filme. Baseado em relatos de familiares, partia do princípio de um jovem que precisava passar pelo front a fim de impedir uma operação dos aliados com risco iminente de fracasso. Agora, temos “Mosquito”, longa de João Nuno Pinto, filme de abertura do festival de Roterdã desse ano. A comparação entre as duas obras não se resume apenas a temática, ao longo da projeção é inegável enxergar a existência de um diálogo entre os dois filmes. Contudo, são as diferenças que são determinantes para tornar o longa de Nuno Pinto tudo aquilo que o de Mendes propunha e não conseguiu atingir.

Com suas colônias africanas atacadas, Portugal se vê obrigado a entrar no conflito. Em Moçambique, as forças expedicionárias portuguesas desembarcam ante a ameaça dos alemães. Zacarias (João Nunes Monteiro), um jovem soldado de 17 anos com grandes anseios em desbravar o mundo, resolve se alistar, sendo enviado nesse pelotão. Em dado momento, ele contrai malária e é abandonado por seu grupo. Mesmo debilitado, o jovem não se dá por vencido e tenta a todo custo sobreviver, no meio da selva africana e retornar ao front, mostrando sua bravura e disposição de lutar pelo país. No meio do caminho, ele é mantido preso por tribos locais e ainda tem sua sanidade posta em xeque, ao não saber distinguir o que é realidade ou alucinação decorrente dos efeitos colaterais da doença – ocasionada pelo tal mosquito do título.

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(Divulgação/Imagem: Alfama Films)

Baseado nas memórias do avô do cineasta, “Mosquito” usa da guerra como argumento central em prol de um resgate histórico essencial, onde pouco interessa o conflito em si, mais sim os males ocasionados pelo imperialismo europeu, trazendo por consequência um atraso histórico refletido até os dias de hoje. O foco de Pinto se baseia na odisseia de seu personagem, o sujeito acima do conflito. Ao buscar sua sobrevivência, ele se depara com horrores oníricos que expõe uma nação fragmentada baseada num sentimento rudimentar por território e poder.

As comparações com o filme de Mendes soam inevitáveis no transcorrer do longa, principalmente pelo uso da fotografia como elemento visual mais relevante na narrativa, sendo construída com um amplo preciosismo para transpor conflitos em cada quadro. Contudo, o longa se afasta de Mendes ao usar desses elementos à serviço da narrativa e não o contrário. O uso da contraluz, por exemplo, é um artifício usado com precisão, ao demostrar o apagamento de Zacarias, frente ao seu esquecimento pelo seu esquadrão e ainda mesmo, frente à sua invisibilidade ao povo local.

Em uma sequência forte, onde o jovem é abusado sexualmente por uma nativa da tribo que lhe tornou refém, vemos um conflito que em nada é sexual ou erótico. É um conflito de sombras, os dois corpos brigam pela soberania, tendo apenas a luz do fogo as iluminando. Passa um sentimento primitivo, uma semântica de ancestralidade, o primordial é o ser mais forte.

Ao abraçar os elementos de ancestralidade, o cineasta deixa evidente que aquele conflito, que impôs graves males humanitários, além do próprio fim da hegemonia dos principais países europeus como principais potências mundiais, nada foi além do que um conflito baseado em princípios bárbaros, não nos difere, portanto, dos povos antigos considerados “arcaicos” ou mesmo dos povos nativos africanos, “atrasados”. João Pinto compreende que aquele conflito é baseado na brutalidade primitiva, chegando a ser irônico que muito dos mutirões de soldados são dizimados por um inimigo tão insignificante quanto um inseto transmissor de uma doença. O desfecho reafirma o argumento central do filme, que destrincha o real significado de uma guerra.

Mosquito 04
(Divulgação/Imagem: Alfama Films)

Há uma atuação visceral do jovem João Nunes Monteiro, aonde o corpo do ator expressa a corrosão que a guerra impõe ao homem, sobretudo por dilacerar os sonhos de uma juventude rapidamente envelhecida. É uma performance tão contida, mas com momentos de explosão aonde o próprio público chega à catarse – a empatia construída entorno da jornada do personagem é feita a base de muitos conflitos impostos pelo próprio cineasta ao espectador, que se vê em divisão constante até o arrebatamento.

Acima de um “filme de guerra”, o longa de João Nuno Pinto é um longa humano, de memória, resgate e, sobretudo, resistência. Aquelas vidas avassaladas por interesses escusos e ousaram não se curvar, se corromper perante o falso pressuposto ufanista. “Mosquito” é um alento para que a mosca do fascismo não morda e corroa as sociedades e tornem conflitos banais, como os dois transcorridos na história mundial, inevitáveis. Além de um poderoso discurso, o longa ainda é uma poderosa estória de uma jornada em busca a uma redenção jamais conquistada – de um continente em conciliação com suas atrocidades.

“Mosquito” – Trailer Oficial:

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