João Carlos Martins é um dos grandes exemplos de superação brasileiros. O pianista passou por dois acidentes graves em sua jornada e, quanto mais dificuldades a vida parecia impor, mais ele mostrava que podia se reinventar. João também foi um dos mais reconhecidos musicistas nacionais pelo mundo, não só pelo seu talento nos pianos, mas também pela forma como influenciou toda uma nova geração de artistas. Era questão de tempo até que sua biografia chegasse às telonas.

Há dois tipos de cinebiografia: aquelas que estão bastante preocupadas em procurar a humanidade de seu protagonista que tem de lidar com inseguranças e com dificuldades; e aquelas que estão mais preocupadas em exaltar o brilhantismo do biografado do que abordar os momentos delicados com maior profundidade. João, O Maestro é, indubitavelmente da segunda categoria.

Parece que apenas estamos passeando pela vida do protagonista – e não pensem que é um passeio bom, pois mais parece que está se viajando por uma cidade a 100km/h em que não há oportunidade de se aprofundar em algum ponto turístico, sequer criar alguma intimidade por onde se passa. Sabemos que João Carlos Martins é um exímio pianista, mas não entendemos porque ele é obcecado por ser o melhor. Não sabemos quais são as inseguranças dele, o que ele teme, quais são as suas motivações. É isso gera uma enorme dificuldade de identificação com o espectador que não se sente parte da narrativa.

Mauro Lima adota um estilo de roteiro bastante convencional para cinebiografia, três fases: uma na infância, outra adulta e por fim, a velhice. Em função disso, há uma necessidade iminente de troca de atores a qual não é orgânica, beirando o anti-clímax. Nas cenas com as crianças, tanto a escolha de elenco como a direção são sofríveis – assim como os diálogos deveras rasos também não ajudam -. Mais parece que o elenco infantil decorou as falas, o diretor mandou dizer para câmera e, acabou. O que aparenta é não houve preparação. Quando se vai para o elenco adulto, Rodrigo Pandolfo assume o protagonismo e, infelizmente, os problemas não mudam muito. O ator é bastante limitado e não convence nos trejeitos de João Carlos Martins. Ainda bem que Alexandre Nero assume a bronca no terceiro ato e salva a fita do desastre total e apenas no que se refere à atuação, porque no roteiro e na direção, nem Marlon Brando salvaria.

Pelo menos a música é boa e as cenas nos teatros são bem produzidas, ainda que mal inseridas no filme. Percebe-se que houve uma preocupação em fazer com que esses momentos fossem os mais reais possíveis, tanto que de fato acreditamos que os atores estão tocando piano. Da mesma forma, a direção de arte do longa é irretocável, tanto as recriações de época e o figurino estão muito bem inseridos na narrativa, cumprindo seus papéis na criação do tom do filme.

Infelizmente, João, O Maestro não é o filme que o grande pianista e maestro brasileiro João Carlos Martins merece. Era a oportunidade perfeita de se conhecer ainda mais sobre a vida desse ser iluminado, focando mais na humanidade, transformando o ícone em algo que se pode tocar, refletir e se inspirar. Bem, para nossa sorte o artista está vivo e ainda pode mostrar ele mesmo quem é.

Nota: C-

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About the author

Editor-Chefe do Cine Eterno. Estudante apaixonado pelo universo da sétima arte. Encontra no cinema uma forma de troca de experiências, tanto pelas obras que são apresentadas, quanto pelas discussões que cada uma traz. Como diria Martin Scorsese "Cinema é a importância do que está dentro do quadro e o que está fora".

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