Um Pequeno Favor (A Simple Favor, 2018); Direção: Paul Feig; Roteiro: Jessica Sharzer; Elenco: Anna Kendrick, Blake Lively, Henry Golding, Andrew Rannells, Linda Cardellini, Rupert Friend, Jean Smart; Duração: 117 minutos; Gênero: Comédia, Suspense, Thriller; Produção: Paul Feig, Jessie Henderson; País: Estados Unidos; Distribuição: Paris Filmes; Estreia no Brasil: 27 de Setembro de 2018;

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Não é difícil classificar “Um Pequeno Favor” como comédia, afinal é o gênero que consagrou seu diretor, Paul Feig (“A Espiã Que Sabia de Menos“, “Caça-Fantasmas“), porém, é mais uma vez prova do quão bem o realizador consegue mesclar seu nicho com outros gêneros, assim, é bastante comum ser cômico quanto o próprio filme se leva a sério.

Contudo, ao contrário do que se possa esperar, é justamente o caso no qual a autoconsciência do que está acontecendo torna as situações sempre aceitáveis, balanceando-se perfeitamente na tênue linha da paródia, sendo simultaneamente uma excelente comédia e um intrigante thriller.

Por mais que um ou outro elemento não funcione, o todo é de uma tremenda execução que compensa pelos mínimos deslizes, onde acabamos por nos deparar com um dos trabalhos mais inspirados de Feig, reunindo grandes estrelas que embarcam de corpo e alma num filme que faz da experiência que oferece um deleite.

O conjunto da obra orna, ainda que longe da perfeição, num conglomerado de competência que culmina em um filme que dá vida a um dos roteiros mais inventivos e divertidos do ano, seja pelas risadas que gera ou pela maneira como desenvolve sua narrativa e se faz, de fato, uma jornada válida de se acompanhar.

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O roteiro de Jessica Sharzer (“Nerve – Um Jogo Sem Regras”) pode recorrer a clichês em certos momentos, mas há uma sagacidade singular sob as rédeas da roteirista. Junto dela, Paul Feig é capaz de transformar tais momentos em subversões da narrativa.

Não incomoda, portanto, a previsibilidade de alguns pontos nela, porque a maneira como “Um Pequeno Favor” se encaminha a eles é geralmente proposital e estão ali justamente para que possam ser parodiados.

Mas nem todas as reviravoltas são previsíveis e, apesar de algumas coisas aparentarem ocorrer rápido demais, principalmente no terceiro ato, é um conjunto tão orgânico que se faz justiça com a forma em que as personagens são desenvolvidas.

Talvez pudesse ser melhor trabalhada a trama “vlogueira” da personagem de Anna Kendrick (“O Contador“), que é o elo mais frágil da narrativa, apesar de compensar momentaneamente em uma breve sequência, posteriormente explicitada nos créditos finais.

Um dos pontos mais fortes do filme é, aliás, seu elenco. Anna Kendrick assume muito bem o papel de protagonista ingênua, mas uma vez pressionada seus segredos e um possível lado sombrio vem à tona e tomam conta da atriz, que transita entre o agradável, o irritantemente insistente e um quê de assombroso trabalhado com uma sofisticada sutileza.

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Entretanto, o principal nome de “Um Pequeno Favor” é Blake Lively (“Águas Rasas”). Cada vez mais agradável de assistir em cena, aqui a atriz outra vez prova seu talento e abraça o cinismo de sua personagem, acabando por antagonizar a protagonista de Kendrick.

Não a ofusca, pois as duas se completam. São duas partes de uma mesma história e suas diferenças é parte do que faz o filme funcionar tão bem, o confronto e o embate entre essas personalidades são desenvolvidas de maneira a culminar num conflito, que as faz encontrarem uma na outra um aprendizado sobre si próprias.

No entanto, nada ali é piegas. Por vezes é irônico, por vezes é sarcástico, com certeza sempre muito ácido, mas de fácil e recomendada digestão.

Paul Feig realiza um filme de tamanho requinte, que serve plenamente como um entretenimento que opta por escolhas certas e inteligentes, como também um experimento de gênero que tem alguns elementos mais rebuscados.

Dentro do modelo industrial hollywoodiano, faz o possível para desenvolver sua produção de maneira a conversar com suas personagens principais, assim como a fotografia tenta dar um luxuoso tom ao suspense que se vê instaurado.

Por fim, “Um Pequeno Favor” é um filme certamente memorável, com decisões tanto extra como diegeticamente que conversam com o espectador sobre o que está se desenrolando no filme, como se questionando a quem assiste sobre até onde é possível levar sua brincadeira com tropos e estereótipos.

Um Pequeno Favor – Trailer Legendado:

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